ElsonMAraujo
Dizem que as cidades se medem pelos seus viadutos, pelo concreto que rasga o céu ou pelo ritmo frenético do comércio que faz pulsar o coração das avenidas. Mas quem conhece a alma de Imperatriz sabe que a nossa grandeza sempre se escondeu nas miudezas que se transformavam em gigantes. Grandes coisas teve a nossa Imperatriz, daquelas que não se compram em faturas de progresso, mas que se guardam no lado esquerdo do peito. Uma delas, sem dúvida, foi a sua Banda Municipal.
Tudo começou ali pelo Sesi, no tempo do saudoso diretor Miracy, sob a batuta do maestro Moisés da Providência Araújo.
O cronista Nelson Bandeira conhece essa história melhor do que
ninguém; também diretor, era um
apaixonado pelo trabalho da banda e pelos seus músicos, tornando-se uma espécie
de padrinho daquela formação. Em determinado momento, um prefeito que tinha apreço pela cultura se apaixonou pela causa e
trouxe para perto de si o time do professor Moisés. A banda deixou de ser
apenas uma iniciativa vinculada ao Sesi e passou a pertencer à cidade. Ela era,
na verdade, o relógio emocional de Imperatriz.
Durante o mandato do doutor Fiquene, a Banda Municipal esteve presente em quase todos os eventos oficiais, principalmente nas inaugurações de escolas. Era uma atração à parte. Encantava os circunstantes e dava às solenidades um brilho que não vinha apenas dos discursos.
O Hino Nacional era executado no estilo raiz, na leitura da engenharia da partitura, com o som dos instrumentos ocupando o ambiente e despertando aquele sentimento cívico que, em certas ocasiões, parece adormecido. Também não faltava o Hino de Imperatriz, com letra do prefeito e arranjo do mestre Moisés. Era sempre assim: cumprida a parte cívica, vinha a música popular. E o que antes era solenidade virava festa.
Havia algo bonito, quase mágico, naquela formação. Era visível que aqueles experientes rapazes, entre eles meu pai, o mestre Zuza, não estavam ali apenas pelo salário. Estavam pelo prazer da arte, pela alegria de tocar, pela satisfação de fazer música.
O pagamento era
importante, naturalmente, mas não parecia ser laço nem razão maior de estarem
ali. Quando a Banda Municipal começava a tocar, o tempo parecia desacelerar. O
idoso interrompia a conversa no banco da praça para ouvir a valsa antiga; a
criança esquecia o sorvete derretendo nas mãos, hipnotizada pelo brilho do
trompete; e o trabalhador, a caminho de casa, esticava o passo só para garantir
mais um minuto daquela trilha sonora coletiva.
Mas o tempo passa, a cidade
cresce e os sons mudam. Com o fim da Era Fiquene, a Banda Municipal nunca mais
foi a mesma.
Não por falta de disposição dos
músicos. Conhecendo muitos deles como conheci, acredito que alguns continuariam
tocando até sem receber nada, pelo menos por algum tempo. O problema estava em
outro lugar: na burocracia. Com a Constituição de 1988, a exigência do concurso
público para o ingresso nos quadros da administração passou a fazer parte das
regras do serviço público. E aí surgiu um obstáculo difícil de superar. Nenhum
daqueles músicos, pelo que me recordo, foi contemplado por uma solução
administrativa capaz de assegurar a continuidade daquela formação.
Havia ainda uma particularidade: a quase totalidade dos integrantes era autodidata. Gênios pela própria natureza, aprenderam sozinhos o ofício, desenvolveram o ouvido, dominaram os instrumentos e construíram uma experiência que não cabia facilmente nos certificados escolares. Eram músicos de grande habilidade, mas muitos tinham baixa escolaridade formal.
Um concurso organizado sem considerar as
características daquela atividade significou, na prática, o fim definitivo da
formação original. Não se tratava de dispensar as exigências legais, mas de
encontrar um caminho que permitisse conciliar a legislação com a preservação de
um patrimônio cultural da cidade.
Os anos passaram. Houve esforços
isolados para manter ou recuperar a Banda Municipal. Um governo tentava, outro
prometia, surgiam iniciativas, conversas e esperanças. Mas, no fim, todos os
esforços acabaram vencidos. A banda deixou de existir. E 99% daqueles antigos
integrantes, como costumo dizer, também já partiram.
No dia 10 de outubro último, um dos poucos remanescentes daquela formação seguiu para o Oriente Eterno. Aos 84 anos, faleceu Genuíno Cândido Lucena, o mestre Genu, saxofonista, assim como meu pai.
Nos últimos anos, já não era tão requisitado para apresentações.
Ficava ali, em sua residência na Praça União, sentado numa confortável cadeira,
olhando para o horizonte. Às vezes, eu o observava e imaginava que estivesse
vivendo uma espécie de catarse silenciosa, revendo mentalmente os bons momentos
de sua profissão: os tempos da banda, as apresentações, as milhares de festas
que animou ao longo da vida. Via em Genu a imagem do meu pai.
Mais de uma vez pensei em me
aproximar, conversar, gravar um depoimento, registrar suas lembranças e deixar
aquele conteúdo imortalizado na rede. Mas fui adiando. Amanhã eu faço. Outro
dia eu passo lá. Depois a gente conversa. A velha sabotagem do amanhã. E o
amanhã, como sabemos, nem sempre espera. Agora, Genu também se foi. Ficaram as
lembranças, as histórias e aquela pequena cobrança que fazemos a nós mesmos
quando percebemos que poderíamos ter preservado uma voz, um gesto, uma
narrativa que não se repetirá.
O Dia de Finados se aproxima. É o
momento de homenagear e celebrar a memória daqueles que já não estão
fisicamente entre nós. Quero aproveitar a ocasião para prestar minha homenagem
à antiga formação da Banda Municipal de Imperatriz. Aos mestres que fizeram da
música uma profissão, mas também uma forma de existência: Maestro Moisés, Joãozinho
Batata, Mestre Antônio, Maestro Sargento Mauro, Maestro Agnaldo, Zuzinha,
Jaime, Zuza do Zabumba, Maestro Orgmar, Luizão, Ipixuna e, agora, Mestre Genu.
Acredito que todos estejam no
Céu. E, se me permitem a licença poética, imagino que por lá tenham organizado
uma nova banda, sob a regência do mestre Moisés. Meu pai, o mestre Zuza,
certamente já encontrou seu saxofone. Genu deve estar por perto, afinando o
seu. Os demais, cada qual com seu instrumento, devem estar preparando uma
apresentação para as celebridades celestes.
Quem sabe, quando o silêncio dos
cemitérios se misturar às lembranças dos que partiram, não consigamos ouvir, lá
de cima, um pouco daquela música que um dia encantou as ruas e as solenidades
de Imperatriz?
A Banda Municipal acabou. Seus músicos foram partindo. Os instrumentos, provavelmente, repousam em algum lugar. Mas há coisas que nem o tempo, nem a burocracia e nem a morte conseguem silenciar. Enquanto houver alguém para se lembrar daquela música, a Banda Municipal de Imperatriz continuará tocando nas nossas intocáveis memórias.
Há
despedidas que também são formas de eternizar.
