quinta-feira, 17 de março de 2011

O insepulto

Ia cedo para o trabalho. Subia a ladeira daquela movimentada avenida do centro da cidade. Não viu, e não teve como se desviar do caminhão Mercedes Benz carregado de tijolos dirigido pelo João, que passara a noite, e a madrugada bebendo no cabaré da Baiana.

A velha Monark distante cerca de 20 metros do local do impacto. Pedro, estatelado no chão, a cabeça quebrada. Teve traumatismo craniano, morreu na hora.


João, o motorista, tonto pela pancada e ainda sob o efeito da cachaçada da noite anterior, deixou o local rapidamente sem prestar socorro.


Três funerárias e seguradoras disputavam o corpo, ainda quente, no chão. Estavam de olho no seguro DPVAT. Ali, na real, estava a possibilidade deles faturarem uma boa grana, mais de 20 mil reais.

“É meu, cheguei, primeiro”disse o sujeito que comandava uma das agências funerárias ali presentes.

Ao lado do cadáver, o desespero de Benta , companheira de 25 anos do “ De cujos” mulher sem lenço, sem documentos, sem filhos. Só uma casa, longe, lá em cima do morro.

- Quero o corpo do meu marido! A Funerária do seu Antônio, faz mais barato.

-Negativo! Não vou liberar. Além do mais, nem sei se a senhora é mulher dele, mesmo. Mostre-me os documentos” vociferou o esperto empresário dos mortos.

De fato não havia documentos, nem registro de nascimento Benta, tinha.

Na delegacia a mulher prestou queixa.

-Seu delegado, o Zé das Mortalhas não quer liberar meu marido para ser enterrado.

- Não se preocupe, vamos resolver isso, já, já!

Meia hora de conversa com o dono da Funerária o delegado retorna com o pensamento já mudado, logo ele que pensou até em prender o cara.

- Tem jeito não, dona Benta. Ele tem razão. A senhora e o marido eram novos na cidade e sem ter como provar que era, de direito, casada com ele não há como liberar o corpo. E , ainda tem uma história que a senhora não sabe. A mãe dele fez contato. A velha tava sumida havia 25 anos”

- Mais o Pedro sempre disse que não tinha, mãe, como é que agora...”

-Não sei, só sei que ela quer participar do sepultamento do filho. Só vamos enterrar quando ela chegar, ” disse Zé da Mortalhas, ao lado do delegado, numa visível manobra para ganhar tempo e arrumar a papelada do seguro.

Uma semana depois, nada da suposta mãe de Pedro aparecer. O corpo dele permanecia untado com formol num caixão de zinco nos fundos da funerária.

Benta chorava, ninguém ouvia seu choro. Revoltou-se com a situação. Último apelo: decidiu ir á rádio da cidade denunciar o caso. Falou de todo mundo. Do dono da funerária, do delegado, enfim , do seu sofrimento e que queria mesmo era um descanso para o marido.

No dia seguinte pela manhã, um carro funerário chegava com o corpo de Pedro no cemitério para ser, enfim, enterrado.

O motorista, o coveiro, o dono da funerária o delegado e a chorosa Benta eram os únicas almas vivas naquela necrópole .....Para garantir o enterro  do marido foi obrigada a assinar, sem ler, um monte papel.

Na ultima pá  de terra , de longe um grito:

“Pare o enterro! Cadê os papeis do meu filho”. Era a mãe de Pedro, que chegara acompanhada de um homem vestido de paletó. Não se sabia se advogado, ou agente de seguro.

Nenhuma lágrima, nenhuma pergunta sobre como o filho morreu. Dona Concita queria mesmo era a papelada do filho para também pleitear o seguro.

Pedro pode finalmente ser enterrado.

A mãe dele, passada para trás, briga até hoje pelo seguro do filho. Benta, sem lenço, sem documento, continua na casa do morro, sozinha, vivendo das lembranças dos anos que passou ao lado do Diquinho, como ela chamava o marido na intimidade.





















































sábado, 12 de março de 2011

O Bruto também pode amar

                                            (GRAVURA ILUSTRATIVA DO BLOG DE GIAN ZELADA)

O homem tinha quase dois metros, 42 anos de idade; a cabeça grande como a de um cavalo. A pele era castigada pelo sol, resultado de anos de trabalho como encarregado de obras numa firma de construção civil. Parecia ter mais de 50 anos.

O jeito desengonçado de ser lhe deu ainda jovem o apelido de Gigante. Tinha gente que também lhe chamava de cara de cavalo.

Morava num quarto e sala, nessas casinhas feitas para quem gosta de morar só. A única companhia era uma vira lata que não saía de seu pé quando estava em casa.

Ganhou a fama de violento no dia em que quebrou com um soco a cara de um homem que insinuou que o mesmo era gay. “Isso é para você respeitar homem. Nem desse povo eu gosto” disse ele naquela ocasião.

O rapaz até que ganhava bem e tinha muitos amigos. Só não conseguia mesmo era arrumar uma namorada. A última tinha sido há dez anos e, o namoro só durou uma semana.

No sétimo dia, no que seria o primeiro encontro mais intimo do casal, ao vê-lo nu, a mulher, sem nem um pingo de sangue no rosto, inventou de tomar água, e sumiu para nunca mais aparecer. Gigante ficou mesmo só na vontade.

Dez anos, e ele ainda lembrava-se do episódio. Zangou-se. Aquela era a quinta que o deixava da mesma forma

-“Não quero mais saber de mulher. Vou viver agora é sozinho daqui por diante” pensou ele ao perceber que a quinta também tinha fugido sem nem ao menos se despedir.

Gigante levou a sério o que prometeu a si mesmo. Evitava as rodadas de cerveja com os amigos, as festas promovidas pelos peões da firma que trabalhava. Era ele e a cadela, somente. Tinha opinião, mesmo.

“Cara deixa de ser opinioso,” Disse Fábio, um dos poucos que conheciam, mais a fundo, a vida daquela criatura de Deus. Tá na hora de acabar com essa promessa doida e arrumar uma mulher. Tu precisa se casar, construir uma família. Ta ficando velho, hem? “ admoestou o amigo.

“Faz assim, liga aquele notebook que ganhastes na rifa semana passada lá na firma, conecta na internet , que logo, logo tu vai encontrar a mulher da tua vida. Fácil, fácil, faz isso”

-É, Fábio tinha razão. Tava na hora de acabar com aquela situação dos eternos banhos, embalados pelas estrelas da Sexy, Playboy e Vip e acabar com aquela solidão” pensou Gigante.

Aproveitou o dia de folga pra ajeitar tudo. Tinha feito um curso rápido de internet com o amigo o resto seria mais fácil.

Abriu de uma vez MSN, Orkut . Não era possível que com esses instrumentos modernos não encontraria a mulher de sua vida. No mesmo dia pescou vários contatos. Ficou até a madrugada ali puxando conversa com uma e com outra até que uma lhe chamou atenção.

“Morena dengosa” era o nome que apresentava no perfil. Disse que trabalhava numa casa de material de construção; 1,75 metros, isso, sem salto. Cabelos pretos, lábios carnudos e, segundo ela, cheia de amor para oferecer.

Gigante se “apaixonou” logo. Ela havia mostrado foto e tudo. Ela era tudo aquilo que falava, e na recíproca, não se assustou quando ele também se fez ver pela foto do perfil. Não escondeu nada dela. Falou da fuga de suas últimas cinco namoradas, e até da abstinência sexual de dez anos.

Legal, acabara de arrumar uma namorada virtual. Próximo passo: um encontro de verdade, o fim da seca sexual ; e quem sabe, surgiria ali até um casamento.

Sem perda de tempo Gigante marcou o encontro com a “ morena dengosa” para o dia seguinte, inicio da noite, na praça principal da cidade.

Nem trabalhou direito naquele dia. Pouco prestava atenção no que lhe falavam. Por duas vezes derramou água e café na camisa. Fez tudo mais cedo. Não poderia, por nada neste mundo, perder aquele encontro.

Correu para casa, pôs a melhor roupa, tomou banho com metade de um vidro de perfume, pegou o Gol geração 4 , que também mandara lavar e lá se foi o gigante para o grande encontro.

A mulher era tudo o que tinha falado e muito mais. Conversaram pouco. Dali foram para o motel mais próximo.

A morena dengosa falava pouco, nem parecia a “tagarela da internet” pensou, Gigante. A dengosa passou a acariciá-lo e em seguida pediu pra que ele lhe fizesse uma massagem. Confessou que costumava fazer isso com os namorados que já tinha tido. Depois, solicitou que ele fizesse o mesmo com ela. Passasse óleo na suas costas e que em seguida a possuísse bem devagar. Inseguro , Gigante temia que ela também fugisse quando o visse pelado, mas não, ela ficou ali.

Aí, não, mais em cima, estou naqueles dias” disse a dengosa, com o sorriso sarcástico. Gigante obedeceu .

Por três dias, seguidos a cena se repetiu no mesmo motel e, sempre no escuro, que segundo a dengosa, era pra ter mais clima.

No quinto dia , no mesmo horário, antes de irem pra cama, a Dengosa chorou. Disse que tinha um segredo que precisava revelar, mas estava com medo ainda mais depois de saber, com um amigo do namorado, que ele era um homem extremamente violento.

“O que foi minha gatinha. Conta , vai?

Tenho medo?

Medo?

Diz, seja o que for , prometo que não vou ficar zangado.

“É que na verdade, eu não sou Morena Dengosa. Meu nome é Mario João Gonçalves. Pensei que , entre nós, seria só uma aventura mas estou apaixonado por você.

Gigante, ao ouvir a confissão, mudou a feição. Os olhos aumentaram, passou respirar de modo ofegante. Rapidamente pensou no nariz do cara que quebrou por ter lhe insinuado que era gay e de ter dito que não gostava daquele gente.

A morena dengosa, ou na verdade, João Gonçalves, por sua vez, passou a antever mais uma surra que levaria por tem se passado por mulher. Na última passou uma semana internada no Hospital Público da cidade. “ Agora, com certeza, seria morta”, pensou.

João se encolheu num canto do motel, tremendo, aguardando os primeiros safanões quando dela Gigante se aproximou e carinhosamente, sem dizer nada, a fez levantar. Olhou para ela com ternura, e a acolheu carinhosamente nos braços.

Abdoral Políbio do Carmo, o Gigante, e João Gonçalves, a Morena Dengosa, estão juntos há três anos na mesma casa. Foram embora daquela cidade, e hoje lutam para adotar o primeiro filho, livre de qualquer preconceito, numa cidade distante, do sul do país.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Mario Francisco, o matador

Já tinha matado três. O difícil foi só a primeira vez, naquele final de tarde quente de Agosto. Foram cinco horas de tocaia até a vítima aparecer.

O nível de adrenalina subiu, o coração disparou, o suor aumentou. Uma gota daquele liquido salgado caiu no olho esquerdo atrapalhando por alguns instantes a mira. Era sua primeira encomenda e, errar aquele tiro poderia atrapalhar sua carreira, inspirada no avô paterno. Queria ser tão bom quanto ele. Limpou o olho com a manga da camisa e logo voltou a se concentrar no seu alvo.

Do alto de uma barriguda, árvore tipica daquele pedaço do país, onde estava desde o início da tarde, se ajeitou com a espingarda, uma calibre 20, e apertou o gatilho. A vítima, sem nenhuma chance de defesa, foi atingida no peito e morreu imediatamente. Pronto! Sua primeira empreitada tinha dado certo. O patrão, dono da fazenda, ia gostar e pagar bem.

Depois daquela primeira experiência, com a fama alcançada, não demorou muito veio a segunda. Aquela foi mais fácil. O tiro foi na cabeça e não teve nada de nervosismo.

Na terceira vez, autoconfiante, já considerava aquela atividade uma rotina. Começou a cobrar caro pelos seus serviços. Já tinha trocado a 20 por um rifle automático.

Mário Francisco estava ali pronto para sua quarta empreitada. Seria seu trabalho mais importante. O alvo já tinha feito várias vítimas na região e num vacilo qualquer os papéis poderiam se inverter. Mário sentiu um friozinho na barriga.

- Não posso decepcionar quem encomendou esse serviço. O cara já pagou a metade e disse que só me dará a outra se eu levar uma prova de que não houve erro. Acho que vou levar a cabeça, assim ele me paga sem qualquer dúvida”- pensou Mário Francisco.

O danado é que tava demorando demais. Nos levantamentos realizados antes, a vítima passaria por ali às 18 horas e já estava pertinho das 19 h.

Inquieto, com a demora , Mário Francisco continuou ali esperando. Se errasse daquela vez sua fama ia por água abaixo e não apareceria mais nenhuma encomenda e na vida só sabia fazer aquilo.

Aproximava-se das 20 horas quando o matador ouviu um barulho no meio do mato e , um vulto chegando cada vez mais perto do local onde estava.


– É agora! Pensou ele, já imaginando dali a poucas horas entregando a cabeça da vítima ao autor da encomenda. Ia ganhar um bom dinheiro; muito mais do que das outras vezes.

Acomodou-se na tocaia. Esperou mais um pouquinho até ter certeza da mira. Aguardou a vítima chegar mais perto, já que só contava com claro da lua como ajuda, até finalmente poder apertar o gatilho do rifle.

Um único e certeiro disparo acabou com a vida da onça pintada que há meses vinha comendo os bezerros nas fazendas da região.

Mário Francisco, o cara, iria continuar a ser o maior matador de onças daquelas bandas do Brasil.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Miséria pouca é bobagem. Vida e morte de Policarpo

Sujeito sem sorte, aquele. Tanto na vida, quanto na morte. No nascimento, por pouco não morre asfixiado com o cordão umbilical atado ao pescoço. Quase que o moleque não chora e, morre ali mesmo antes do primeiro suspiro.

Era o dia 23 de um chuvoso fevereiro. Na casa de palha, no meio da roça, á luz de lamparina, era goteira pra todo lado. O nascimento não foi nada fácil. Diferente dos outros dez filhos de Maria Concebida.

Suada, e molhada, pelos pingos d’água que caíam naquele quarto de chão batido e paredes de palha; nervosa, a velha parteira Maria da Piedade dava vozes de comando para a filha fazer força para o menino nascer logo. Concebida fez um barrigão danado e tava sofrendo muito.

O menino era grande e, nas contas da velha parteira, passando da hora de nascer. Concebida gritava de dor. “Guenta firme filha, ele já tá vindo”.

O menino nasceu mudo; o choro não veio junto com ele. A bênção é que a experiente parteira, mesmo sem enxergar bem, percebeu que o cordão umbilical o sufocava. Agiu rápido. Fez o que tinha de ser feito para salvar o neto, deu umas duas palmadas na bunda dele e, logo veio o choro.

“O Policarpo nasceu! ” gritou a parteira ao restante da família que aguardava, ansiosa, do lado de fora do quarto. Pena que a alegria durou pouco. Concebida não resistiu. Tinha morrido antes de ouvir o choro tardio do filho. Logo, Policarpo ganhou a fama de ter matado a mãe no parto. Carregou esse estigma até quando cresceu.

O nome Policarpo não era por acaso. Além de ser o dia do santo, morto na fogueira em 155 Depois de Cristo, era costume, naquele tempo, quem nascia com o cordão laçando o pescoço, receber logo o nome de um santo da Igreja Católica e, de preferência o do dia, no caso São Policarpo. Seria o presságio de uma vida de sofrimento e de azar? Só o tempo iria dizer.

Com o trauma de a mãe ter morrido no seu nascimento, potencializado pelos outros irmãos, Policarpo se tornou um adulto triste. Pôs na cabeça que nada dava certo para ele. Já carregava consigo as marcas de um braço quebrado , três mordidas de cobra e uma cicatriz na cabeça, resultado de uma pedrada de badogue dada por um vizinho quando ainda tinha 15 anos. Além de tudo, as pessoas achavam estranho o nome dele e logo vinham as gozações .

Não aguentava mais aquela vida de agruras e decidiu fugir de casa. Mal assinava o nome. O que tinha aprendido até aqueles dias de seus 25 anos era brocar. Era bom com uma foice. Acreditava que era o suficiente para ganhar o mundo. Para trás deixou uma única frase para o irmão do meio, antes de pegar a pé, a estrada. O mano era o único que sabia do plano de fuga: “Só volto, rico! ” disse ele antes de sair madrugada adentro.

Chegou á sede do povoado onde morava no pingo do meio dia. Tinha caminhado pelo menos umas três léguas. Os pés estavam em carne viva e a fome e a sede lhe devoravam. Sentou debaixo da sombra de um pequizeiro para descansar e pensar no que ia fazer da vida dali pra frente.

A mulher do maior comerciante do lugar que passava por ali vendo a situação do rapaz se aproximou puxou conversa se compadeceu com a história dele e lhe ofereceu água e comida. Será se a sorte começava a sorrir para Policarpo?

O que aquela mulher tinha de bondade o marido dela tinha de ruindade e viu em Policarpo uma mão de obra escrava a ser explorada em sua fazenda a 1000 quilômetros dali, mata adentro.

- Se preocupe não, meu rapaz! Você terá comida e ainda vai ganhar um dinheirinho no fim do mês. Amanhã te levo pra minha roça.

- Obrigado, moço. O senhor é homem, muito bom. - Agradeceu Policarpo.

Cinco meses depois o jovem Policarpo estava com uma jornada de trabalho cavalar. Acordava às 5 da manhã e já começava a brocar às 6 horas; um intervalozinho para comer um feijão cheio de ranço e gorgulho com um arroz que parecia uma papa gosmenta, por volta da uma da tarde, e só parava a lida depois das sete das noite.

Desde que chegou naquele lugar para desmatar a fazenda de seu “benfeitor” nunca viu um tostão furado. Havia sempre uma desculpa qualquer do mal encarado capataz, sempre armado com um revólver 38, cano longo.

Um dia no intervalo do almoço Policarpo pensou: Vou embora daqui. Isso aqui não é vida. Além do mais estou com saudade da minha família; vou receber o que me devem. Quero voltar para casa!

No final daquele dia, depois de ter conversado com o capataz, Policarpo foi dormir feliz. Tinha recebido a garantia de receber os atrasados e mais uma gratificação pelos seus esforços. O pagamento lhe seria feito na manhã seguinte.

Vou comprar uns bezerrinhos e começar minha criação de gado com meus irmãos, dormiu pensando o jovem Policarpo.

Bem cedo, Policarpo foi acordado por dois homens que trabalhavam com o capataz da fazenda.

- Como é seu último dia aqui, o Trindade pediu para te oferecer um quebra jejum mais decente. Tá, aqui, leite, bolo de puba, ovo e farofa de galinha. Come aí que ele está te esperando lá na sede para fazer teu pagamento.

Policarpo se encheu de orgulho e felicidade. Ia voltar para casa muito melhor do que saiu. Ia ser respeitado por todo mundo. Vida nova. Sentia-se um vitorioso.

Comeu, como nunca. Nada sobrou.

Se preparava para mais uma golada de leite quando começou a passar a mal. Se levantou, tentou se segurar no punho da rede em que dormia, mas logo caiu babando. A comida tinha sido envenenada pelos jagunços da fazenda. Estava tudo temperado com veneno de rato.

Policarpo não ia voltar para casa, não receberia os cinco meses de salário, foi enganado pelo seu “benfeitor”. Morria, numa manhã chuvosa do dia 23 de fevereiro, dia do seu aniversário, dia do Santo que lhe deu o nome e que morreu queimado no ano 155 D.C.

Até os dias de hoje os familiares de Policarpo aguardam pela sua volta acreditando que, de fato, ele tenha ficado rico em algum canto perdido desse Brasil.



















































domingo, 20 de fevereiro de 2011

O Cú da Discordia, uma história real

Na rua, apesar de seus 15 anos já era o cara. Magro e alto, como o pai, nem de longe parecia ter a idade que tinha. Quando não estava na escola vivia na rua jogando pião, soltando papagaio e brincando de travinha com os meninos da vizinhança. Só parava quando tinha de ir pra escola, ou para almoçar. Dedem era “o rei da rua”, um líder por natureza. Invejado pelos colegas e amado pelas meninas.

Dedem aprendeu desde cedo a fazer negócios. A casa dele era cheia de pequenos objetos que conseguia com seus rolos. Álbum de figurinha, bola de futebol, revistas; e até jogos eletrônicos. Ganhava tudo fazendo favores para os vizinhos e promovendo pequenas trocas.

Se gostasse de um objeto pertencente a algum colega, lá estava o Dedem prontinho propondo uma troca,  ou algo parecido. Ali estava um menino que tinha tudo para ser um grande comerciante, tinha tino o garoto.

O caso aconteceu num final de tarde, logo depois do jogo de travinha, no fundo do quintal da casa de dona Rita, uma vendedora de cuscuz sessentona que morava a cinco quarteirões da casa de Dedem.

Era o tempo de caju, e ali tinha muito. Amarelo, laranja, encarnado; doce; enfim, de todo o tipo, mas a meninada gostava mesmo era dos mais azedos porque dava pra comer com sal e pimenta do reino.

Dedem, com uma baladeira, mirava nas pipiras, que caiam de pau num caju madurinho, quando apareceu Zezinho, o filho do quitandeira da  rua. Era um ano mais novo que Dedem. Franzino e delicado parecia um corredor de maratona. As pernas eram longas e os pés grandes.

Zezinho admirava o jeito solto e destemido de Dedem, principalmente a habilidade que tinha de subir nas árvores. Rapidinho chegava ao topo das mangueiras e cajueiros e do alto ficava jogando nos colegas as castanhas e os caroços das mangas que consumia. Zezinho não tinha essa habilidade. Morria de medo de subir e cair.

Naquela tarde o filho da quitandeira olhou para o alto do Cajueiro onde Dendem tentava acertar as pipiras e mirou um caju daqueles bem vermelhinho. Era bem grande o danado.

Com água na boca foi logo dizendo pra Dedem:

 “Tô com uma vontade de comer aquele caju. Pena que não sei, e não tenho coragem de subir, lá”

Dedem ao ouvir aquele lamento viu ali uma oportunidade de negócio. Podia rapidinho subir no cajueiro apanhar a fruta e dá-la ao amigo mas, aí era fácil demais. Tinha de haver algo em troca.

“Se eu pegar o caju pra você o que ganho em troca? Perguntou o “dono da rua” ao delicado Zezinho que olhou surpreso para Dedem.

“Bem, aqui não tenho nada. A não ser, disse ele brincando, se eu te der meu cu”.

Zezinho falou brincando, mas Dedem aceitou de pronto o negócio, e num piscar de olhos, numa velocidade que nunca tinha empreendido antes, estava no topo do cajueiro e com o caju na mão gritou “ segura, vou jogar, não deixa cair”.

Zezinho recebeu a fruta que de tão grande e suculenta quase lhe escapa das mãos e vai ao chão. Nem lavou na gamela d’água ali perto e foi logo levando-a à boca com sujeira e tudo. Sequer, por educação ofereceu um pedaço a Dedem.

Zezinho ainda se deliciava com o último pedaço da fruta quando percebeu Dedem, com os olhos arregalados olhando para ele. Um olhar mais atento do moleque e este percebeu um volume se formando no calção do Dedem. Foi aí, que lembrou do compromisso que tinha feito.

“Será que ele levou mesmo a sério a historia do cu” pensou ele já com o coração a mil por hora. “Preciso agir rápido senão vou me lascar todinho. Ele é maior e mais forte do que eu”

Zezinho vendo o perigo que corria não pensou mais em nada, devagarinho tirou os pés da sandália e, antes da última chupada no caju, “o rabo foi um rei”. Correu, como nunca na vida sendo, perseguido por Dedem que gritava:

- “compromisso é compromisso. Prometeu agora eu quero teu cu”.

Zezinho só teve sossego quando, quase   sem fôlego, entrou em casa indo parar na cozinha onde a mãe preparava a janta.

-“O que foi, meu filho?

-É o Dedem, mamãe ele quer comer meu cu!

-Como é que é. Que história é essa, rapaz?

Ainda com o coração batendo forte Zezinho contou toda a história à mãe.

 “Mãe, não sabia que ele levava as coisas tão a sério; e agora o que faço?

E lá se foi a mamãe do meigo Zezinho conversar com Dedem que como um boi brabo ficou na porta indo de um lado para outro, sussurrando: 

-Marrapá, ele vai ter que pagar. Não quero nem saber. Quero o cu, que ganhei.

-Que coisa  doida  é essa menino! Gritou a mãe de Zezinho.

-A senhora devia ensinar seu filho a cumprir com os compromissos dele!

-Foi só uma brincadeira, Dedem!

Brincadeira, nada. Eu não vou sossegar enquanto o Zezinho não pagar o que me deve!

O fim da história? 

Bem , o fim da história, é que Zezinho ficou mesmo sem pagar o que devia a Dedem.  Para se livrar do assedio do colega  passou dois meses sem brincar na rua. À  escola só ia acompanhado de um parente para protegê-lo 

O tempo passou.  Dedem  tornou-se um próspero homem de negócio. Zezinho herdou as terras de um parente distante e virou fazendeiro num município longe de sua cidade. Os dois nunca mais voltaram a se encontrar.

Dedem continuou na cidade e sempre que pode relembra, inconformado, de um dos únicos negócios que fizera na vida em que o devedor não cumpriu com sua parte.

domingo, 25 de julho de 2010

Ave, Rio Balsas

Sambaíba é uma pequena cidade distante 20 quilômetros de São Raimundo das Mangabeiras, região das chapadas da mesa (sul do Maranhão).

Mangabeira é uma cidade acolhedora, limpa, entrecortada pelo Rio Neves e pelo Riacho Cachoeiro, de onde a população toma água e que,  visivelmente,  já sofre   com a degradação ambiental.  Sem dúvida, uma ameaça ao futuro da cidade e, o  pior: ninguém faz nada para evitar.

Mas, voltando a Sambaíba.  A cidade chama atenção pela paisagem de cerrado, decorada por uma imensa serra, a encantadora  Serra da Sambaíba,  que é margeada pelo Rio Balsas e que, literalmente enche os olhos de quem tem a oportunidade de conhece-la. Quem visita o lugar fica de fato, encantado com a serra e com o rio.

As linhas abaixo traduzem para você, que encontrou esse cantinho, a beleza daquele  rio


Ode ao Rio Balsas

Ave,  sagrados ventos que passam e abençoam o Rio Balsas, que vivo, morre no Parnaíba que vai parar no meio do mar.

Abençoado sejam Balsas, Sambaíba, São Félix e Loreto...Ave. Balsas, o Rio Parnaíba, rio grande, o velho monge do Brasil.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Crítica elogia trabalho da imperatrizense Lília Diniz

Bastante elogiada pela crítica especializada as duas apresentações da imperatrizense Lília Diniz na festa do aniversário de Brasília. "A pequenina" emocionou o público com sua performance.

O poeta Antônio Batista, não se conteve e depois da apresentação da artista lhe enviou o seguinte "escrito" seguido de um texto sobre o show que acabara de assistir.

Lília bom dia

Tomei a liberdade de escrever umas linhas sobre minhas impressões ao ver você e Jessier juntos. Ainda não conhecia seu trabalho e olhe fiquei impressionado com seu livro, a apresentação dele na caixinha de buriti e especialmente os versos que voce escreve.

Já visitei seus blogs e sai caçando você no google, para minha surpresa vi que voce já é poeta "rodada" e eu que na minha ignorância nao a conhecia ainda. A partir de agora terás outro fã e divulgador da sua poesia, que é a nossa poesia.
Um abraço sertanejoAntonio Batista

A tampa e a panela

Com poesia e graça o show de Jessier Quirino, em Brasília, foi aberto pela poetisa maranhense Lília Diniz. Com um aboio na garganta ela cumpriu, com leveza e força, a responsabilidade de apresentar um dos maiores expoentes da poesia matuta da atualidade.

Cantando o Maranhão, ela entoou um louvor às mulheres quebradeiras de coco babaçu e arrebatou a platéia com a poesia “Birra de Muié”.

Cheia de prosa e totalmente a vontade no palco, Lília Diniz demonstrou a força da sua poesia, e no dizer de Jessier “Lília Diniz trata com retidão o interior do Brasil”.Com humor e força Jessier, o domador de palavras, chega com “paisagem do interior” e arrebata a platéia com ao descrever cenas do cotidiano do interior do Brasil.

Entre causos, piadas, poesias e músicas, o poeta vai transportando as pessoas para o universo “amatutaiado” de personagens do povo como Chico Toucim, Mané de Pichitita e Bio Pipoqueiro. Bota palavras na boca do mar e da velha lata d’água amargurada, demonstrando maestria no ajeitamento das palavras e percepção dos sentimentos sertanejos.

O palavreiro trás um “Berro Novo”, título do seu novo livro, com as lembranças da “merenda corriqueira” da infância sem esquecer as toadas de outras lavras, como o “Bolero de Izabé”, “parafuso de cabo de serrote” e “vou-me embora pro passado”, abrindo os poros do corpo e da alma dos ouvintes que lotaram o auditório da Associação Médica de Brasília.

O encontro destes dois poetas trouxe uniu Maranhão e Paraíba na poesia brejeira, e eu que sou de Sousa(PB), fui e voltei a minha terra em risos, um fiozinho de lágrima que teimava cair e um aperto na alma arrochado que só nó em pé de cabrito juramentado de buchada.

Lília Diniz e Jessier Quirino poetas que nos enchem de orgulho, cheios de sertanejismos e brasilidades que revolvem nossas raízes mais profundas, era ver a tampa e a panela, recheada dos melhores versos a despejar no prato de nossas almas o sabor da saudade temperada com carne de charque e azeite de coco babaçu.

Antonio Batista
Paraibano, de Sousa

Esperança não nasce em árvores

ESPERANÇA  Então, nada aconteceu. Esperança não nasce em árvores Ela nasce no mais recôndito cantinho do coração ENTRE/MENTES  Entre mentes ...