sexta-feira, 23 de outubro de 2026

A CARTA DE RETRATAÇÃO DO DIABO- (inspirado no conto machadiano A Igreja do Diabo)

 

 

ElsonMAraujo

Houve um tempo em que os ventos, vindos não sei de onde, trouxeram para Imperatriz um sujeito que, sem pedir licença a ninguém, resolveu implantar a primeira Igreja do Diabo em terras maranhenses. Como não poderia ser diferente, a reação da população da cidade, majoritariamente cristã, foi imediata, e...

A aventura durou pouco. O pastor saiu da cidade escorraçado, com marcas de facão no lombo, e foi pregar em outra freguesia. Ao que parece, o capiroto não conseguiu assegurar a permanência de sua representação terrena por estas bandas.

Na última sexta-feira,23, pela manhã, participei, pela segunda vez, como avaliador do projeto O Direito na Academia, promovido pelo curso de Direito da Universidade Ceuma. Um dos cinco trabalhos apresentados tinha como inspiração o conto A Igreja do Diabo, de Machado de Assis, publicado originalmente em 1884.

Foi o bastante para que minha memória viajasse no tempo. Lembrei-me daquela tentativa frustrada de fundar um templo do capiroto em Imperatriz, na década de 1990, e comecei a imaginar o que teria acontecido se, depois de tantos fracassos, o próprio Diabo resolvesse vir a público, pelas redes sociais, pedir desculpas a Deus e à humanidade por tamanha insanidade.

Imagino que, na linguagem dos nossos dias, ele se portaria mais ou menos assim:

 

Excelentíssimo Senhor Deus,

Venho, respeitosamente, apresentar minhas desculpas a Vossa Excelência e, por extensão, à humanidade, pelos transtornos causados pela minha infeliz iniciativa de fundar uma igreja.

Tentei uma vez, numa espécie de vai que cola, usando como inspiração o grande Machado de Assis. Depois, coloquei o projeto na cabeça de um discípulo. Por fim, houve aquela tentativa em Imperatriz do Maranhão.

Fracassei.

Reconheço, ainda que a contragosto, que ninguém pode mais do que o Senhor.

Fui movido pela vaidade, pela ambição e, sobretudo, por uma avaliação equivocada da natureza humana. Confesso que, depois de tantos séculos trabalhando na área, deveria conhecer melhor o meu público.

Mas até o Diabo, convenhamos, tem direito a um momento de ingenuidade.

Minha ideia parecia genial. Cansado de trabalhar de maneira informal, sem estatuto, diretoria, templo, convenção ou qualquer estrutura administrativa, resolvi organizar o negócio. Afinal, enquanto Deus contava com uma tradição milenar, eu continuava operando na informalidade, dependendo das fraquezas alheias e dos descuidos da consciência.

Foi quando decidi profissionalizar o pecado.

Criei regras, estabeleci princípios, organizei discursos e passei a oferecer aos homens aquilo que, secretamente, muitos já desejavam: a possibilidade de fazer o que bem entendessem, sem o incômodo de sentir culpa.

Minha propaganda era simples. Nada de sacrifícios, penitências ou promessas de uma felicidade futura. Eu oferecia resultados imediatos. O paraíso, para mim, poderia esperar. O importante era garantir a satisfação dos desejos aqui na Terra.

E não é que deu certo?

Lembro, Excelência, que em pouco tempo, minha igreja cresceu. Os templos ficaram cheios, os discursos ganharam aplausos e as adesões se multiplicaram. Descobri que bastava apresentar o vício com um nome bonito para que muita gente o confundisse com uma virtude.

A ganância passou a ser chamada de ambição legítima.

A vaidade ganhou o nome de autoestima.

A mentira recebeu tratamento de estratégia.

A esperteza foi promovida a inteligência.

E a falta de escrúpulos, ah, essa alcançou um prestígio que nem eu, com toda a minha experiência, havia imaginado!

Foi então que comecei a acreditar na minha própria propaganda.

Pensei que havia finalmente vencido Deus. Afinal, quem precisaria de princípios quando se podia obter vantagens? Quem se preocuparia com a consciência quando havia tantas justificativas disponíveis?

Foi um erro de cálculo.

O problema começou quando percebi que alguns dos meus fiéis, apesar de tudo, continuavam praticando boas ações. Havia quem ajudasse um necessitado sem contar vantagem. Quem devolvesse o que não lhe pertencia. Quem dissesse a verdade quando a mentira lhe seria mais conveniente.

Pior: alguns dos meus dirigentes pregavam uma coisa e faziam outra.

Não me refiro apenas aos que discursavam contra a corrupção e depois descobriam uma maneira particular de conviver com ela. Refiro-me também aos que condenavam publicamente a vaidade, mas não conseguiam passar diante de um espelho sem consultar a própria importância.

Havia os que defendiam a liberdade, desde que todos concordassem com eles. Os que exigiam respeito, mas tratavam os adversários como inimigos. Os que prometiam servir à coletividade e, depois de alcançar o poder, pareciam descobrir que a coletividade era uma espécie de patrimônio particular.

E havia, naturalmente, os que juravam fidelidade eterna à minha doutrina, mas mudavam de lado assim que o vento soprava em outra direção.

A política, devo admitir, tornou-se um campo de observação privilegiado. Não porque todos os políticos fossem meus discípulos, seria injusto e até comercialmente desastroso generalizar, mas porque ali, como em tantos outros ambientes humanos, a distância entre o discurso e a prática às vezes adquiria proporções monumentais.

Descobri, inclusive, que alguns dos meus melhores clientes não precisavam de igreja alguma. Já traziam consigo um altar portátil, diante do qual sacrificavam a coerência sempre que surgia uma oportunidade conveniente.

E o mais espantoso: faziam isso sem se considerarem pecadores.

Foi quando comecei a desconfiar de que meu projeto tinha um defeito de origem.

Eu havia acreditado que os homens queriam apenas liberdade para pecar. Não percebi que muitos também desejavam continuar sendo considerados bons, honestos, justos e virtuosos, mesmo quando suas ações contrariavam as próprias palavras.

Queriam as vantagens do vício e o prestígio da virtude.

Queriam fazer o que lhes convinha e, ao mesmo tempo, conservar uma boa imagem diante dos outros.

Queriam a liberdade de mudar de opinião, mas nem sempre admitiam aos demais o mesmo direito.

Em resumo, eu queria seguidores fiéis. E acabei descobrindo que a fidelidade humana, em determinadas circunstâncias, tem prazo de validade.

Foi então que resolvi procurar Vossa Excelência.

Confesso que subi ao Céu contrariado. Não era fácil admitir que minha grande obra estava ameaçada não pela falta de adeptos, mas pela incapacidade deles de permanecerem coerentes com aquilo que defendiam.

Deus me recebeu com a serenidade habitual.

Expliquei o problema. Falei da minha igreja, dos meus princípios, das deserções e da estranha mania que os homens tinham de praticar, escondidos, justamente aquelas virtudes que publicamente haviam jurado abandonar.

Esperava uma reprimenda. Talvez um sorriso de satisfação. Quem sabe uma manifestação de superioridade.

Mas Deus apenas me ouviu.

E foi nesse silêncio que compreendi a extensão da minha derrota.

Eu havia desafiado o Criador acreditando que conhecia profundamente a criatura. Confundi fraqueza com destino, tentação com fidelidade e adesão com convicção.

O homem podia me acompanhar numa sexta-feira e procurar Deus no domingo. Podia defender a honestidade enquanto lhe fosse vantajosa e abandoná-la quando surgisse uma oportunidade melhor. Podia condenar o erro alheio e encontrar mil justificativas para o próprio.

Eu queria uma humanidade inteiramente minha.

Esqueci que nem a maldade humana consegue ser absolutamente fiel a si mesma.

Por isso, Senhor, peço desculpas.

Peço desculpas a Vossa Excelência pela arrogância de acreditar que poderia derrotar a sabedoria divina com um estatuto bem redigido e uma campanha publicitária eficiente.

Peço desculpas à humanidade por ter acreditado que suas fragilidades eram tudo o que ela possuía.

E peço desculpas, sobretudo, aos meus antigos colaboradores, que agora terão de procurar outra ocupação. Não posso continuar sustentando uma instituição cujos membros, de vez em quando, resolvem praticar o bem sem minha autorização.

Quanto à igreja, estou considerando encerrar as atividades. Talvez mantenha apenas um pequeno escritório para pesquisas. Afinal, o comportamento humano continua sendo um mistério fascinante.

Não descarto, porém, uma última iniciativa: abrir um curso de aperfeiçoamento para os que pretendem ingressar na política, na religião ou em qualquer outra atividade que exija discursos elevados e uma boa dose de resistência às tentações.

O curso terá apenas uma disciplina: Coerência entre o que se diz e o que se faz.

Prevejo, contudo, um problema de matrícula.

Atenciosamente,

O Diabo,

Ex-fundador, presidente e principal investidor da Igreja do Diabo.

P.S.: Senhor, se não for pedir demais, gostaria de saber se existe alguma possibilidade de aproveitar o tempo de serviço. Afinal, são muitos séculos de experiência profissional.

Pelo que tenho observado na Terra, entretanto, receio que a minha aposentadoria seja prematura.

O mundo continua oferecendo oportunidades de trabalho. O que me preocupa é que, ultimamente, nem preciso fazer muita coisa. Às vezes, basta que alguém prometa o impossível, que outro acredite e que um terceiro se encarregue de justificar tudo.

E eu, que me julgava indispensável, começo a suspeitar de que fui vítima do meu próprio orgulho.

Talvez a humanidade não precise de uma igreja para conhecer o pecado.

Talvez precise apenas aprender a reconhecer, em si mesma, aquilo que passa a vida inteira condenando nos outros.

E essa, Senhor, é uma tarefa para a qual nem o eu, com toda minha  experiência, encontrei  ainda uma solução.

 

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Esperança não nasce em árvores


ESPERANÇA 

Então, nada aconteceu.

Esperança não nasce em árvores

Ela nasce no mais recôndito

cantinho do coração


ENTRE/MENTES 

Entre mentes o choque das luzes

penetra a escuridão gélida do

inconsciente

Ciência de que a vida

sempre sobrevive


RESISTÊNCIA

Ela resiste

No caos os

cães ladram

Madrugada a dentro

ajoelha  e espera

pelo milagre que 

nunca chegou 


quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

ALQUIMIA DO RECOMEÇO

 


Somos valiosas criaturas/Unimos em só corpo minerais diversos/Somos terra mas, também somos ferro, chumbo, níquel, alumínio, diamante, ouro e prata/Somos água, fogo e ar/ Somos um fenômeno cósmico, alquímico. com partículas de todos os cantos do universo. Mas, chega um momento em que tudo se liquefaz/ Nos tornamos novamente a poeira, que conduzida pelo elemento ar , se unirá a outros corpos universais.
É o fim? Não!
Apenas o encerramento de um ciclo e o recomeço de outros... Um bom recomeço de tudo, para todos.

Feliz 2026.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2025

O Encantador de Serpentes



(Republicação)

ElsonMAraujo

Quando a ciência ainda não se impunha com a autoridade dos tempos modernos, problemas simples e, por vezes, complexos eram resolvidos pelo saber ancestral, transmitido de geração em geração. Sobretudo as questões de saúde, que, antes de médicos e fármacos, eram confiadas às mãos sábias das rezadeiras e benzedores. Essas figuras, dotadas de uma aura de mistério e respeito, eram a esperança das mães aflitas e dos pais resignados.

Minha saudosa mãe, Teresa, confiava nesses rituais. E por isso, algumas vezes, me levou a um desses mestres da cura. Lembro-me, em especial, de uma tarde em que fui conduzido a um rezador para "cortar uma íngua" – um caroço dolorido na virilha, seguido de febre. A casa do benzedor era humilde, feita de taipa e coberta com palha de babaçu. No terreiro bem varrido, galinhas ciscavam entre porquinhos que remexiam a terra, enquanto um cajueiro carregado espalhava pelo ar um aroma adocicado. As pipiras, numa algazarra, se fartavam dos frutos maduros. São memórias que, mesmo com o passar dos anos, permanecem intactas.

Minha mãe explicou ao velho benzedor o motivo da visita. Com gestos tranquilos, ele me pediu que retirasse a alpercata e firmasse o pé no chão. Pegou uma faca de cabo de chifre de boi, riscou a terra ao redor do meu pé e, enquanto murmurava palavras indecifráveis, desenhou pequenas cruzes no chão. Feito isso, despediu-se com um aceno e um olhar de quem já sabia o desfecho. E não demorou: dias depois, eu já corria pelos quintais da vizinhança, como se nada tivesse acontecido.

Nesses tempos de escassez de médicos e remédios, a fé era o único refúgio. Rezas, chás, banhos e unguentos formavam o arsenal terapêutico da sabedoria popular. Ainda hoje, há quem preserve essas práticas. Minha cunhada Socorro Oliveira, por exemplo, dedicou-se a estudar essas tradições e, inclusive, apresentou um trabalho acadêmico sobre o tema em uma instituição portuguesa. Ciência e tradição, muitas vezes, caminham juntas.

E o encantador de serpentes, do título? Ah, não me esqueci dele! Eles ainda existem. Fragmentos dessa antiga arte podem ser encontrados em algumas regiões do Maranhão. Conheci um deles no início da pandemia, em São Raimundo das Mangabeiras. A descoberta veio por meio de um sobrinho por afinidade, Diego, o nome dele, que lamentava a perda de uma vaca de leite e três cabras, vítimas das cobras peçonhentas que infestavam a fazenda.

– Vou procurar o encantador – disse ele, com a certeza de quem já testemunhara a eficácia do método.

Na casa do homem, um entra e sai constante. Quando chegamos, ele estava "alinhando a arca" de um vizinho. Com uma camisa velha, media as costas do paciente e explicava, com convicção:

– Tá vendo aqui? Tem uma diferença grande. Vamos ajeitar isso agora!

A "arca caída", também conhecida como espinhela caída ou peito aberto, é uma aflição popularmente diagnosticada por fortes dores na boca do estômago, nas costas e pernas, acompanhadas de cansaço. Para aquele benzedor, a cura vinha da reza – e sem margem para dúvidas.

Mas e as serpentes? Como ele pretendia livrar a fazenda do meu sobrinho delas? Por R$ 300,00, prometeu resolver o problema, mas, dessa vez, sem precisar ir até o local.

– Tenho uma viagem marcada – justificou. – Mas não se preocupe, faço o serviço daqui mesmo!

Naquele primeiro semestre de 2020, tudo era remoto. Até os encantamentos.

Antes de nos despedirmos, contou-me que herdara o ofício do avô e já preparava o filho para seguir seus passos. Gabava-se de que ninguém jamais contestara a eficácia do seu trabalho.

Cinco meses depois, já de volta a Imperatriz, lembrei-me do caso e resolvi perguntar ao sobrinho sobre os resultados.

– Sumiram! – respondeu ele, sem hesitação. – Nunca mais perdi uma vaca.

E assim, São Raimundo das Mangabeiras ganhou seu primeiro encantador de serpentes remoto. Entre a fé e o ceticismo, o importante é que as cobras, de fato, nunca mais voltaram.

 

sábado, 1 de fevereiro de 2025

Pequenos diamantes da alma

 


ElsonMAraújo 

 

 O corpo é a roupa da Consciência.  

A Consciência é a roupa da alma. 

(ElsonMAraújo) 

 

Sempre gostei de frases. Chegou um tempo em que até as colecionava. Anotava tudo. Antes, naqueles cadernos de capa dura e costura de arame. Depois, no computador. A princípio, frases ou pensamentos bíblicos, fruto da minha formação cristã. Mais tarde, passei a prestar atenção nas frases soltas dos filósofos gregos até chegar aos contemporâneos.

 As frases, ditados, expressões populares, haicais, aforismos — não consigo divisar exceções — encerram grandes ensinamentos. São gotas valiosas de sabedoria expostas, verdadeiros diamantes das almas em momentos de transbordo. Também, parafraseando o poeta Ribamar Silva, da Academia Imperatrizense de Letras, numa de suas definições sobre o que é a poesia, são verdadeiras fraturas expostas da alma.  Mesmo fora do contexto, ensinam.  

 Percebo e ouso dizer que há algo de mágico na forma como um provérbio africano, um verso de Camões ou um haicai japonês podem resumir séculos de observação humana. São como mapas antigos, desenhados por navegadores de diferentes eras, que nos guiam por mares já conhecidos, mas sempre novos. Lembro-me de uma frase de Heráclito lida num livro didático na minha adolescência: Ninguém entra duas vezes no mesmo rio”. Naqueles idos, parecia apenas poesia ou uma simples frase solta.  Hoje, entendo que é um tratado sobre o fluxo da existência, escondido em doze palavras.  

 Os grandes mestres sabem que a brevidade é irmã da profundidade. Um aforismo não se explica; instala-se. Certa vez, li em Lao Tsé: Quem sabe não fala, quem fala não sabe. Fiquei horas ruminando aquilo, como quem mastiga uma semente desconhecida, até extrair seu sabor amargo e doce. Percebi que as frases mais luminosas exigem um pacto: só revelam segredos a quem as contempla em silêncio.  Ruminá-las é preciso!

 Algumas dessas pérolas verbais tornam-se parte de nós. Lembro-me de meu avô materno, Mestre Otávio, homem simples do interior do Maranhão, que repetia: Cão que late não morde, mas assusta o dono. Na época, ria da rusticidade. Anos depois, ao ver como o medo paralisa mais que a ação, compreendi que ele resumira, em uma linha, o poder das ilusões. São essas heranças anônimas, transmitidas de geração em geração, que tecem a trama invisível da sabedoria coletiva.  

 Minha coleção migrou dos cadernos rabiscados para arquivos na nuvem. Algumas se perderam no tempo, mas a essência permanece. Curioso notar como, na era dos algoritmos, ainda buscamos refúgio em fragmentos de eternidade. Um tweet,  um verso de música, um  Post filosófico — tudo pode carregar a centelha de um diamante. Recentemente, encontrei numa rede social: Viver é ajustar a alma à tempestade sem perder o brilho. Não sei o autor, mas reconheço ali o mesmo fôlego dos antigos.  Dizer o muito no pouco. Por aqui tempos grandes especialistas nessa matéria. Alguns, como o já citado Ribamar Silva, Zeca Tocantins e o professor José Geraldo, são membros da gloriosa Academia Imperatrizense de Letras.

 Há uma alquimia peculiar em condensar verdades complexas em poucas sílabas. Nietzsch ,( olha o poeta aqui de novo)  que me foi apresentado pelo confrade Ribamar Silva,  brincava com isso: Deus está morto ecoou como um trovão, mas quantos perceberam que era um lamento, não um triunfo? Já os haicais, o professor José Geraldo é um craque neles, com sua estrutura de 5-7-5 sílabas, ensinam que a limitação é o berço da criação. Talvez por isso, em um mundo saturado de discursos, as frases curtas sejam faróis — não iluminam tudo, mas mostram a direção.  

 No fim, percebo que uma frase, compreenda, aquelas bem nascidas, não são meras palavras, mas sementes de almas. Cada autor, conhecido ou anônimo, deixou um fragmento de seu fogo interno. Como dizia Guimarães Rosa,  olha seu autor preferido aqui, confreira Adriana Moulin-  o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia. Essas frases são justamente isso: clarões no meio da travessia, pequenos diamantes que, mesmo nas noites mais densas, lembram-nos que a alma humana é uma mina inesgotável de luz.  

 E assim sigo, caderno aberto, olhos atentos, catando no chão da existência as pedras preciosas que outros, em seus transbordos, deixaram cair. Vivos, sejam eles,  para todo sempre!

 

sexta-feira, 11 de outubro de 2024

É PRECISO SAIR DA ILHA

ElsonMAraujo

 

Alguns temas são recorrentes aqui neste espaço. Não tenho nenhum constrangimento com isso, porque alguns desses assuntos já alcançaram as bênçãos da atemporalidade e, pelo menos para mim, são sempre bem-vindos. É o caso da faculdade inerente ao ser humano de o tempo todo julgar tudo e todos, já explorado numa crônica que publiquei em março de 2016.

Todos nós somos julgadores, o problema é que os julgamentos estão cada vez mais superficiais e quase sem fundamento. Daí, por conta disso, o risco de a sociedade planetária entrar, num sentido amplo, num período de trevas. A tão combatida intolerância e seus desdobramentos, ao meu sentir, são as filhas malditas dessa superficialidade que tem custado caro aos povos da Terra.

Não é difícil perceber que a sociedade moderna hoje se reveste em milhares de impenetráveis microcosmos que não se comunicam, não interagem, e estão ficando, num processo contínuo, a cada dia mais distantes de qualquer contraditório, com cada um cimentando e defendendo suas verdades. O escritor e colunista Moisés Naím, especialista em economia e política internacionais, a grosso modo, denomina esses microcosmos e micropoderes. Já abordei esse tema também por duas vezes neste espaço. É a partir dessas bases que são feitas as escolhas, não só das coisas, mas também dos governos.

Escolher ou julgar um fato, uma coisa, um destino tendo por base um “único lado da moeda” é perigoso em todos os sentidos, até porque nada é absoluto. Defendo que é preciso olhar o todo, analisar todas as variáveis possíveis para um aprimoramento dos nossos julgamentos, ou para um melhor fechamento das nossas escolhas, seja a compra de um carro ou do próximo dirigente do município, do Estado ou do País. Como diria o Prêmio Nobel de Literatura de 1998, o português José Saramago: “É preciso sair da ilha para ver a ilha. Não nos vemos se não saímos de nós.” E aí eu completo: é preciso visitar outros “cosmos” para conhecer o universo por inteiro.

Julgar não deixa de ser uma escolha, já que você opta por essa ou aquela tese. O homem é assim, um animal julgador por essência. Julga não só pessoas, mas também fatos e coisas. “Nem a mãe natureza escapa”. São julgamentos, na maioria das vezes, sem direito ao contraditório e à ampla defesa, onde o indubio pro reo, máxima do direito que diz que na dúvida deve-se beneficiar o réu, anda a léguas de distância. As sentenças são sumárias, e quase todas condenatórias. Coitados de nós.

Vivemos tempos em que as opiniões voam como penas ao vento, espalhando julgamentos levianos. E o problema não é apenas julgar, mas a rapidez com que se forma um veredicto. Um deslize capturado por uma câmera de celular vira motivo de execração pública em minutos. Em questão de horas, uma vida pode ser arruinada sem que haja espaço para o outro lado da história. A superficialidade, alimentada pela necessidade urgente de opinar, não nos permite ver a profundidade de cada ser humano, de cada situação.

Ainda há tempo de refinar nossa arte de julgar. Talvez o grande segredo seja deixar de lado a ansiedade de emitir um parecer imediato e, antes de mais nada, escutar. Escutar o outro, o silêncio, as entrelinhas. Porque, afinal, antes de julgar o mundo, é preciso primeiro entender o que se passa dentro de nós mesmos.


sexta-feira, 13 de setembro de 2024

Quando as raízes são fortes, não importa o tamanho da poda: a vida volta a brotar

 

A árvore sentada

ElsonMAraujo 

 

Na BR-010, no trecho urbano de Imperatriz, entre o Riacho Cacau e a área do 50º BIS, ainda é possível encontrar algumas espécies da flora amazônica e do cerrado. Entre elas, destacam-se os ipês, mangueiras, cajueiros e faveiras. Algumas dessas árvores foram plantadas nas décadas de 1990 e 2000, mas, com um olhar mais atento, ainda se encontram exemplares remanescentes da década de 1960, quando o engenheiro Bernardo Sayão comandou a construção da rodovia que transformou, para sempre, a história de Imperatriz.

Transformei em hábito, sempre que percorro esse trecho da BR-010, tentar identificar as árvores mais antigas. Imagino-as e admiro-as como verdadeiros totens de nossa ancestralidade. Talvez não houvesse celulose suficiente para todos os acontecimentos guardados no DNA da bruta seiva que corre em cada uma delas.

Não é difícil identificar esses monumentos ao longo da rodovia. As mais resistentes ao tempo permanecem entre a Rodoviária Velha e o 50º BIS.

Nas idas e vindas pela BR, muitas vezes fui tentado a parar para fotografar, especialmente nos meses de julho, agosto e setembro, quando os ipês florescem neste canto do país, onde se entrelaçam os biomas Amazônia, Cerrado e Caatinga. Tenho muitos registros. Um dos mais preciosos é o de uma antiga faveira, que chamava atenção não só por sua imponência e a enorme copa que oferecia sua generosa sombra nos dias de sol ardente, mas também por uma característica singular: parecia estar sentada. Além disso, resistiu bravamente a inúmeras intempéries que quase a arrancaram daquele solo.

Uso o tempo passado para me referir à famosa árvore sentada da BR-010, imortalizada em uma tela do jornalista, escritor e artista plástico João Marcos, exposta no Centro Cultural Tatajuba, porque ela, de fato, virou memória. Recentemente, num dia de sol forte, passei pelo local apenas para revê-la, mas ela já não estava mais lá. Pensei, de início, que tivesse sido retirada pelas mãos humanas, mas logo descobri que, em um desses dias de fortes rajadas de vento, seu tronco já cansado não resistiu. De sentada, a árvore tombou. Ficaram apenas as raízes.


Não é figura de linguagem, nem licença poética. Digo que chorei, e não é metáfora. Foi uma tristeza sincera. Os dias passaram. E nesta semana, precisamente na quarta-feira, 11 de setembro, algo me chamou a atenção ao passar novamente pelo local: das raízes que permaneceram firmes, brotavam novos fios de um verde intenso, quase doloroso de tão vibrante. Um sinal claro de que a vida ali está se renovando. Uma bela lição: quando as raízes são fortes, não importa o tamanho da poda, a vida sempre volta a brotar.

Penso que essa árvore é uma metáfora viva da própria cidade de Imperatriz. Assim como ela, a cidade enfrentou ventos contrários ao longo de sua história. As tempestades das crises econômicas, as podas de períodos de descaso e até a força devastadora das chuvas fortes. Mas, como as raízes daquela faveira, as de Imperatriz também são profundas, fincadas no solo da resistência e da coragem de seu povo. E, como ela, a cidade insiste em renascer, mais forte, a cada golpe do destino.

Vejo também, na resiliência da árvore, um reflexo da vida de cada um de nós, que, muitas vezes, somos obrigados a enfrentar perdas, quedas e desilusões. São nesses momentos, quando a poda parece mais severa, que nossas raízes mais internas precisam se firmar e buscar o que de mais forte e verdadeiro temos dentro de nós. A natureza nos ensina que o renascimento não é apenas um ato de sobrevivência, mas de esperança.

Agora, cada vez que passo pela BR-010, olho para o ponto onde a velha faveira um dia se ergueu e sinto que ela ainda está ali, de alguma forma, presente. Suas novas folhas são promessas verdes que murmuram silenciosamente ao vento: sempre haverá um retorno, uma nova vida, uma outra oportunidade para florescer. Porque a vida, mesmo quando parece ter terminado, sempre encontra um jeito de se reinventar, de recomeçar — como se fosse uma semente, germinando outra vez, no terreno fértil de nossas histórias.

A CARTA DE RETRATAÇÃO DO DIABO- (inspirado no conto machadiano A Igreja do Diabo)

    ElsonMAraujo Houve um tempo em que os ventos, vindos não sei de onde, trouxeram para Imperatriz um sujeito que, sem pedir licença a ning...