ElsonMAraujo
O desafio veio do amigo João Batista, ex-deputado, com quem estreitei amizade nos últimos doze meses e com quem costumo conversar sobre os mais variados assuntos. Desta vez, a provocação era literária: construir um texto sobre uma Imperatriz que já não pode ser vista concretamente, porque foi substituída por outras estruturas, mas que continua viva no imaginário e na memória afetiva de muita gente.
João me disse mais ou menos assim:
Elson, se eu te ligar e disser: vou te esperar hoje lá no Cine Marabá, para qualquer imperatrizense da nova geração que ouvir nossa conversa, isso pode soar estranho. Mas, para mim e para você, além de identificarmos imediatamente o lugar- Getúlio Vargas com Rua Amazonas- , as lembranças vão brotar tal qual pipira em tempo de manga madura no meu quintal.
Do outro lado da linha, captei imediatamente a mensagem.
- Que ideia bacana! Obrigado. Vou ver o que sai e ainda vou dizer que a sugestão foi tua.
E aqui estamos.
O confrade Edmilson Sanches, da Academia Imperatrizense de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de Imperatriz, escreve muito. Alguns de seus textos e proposições têm uma qualidade especial: são atemporais. Volta e meia são revisitados por jornalistas, acadêmicos, pesquisadores e por todos aqueles que gostam de pensar a cidade para além de suas construções e de seus limites geográficos.
Enfim, Sanches é Sanches.
Ele já não mora na Imperatriz de hoje, mas continua presente naquela Imperatriz invisível de João Batista e de tanta gente. É dele uma frase que já utilizei algumas vezes, sempre fazendo o devido registro autoral:
“Cidadão não é quem mora na cidade, é quem deixa a cidade morar dentro dele.”
A assertiva se encaixa, com rara felicidade, na provocação do amigo Batista.
Mas é preciso compreender que, na cidade invisível, não cabem apenas praças, cinemas, danceterias, churrascarias, lanchonetes, escolas e campos de futebol. Cabem, principalmente, as pessoas. Tanto aquelas que já deixaram fisicamente este plano quanto as que, por razões diversas, foram morar em outras regiões.
A cidade não é feita apenas de concreto. É feita de encontros. E, de gente.
O tema me pegou de tal maneira que, por alguns instantes, me vi tomando café na Vita Suco, fazendo um lanche na Panificadora Dular e me deliciando com os picolés da Bikão.
Depois, fui parar no Campo do Projeto, assistindo às peladas do final da tarde. Aquele futebol sem juiz de verdade, sem uniforme padronizado, sem transmissão e sem compromisso com a tática. Bastava uma bola, duas equipes e a disposição de correr até o último fôlego.
À noite, a memória me levou à Flyback, aquela danceteria que era referência, ali na Beira Rio.
E lembrei de Hudson, filho de Edvar Frota, da Brahma. Por que Hudson? Porque é um imperatrizense, que, assim como eu, o João e muita gente, gosta das duas cidades. A de agora e a que sobrevive na lembrança de cada um.
Na cidade invisível, ninguém precisa enfrentar o trânsito, procurar estacionamento ou reclamar das mudanças na paisagem. A gente chega quando quer, encontra quem deseja e permanece o tempo que a memória permitir.
Ali, o Cine Marabá continua no mesmo lugar. A Vita Suco ainda serve aquela vitamina mista com abacate, mamão e farinha láctea. A Dular conserva o cheiro de pão e lanche. A Bikão continua oferecendo seus picolés. O Campo do Projeto ainda recebe os jogadores de fim de tarde. E a Flyback, por alguma licença concedida pela saudade, continua acesa.
Mas não são apenas os lugares que permanecem.
Há pessoas que também continuam por lá.
Algumas já partiram para o Oriente Eterno. Outras foram embora em busca de oportunidades, constituíram famílias, construíram novas histórias e passaram a viver em outras cidades. Mas basta uma conversa, uma fotografia, uma música ou uma lembrança inesperada para que todas retornem.
É curioso como isso acontece.
Às vezes, estamos numa cidade distante, ocupados com os compromissos da vida, quando uma música começa a tocar. De repente, não estamos mais ali. Voltamos à adolescência, reencontramos um amigo, atravessamos uma rua, entramos num estabelecimento que já não existe.
O corpo permanece onde está. A memória, não.
A ciência nos ajuda a compreender parte desse fenômeno. As lembranças não são simples arquivos guardados numa gaveta do cérebro. Recordar também é reativar experiências, sensações e emoções. Por isso, uma música pode nos devolver a um tempo, um cheiro pode nos transportar a uma cozinha da infância e o nome de uma antiga rua pode abrir uma passagem para lugares que já não existem.
A cidade invisível, portanto, não tem nada de invisível.
Ela existe. E existe de verdade na experiência de quem a carrega.
O cérebro é meu, a mente é minha, e tenho a liberdade de, quando quiser, materializar pessoas, praças, cinemas, conversas e caminhos. Posso visitar os lugares onde fui feliz, reencontrar aqueles que me fizeram bem e caminhar novamente por onde a vida me levou.
Como diria o cronista Clemente Viegas, andar pelos caminhos por onde andei.
Essa, sem dúvida, é a maior riqueza de quem viveu intensamente uma cidade: não depender inteiramente de sua geografia para continuar pertencendo a ela.
Imperatriz mudou. Cresceu, ganhou novos contornos, derrubou construções, abriu avenidas, ergueu edifícios e substituiu antigas referências por outras. É natural. As cidades precisam continuar vivendo, assim como as pessoas.
Mas há uma Imperatriz que não acompanha o ritmo das demolições, não obedece aos projetos urbanísticos e não precisa de autorização para permanecer.
Ela está nos que ficaram e nos que partiram. Nos que se encontram pelas ruas e nos que se reconhecem por uma lembrança. Está nas histórias que os pais contam aos filhos, nas conversas de antigos amigos e na emoção que sentimos quando alguém menciona um lugar que julgávamos esquecido.
João Batista me fez um convite para escrever sobre essa cidade. Edmilson Sanches nos emprestou uma frase que parece ter sido feita para ela. Hudson nos lembra que é possível gostar das duas Imperatrizes, embora uma delas tenha um lugar especial no coração.
E eu fico pensando que talvez a cidade invisível seja a mais democrática de todas. Cada um constrói a sua. Não há escritura, imposto predial, limite de bairro ou disputa por terreno. Nela cabem todos os tempos, todos os encontros e todas as pessoas que deixaram alguma coisa de si em nossa caminhada.
Há quem diga que o passado não volta.
É uma meia verdade. O tempo, de fato, não devolve os anos, não reabre os cinemas, não ressuscita os amigos e não reconstrói exatamente os lugares que desapareceram. No entanto, a memória tem seus próprios caminhos. E, às vezes, basta uma frase, um endereço ou o convite de um amigo para que tudo volte a acontecer dentro da gente.
A Imperatriz de hoje está diante dos nossos olhos. A outra, aquela que mora dentro de nós, não precisa ser vista para continuar existindo.
E talvez seja por isso que, mesmo depois de tantos anos, quando alguém nos pergunta onde nos encontramos, ainda respondemos sem hesitar:
-Lá no Cine Marabá!
