sexta-feira, 30 de junho de 2023

ILUMINAÇÃO

 

Na noite escura, 

a luz brilha em vela,

Guia o caminho como estrela,

 singela.

O fogo arde,

 aquece e ilumina,

Na jornada incerta, alma peregrina.


sábado, 24 de junho de 2023

SONHAR

ElsonMAraujo

 

O sonhar poético, o sonhar que diz ser premonitório, o sonhar profético, este tão decantado nos textos sagrados; o sonhar que acalma e agita o coração, o sonhar desconexo, o sonhar, traduzido como desejo, ou meta a alcançar. Enfim, os caminhos para interpretar o sonhar são múltiplos e se intercruzam com a religião, a ciência e a cultura. O sonho é um mecanismo complexo, e até hoje objeto de estudos, não conclusivos, mas que se sabe extremamente benéfico para o equilíbrio humano.

 A ciência define o sonho como uma experiência de imaginação do inconsciente durante o sono. Sigmund Freud, o fundador da psicanalise e precursor dos estudos sobre o tema, diz que os sonhos noturnos são gerados na busca pela realização dos desejos reprimidos.  Já o psiquiatra e pesquisador americano John Allan Hobson considerou "os sonhos como um mero subproduto da atividade cerebral noturna".

 Fora da ciência, em muitas tradições culturais e religiosos, o ato de sonhar ganha ares esotéricos, neste caso revestido de poderes premonitórios.

 Em algumas denominações religiosas é comum ouvir a frase “tive um sonho de revelação contigo”, que grosso modo, seriam mensagens divinas direcionadas aos fiéis, que costumam levá-los muito a sério.

 No senso comum, o ato de sonhar tem sempre um significado. Quando ainda não tem, cria-se um. Conheço vários casos.

 Esses “significados” mudam de pessoa para a pessoa. É só sonhar, que começam os exercícios de interpretação. Tempos atrás, lá no bairro Vila Lobão, apareceu uma senhora que vendia sonhos para jogadores do jogo do bicho. Teria dado certo uma vez, e foi o bastante para a casa dela virar um ponto de encontro dos apostadores. Por algum tempo, vender sonhos foi seu ganha pão. Cheguei a noticiar “esse comércio exótico” quando trabalhava formalmente na imprensa local.

 Já tive sonhos premonitórios. É verdade! Uma vez botei na cabeça que iria sonhar com as seis dezenas da megasena. Demorou, mas não é que sonhei! Não com os seis números, mas com cinco. Sabe quanto ganhei? Nada. As cinco dezenas saíram dispersas nos outros volantes, para minha inteira decepção.

 Para não haver mais frustração passei a tratar os sonhos, dos quais lembro, com um certo lirismo. Uma vez tive um sonho assim “meio louco” sem tradução aparente. O sonho foi mais ou menos de acordo com descrição abaixo. Não encontrei, dessa vez significado nenhum, mas nunca o esqueci e tento saber até hoje o que  “ele queria me dizer”  Se você, leitor,  entende de sonhos me ajude a interpretá-lo.

 

“No universo dos sonhos, rostos perdidos surgem na imensidão do tempo. Alguns, com olhos brilhantes destacados na penumbra, sorriem; outros, parecem indiferentes, e num terceiro quadrante alguns simplesmente só observam, sem nada esboçar. Esses desapareceram, na mesma velocidade que apareceram”

 Numa outra vez, dormi lembrando do meu saudoso pai, o mestre Zuza. Quando acordei o sonho acabou rendendo o texto abaixo reproduzido e que acabei publicando no meu primeiro livro solo, Universo Aberto.

 

MÚSICOS SÃO ANJOS



 Sonhei que anjos desciam à Terra, e que num final de tarde de Céu azul anilado, empunhando liras e harpas, executavam uma canção que nunca ninguém tinha ouvido.

 

Os filhos da Terra ficaram encantados com todos os sentidos vidrados no infinito azul e conectados àquela ária, ornada pela filarmônica de anjos, naquele instante ouvida em todo o Planeta.

Ao final, vendo que aquilo era bom para os ouvidos e a alma, nem todos os anjos retornaram para o Céu. Alguns permaneceram aqui para continuar a encantar a alma da gente com acordes celestiais.

Músicos são anjos, meu pai era um.

 Passei então, desde o sonho frustrante com os números da mega-sena, a agir dessa forma. Quando o sonho é bom, não tem jeito, trato logo dele extrair uma tradução poética. E assim, sigo sonhando, sonhando, sonhando.

 Com, ou sem significado, sonhar termina sendo um fenômeno extremamente importante e carregado de simbolismo.  Acredito até que pode ser uma forma de comunicação conosco e com os universos que nos cercam.  No mínimo, de um sonho, nasce a vontade de construir crônicas ou poesia.  

 

sábado, 18 de março de 2023

FOLHA AO VENTO



ElsonMAraujo
Hoje, logo cedo, vi a folha de uma antiga árvore cair solitariamente. Desgarrada das outras folhas irmãs, ela  foi arrastada rapidamente pelo vento para longe da velha árvore, e dos galhos que por algum tempo lhe  deram sustentação, lhe alimentaram e lhe deram vida.
O fenômeno por algum motivo,verdadeiramente, me entristeceu. Mas depois veio a alegria: surgiu uma outra breve rajada de vento e a folha voou indo pousar  calmamente aos pés de uma outra árvore , e ali ficou.  Aí  pude compreender que ela acabara de cumprir uma jornada , e imediatamente começava outra.

segunda-feira, 13 de março de 2023

POR UM AMBIENTE MAIS SEGURO PARA A MULHER

                                     

ElsonMAraujo

 Considero que mais do que uma data festiva, o oito de março, o Dia Internacional da Mulher comemorado nesta semana, deveria reservar um espaço não só para as festividades, mas também para se refletir sobre a manutenção de todas as conquistas históricas já efetivadas por elas, sem desprezar a   luta    permanente pela construção de um ambiente mais seguro. Quando falo em ambiente seguro, me refiro à   integridade física, mesmo.

 Os números, e o noticiário do dia a dia, demonstram que apesar das diversas ferramentas de proteção, e aí entram principalmente as leis, ainda não houve um freio nos casos de violência contra as mulheres, que só se acumulam.  

 Na atualidade, as mulheres ainda são obrigadas a conviver num ambiente marcado, diria, por um nocivo preconceito ancestral do qual derivam o machismo, comportamentos considerados misóginos (ódio contra as mulheres) e outras nocividades que, em algumas ocasiões, resultam até em assassinatos. É fato que as conquistas das mulheres ao longo dos séculos são inúmeras, mas “o ecossistema feminino” ainda é marcado pela selvageria masculina.

 Por tudo que representa a mulher, no consciente e no inconsciente masculino, não resta dúvida que além do carinho, ela precisa ser tratada com respeito e ter a vida preservada.

 Cumpre ressaltar que as conquistas femininas são fruto de um trabalho árduo, que precisa ser realmente reconhecido e celebrado. Mas também é necessário trabalhar para se criar esse ambiente mais acolhedor, e como já disse, seguro para todas as mulheres para que, assim. possamos avançar na luta pela igualdade de direitos.

 Apesar da mulher ainda conviver num ambiente inseguro,   do ponto de vista da preservação da sua  integridade física,  cabe destacar  seu protagonismo histórico pelas lutas e garantias de direitos.

Difícil imaginar que  até 1827, aqui no Brasil, as mulheres, no quesito escolarização sequer podiam ir além da escola primária. Uma lei, a Lei Geral, promulgada no dia 15 de outubro daquele ano, mudou essa história. O voto, outra conquista, foi resultado de uma grande luta travada desde a Constituinte de 1891 e  mesmo assim,  só passou a  valer em 1932, quando foi positivado no primeiro Código  Eleitoral Brasileiro.

 É isso, o protagonismo feminino na sociedade tem sido uma luta constante por igualdade de gênero e oportunidades. As mulheres têm conquistado cada vez mais espaços em áreas antes dominadas por homens, mostrando sua capacidade e talento em diversas áreas profissionais, além de liderarem movimentos sociais e políticos importantes. No entanto, e isso parece até uma espécie de mantra, ainda há muito a ser feito para garantir que elas tenham acesso igualitário a recursos e oportunidades, sem sofrerem discriminação ou violência de gênero.

 

segunda-feira, 6 de março de 2023

A inteligência artificial e o desafio do agora


ElsonMAraujo

Ela chegou, chegando!  Já realiza consultas médicas, faz arranjos musicais,  realiza vendas  on line,  e pasmem! Basta um comando com as especificações do que se quer, e em  30 segundos, às vezes até menos, é elaborada uma fotografia como se fora  produzida, ou tirada pelos melhores fotógrafos do mundo.

Também já são centenas de textos e livros, pagos ou grátis, de vários gêneros, à disposição do leitor. No mês passado um dos livros mais vendidos numa determinada plataforma de vendas on line, foi um infantil, “escrito” por uma inteligência artificial (IA).  Parece assustador, mas tudo isso é uma realidade que já integra o quotidiano de milhares de pessoas, mundo afora.

 Programável, a inteligência artificial aprende e vai se aperfeiçoando a cada acesso, a cada consulta, a cada comando. Todas as grandes corporações da área da internet já estão operando e disponibilizando milhares de serviços por meio dessa nova e revolucionaria ferramenta.

Não há dúvida de que se trata de uma nova revolução de caráter global que, se já não afeta, vai afetar fortemente o mundo do trabalho e as relações humanas. Para não se tornar uma peça descartável os seres humanos estão obrigados a um novo processo de adaptação ao se considerar que a chegada da Inteligência Artificial (AI) é um dos desdobramentos mais interessantes e assustadores da história da tecnologia. Ela tem o potencial de revolucionar nossas vidas, mas também pode criar desafios importantes para a humanidade.

Por um lado, a Inteligência Artificial traz muitas vantagens para o nosso mundo. Ela pode nos ajudar a resolver problemas complexos, reduzir os custos de produção e aprimorar a qualidade dos produtos e serviços. Além disso, pode ajudar a automatizar tarefas repetitivas e facilitar o acesso a informações importantes.

No entanto, a Inteligência Artificial também pode trazer vários desafios. Por exemplo, ela pode criar riscos para a segurança e privacidade, aumentar a desigualdade de renda, reduzir o número de empregos e prejudicar a saúde mental das pessoas. Além disso, pode gerar resultados injustos e incorretos, se não for usada adequadamente.

Na semana passada, ao refletir sobre o tema no brilhante  texto  O biocomputador e a consciência,  o escritor e filosofo, membro da Academia Imperatrizense de Letras Tasso Assunção,  destacou que de fato  “os computadores evoluem, tornam-se cada vez mais capazes de produzir resultados surpreendentes e já superam grandes gênios em termos do volume de informações que podem processar”, contudo,  prossegue ele, embora “os computadores e a inteligência artificial possam vir a executar todas as atividades mentais, jamais serão conscientes e não poderão em tempo nenhum aprender a refletir autonomamente”

Pelo menos esse aspecto, a da incapacidade de desenvolver a consciência e refletir, como destaca Tasso Assunção, de alguma forma nos deixa menos preocupados. Já imaginou se num futuro, não muito distante, além dessas multitarefas a IA, como a gente já assiste nas produções cinematográficas, de uma hora para outra, adquira consciência?

É ou não é assustador?

O filosofo refrigera nosso coração.

“Eles podem acumular conhecimento, mas não estarão em hipótese alguma em um "estado de conhecer". Em outros termos, saberão, mas jamais saberão que sabem, o que caracteriza o Homo sapiens”

Em suma, a Inteligência Artificial pode trazer muitas vantagens, mas também pode trazer desafios. É importante que os governos e empresas trabalhem juntos, desde logo, para garantir que os benefícios da tecnologia sejam aproveitados por todos, e que os riscos sejam minimizados.

 

 

 

 

 

 

 



sábado, 25 de fevereiro de 2023

A Guerra do Leda: Da fuga do Maranhão, ao linchamento em praça pública, em terras paraenses

 

                                       Cidade de Grajau (MA) epicentro da "Guerra do Leda"

       

ElsonMAraujo

 

Chegamos ao terceiro texto onde assentamos um fragmento da história do Maranhão ainda pouco conhecido: “A Guerra do Leda”, que segundo a historiadora Layla Adriana Teixeira Vieira, e ainda o patrono da Cadeira 02 da Academia Imperatrizense de Letras, João Parsondas de Carvalho, bem como o saudoso Salvio Dino, da Academia Maranhense de Letras/ Academia Imperatrizense, se propunha a conquistar a independência política do Sertão Maranhense.

Sobre a Guerra do Leda é admitido, pelos raros estudos encontrados,  e sobretudo pelo relatos testemunhais de Parsondas  revisitados por Sálvio Dino, que  ela teve como um dos  epicentros a cidade de Grajaú, cognominada também naquele tempo de Vila da Chapada,  terra natal de um dos líderes da rebelião, o rico proprietário rural e político  Leão Rodrigues de Miranda Leda 


Leda era ferrenho adversário do então todo poderoso Benedito Leite, o senador da República que mandava mais do que o governador.


Os revoltosos aspiravam, nas palavras da historiadora Layla Adriana Teixeira, uma presença maior do Estado, e que o mesmo promovesse seu desenvolvimento por meio da aplicação de verbas que se destinassem à construção de estradas, escolas e postos de saúde.  Mas o movimento ganhou outros contornos depois do assassinato, em Grajaú, do promotor público Estolano Eustáquio Polary, no dia 16 de agosto de 1898.  É que o senador Benedito Leite aproveitou para atribuir o mando do crime a Leão Leda e seu grupo político.


Leda, conforme já contei, tentou se defender legalmente, mas quando percebeu que na verdade havia era uma sentença de morte e não uma  ordem de prisão, fugiu com mais de 20 homens armados. Iniciava ali, a maior caçada humana já registrada no alto sertão maranhense, com grande derramamento de sangue inocente.

Para capturar Leda e seus homens, Benedito Leite enviou várias guarnições para a região. Com o grupo fortemente armado, Leda conseguia sempre escapar do cerco policial. Os registros de Parsondas, revisitados por Sálvio Dino no livro Parsondas de Carvalho, um novo olhar sobre o sertão, narram a ocorrência de vários conflitos entre  a Polícia  e os  fugitivos, com mortes de ambos os lados.

 Com o agravamento da situação diante da resistência de Leda, é que surgiu a ordem para “castigar” quem desse abrigo para o fugitivo. Bastava uma suspeita para a liberação da licença para matar, estuprar, torturar e tomar a terra, na sua maioria, de pequenos proprietários rurais. Muitas das vítimas chegaram a ser degoladas e castradas.

 Na obra Guerra do Leda, um relato contemporâneo de Parsondas de Carvalho sobre a rebelião que deu nome ao livro, com riqueza de detalhes ele conta um desses episódios, ocorrido num povoado próximo a Carolina. Ali, um idoso, sob a suspeita de ter abrigado Leda e seus homens, depois de ser torturado, foi estripado por um soldado e depois atado a uma estaca para ser comido, segundo eles, pelos urubus, com a recomendação que, quem o tirasse dali para ser sepultado, passaria pelo mesmo suplicio.

 Na cidade Carolina, um padre que a Polícia suspeitou de ter dado abrigo ao grupo do Leda, para não morrer na hora, com a Igreja cercada, fugiu só de batina.

 A Guerra do Leda poderia ter sido totalmente varrida da história do Maranhão se não fosse o espirito inquieto do patrono da cadeira 02 da Academia Imperatrizense de Letras, Parsondas de Carvalho. Antes de escrever Guerra do Leda, para denunciar os crimes do Estado Maranhense contra a população pobre do alto sertão, ele escreveu e publicou vários artigos, principalmente em A Pacotilha, jornal que fazia oposição ao senador Benedito Leite. Mais do que isso, a cavalo,  Parsondas, um misto de jornalista, historiador, geógrafo e rábula (advogado) foi ao Rio de Janeiro e conseguiu também publicar seus artigos no influente Jornal do Brasil.

 Os textos de Parsonda, depois juntados em a Guerra do Leda, e posteriormente resgatados pelo advogado, político e historiador Sálvio Dino, em 2007, são considerados importantes pelos historiadores por abrigarem  as poucas referências sobre esse período sangrento da história do Maranhão , ocorrido entre o final do século XIX e início do século XX, aqui neste lado Maranhão. 

Guerra do Leda ainda é um campo amplo e aberto para os pesquisadores e historiadores maranhenses. 

 Bem, e o que aconteceu com Leão Leda?  Os homens de Benedito Leite depois de dezenas de mortes, dos dois lados da refrega e ainda do assassinato de dezenas de inocentes sem nenhum envolvimento na história, não conseguiram capturá-lo. Consta que entre 1898 e 1889 ele vagou pelo sul do Maranhão e norte do Goiás, fugindo da polícia maranhense, até que em 1900 fixa-se em Boa Vista do Tocantins, hoje Tocantinópolis (TO) onde refez sua vida e até tornou-se prefeito do lugar.

 Depois, essa informação encontrei na enciclopédia eletrônica Wikepedia, já no final de 1908, Leão Leda foi morar em Conceição do Araguaia, terra paraense que por algum tempo chegou a pertencer ao Estado de Goiás.  Seu forte ativismo nunca o afastou dos levantes políticos. Alí, se envolveu numa outra luta emancipacionista para criar um novo estado, que englobaria o sudeste do Pará e o norte do Goiás.  Comprou briga com o prelado Domingos Carrerot  que o  “acusou de ser maçom e judeu”, briga que não teve um final feliz.

 Consta que no dia oito de Março de 1909, por volta das 11 horas da manhã, incentivados por Dom Carrerot, um grupo de homens fortemente armado cercou a casa de Leda. Depois de 24 horas de conflito, todos que estavam na casa estavam mortos. 

Leda e o filho Mariano foram capturados e linchados em Praça Pública, dia nove de março de 1909. Terminava ali a vida do homem que quis emancipar o sertão maranhense  e depois,  territórios do Pará e do Goiás.

 

domingo, 19 de fevereiro de 2023

“A Guerra do Leda”: Assassinatos, estupros, castrações e esbulhos no alto sertão maranhense, no fim do século XIX

 

ElsonMAraujo

 

Superficialmente é estudado nas escolas que o alto sertão maranhense, região que compreende o sul do Estado, foi um dos últimos rincões do Estado a alcançar algum tipo de desenvolvimento.  “A costa sempre esteve de costas para este lado do Estado”. Isso incomodava muito, como até hoje incomoda, a gente da nossa região. Se na atualidade as ações do poder público ainda são escassas por aqui, imagine isso no final do século XIX e começo do século XX.  A sensação era de total abandono. O motivo da chamada “Guerra do Leda” foi esse sentimento, marcado por ferrenhas disputas políticas.

 Segundo a historiadora Layla Adriana Teixeira Vieira, num estudo acadêmico apresentado no simpósio nacional de história, em Natal (RN), em 2013, o movimento defendia, perceba a ousadia e o idealismo das lideranças da época, a independência política do sertão maranhense tendo como fundamento esse abandono regional e a carência de desenvolvimento.

Certamente essa movimentação não poderia passar ao largo dos olhos do governo maranhense, que tratou logo de sufocá-lo. Mas esse não é o alvo da coluna de hoje.  O destaque é para, diria, um fragmento, ainda pouco estudado, ou melhor um dos desdobramentos do levante pela emancipação do alto sertão maranhense que resultou num banho de sangue humano sob a “batuta” do então senador, naqueles idos um poderoso chefe político maranhense, Benedito Pereira Leite.

 Essa guerra, custou a vida de dezenas de inocentes. Foram inúmeros assassinatos, estupros, torturas. Além disso, muita gente teve as propriedades esbulhadas pelos soldados de Benedito Leite. Muitos dos que resistiam, eram castrados (capados) na frente de todo mundo.

 Esse pedaço da história do Maranhão foi registrado/denunciado pelo escritor, professor, jornalista, geógrafo e rábula (advogado) João Parsondas de Carvallho, no livro “A guerra do Leda”, e revisitado  em 2007 .pelo fundador da Cadeira 02 da Academia Imperatrizense de Letras , Sálvio Dino, que hoje ocupo e que tem como patrono Parsondas de Carvalho. O texto de hoje é desdobramento do anterior  , reveja (https://oprogressonet.com/noticia/28562/riqueza-literaria-do-maranhao). 

 

Pois, bem, como já fora dito, o saudoso Sálvio Dino, no livro livro Parsondas de Carvalho, um novo olhar sobre o sertão, revisita o livro A Guerra do Leda. A obra é um relato cruel desse esquecido fragmento da nossa história, ocorrido no final do século XIX, cuja motivação inicial era emancipar a região sul do Maranhão, mas que acabou em muito derramamento de sangue.

 O livro reportagem, Parsondas de Carvalho, um novo olhar sobre o sertão, de Sálvio Dino, pode ser considerado o principal documento produzido pelo fundador da Cadeira 02 da AIL, sobre seu patrono, testemunha dos acontecimentos daquele tempo em que o Maranhão era governado por João Gualberto Torreão da Costa, mas quem mandava era o poderoso chefe político e senador Benedito Pereira Leite.  Sigamos pelo túnel da história!

 

Na construção do livro reportagem, Salvio Dino, com o olhar do patrono, percorreu toda a região, visitou famílias, resgatou informações inéditas e até visitou o túmulo de Parsondas, que morreu em junho de 1916, na vizinha Montes Altos, onde está sepultado.

 

Toda a atrocidade ocorrida na “guerra do leda”, na apuração do acadêmico Sálvio Dino, foi denunciada por Parsondas de Carvalho nos jornais de São Luís, principalmente em A Pacotilha. Tamanha a vontade de tornar público e fazer barrar esses acontecimentos aqui na região, que ele, a cavalo, foi “bater no Rio Janeiro” para denunciar o episódio, no então Jornal do Brasil, um dos mais importantes jornais da sua época. Por essas terras, os relatos sobre a guerra do leda poderiam ter sido varridos para debaixo do tapete da história, se não fosse a coragem de Parsondas.

 O episódio é assim chamado “guerra do leda”  porque um dos protagonistas foi  o grajuense Leão Rodrigues de Miranda Leda , um rico político e  proprietário de terras desta região. De orientação liberal/republicana, Leda era ferrenho adversário de Benedito Leite e do governador da época. 

 Pode se dizer que o banho de sangue   e outras atrocidades   levadas a efeito sob o incentivo de Benedito Leite, e o patrocínio do Governo do Maranhão, teve início a partir do assassinato do promotor de Justiça, Estocolmo Eustáquio Polary, em 16 de agosto de 1898, em Grajau.  Na conjuntura da época, “prato perfeito” para o poderoso chefe político se livrar de um adversário, que há muito vinha lhe incomodando. A estratégia para isso, foi acusar Leda, o genro dele Tomaz Moreira , e todo seu grupo,  pela encomenda do crime.

 A morte de Polary acabou por justificar o envio pelo governo maranhense de um grande contingente da Polícia para a região.

 Já havia um conflito político por causa da luta pela emancipação da região, que tinha Leão Leda como um dos líderes, mas o caldo engrossou mesmo, foi depois do assassinato do promotor público. Naquele tempo, algumas dessas disputas eram resolvidas na base da bala.  Agora, imagine isso quando a peleja tinha numa ponta um prestigiado e influente chefe político, e na outra, um rico proprietário de terras, adversário ferrenho dos mandatários do Maranhão.

 Leão Leda não era bobo. Isso fica claro na obra de Salvio Dino/Parsondas. Ele Sabia da existência do devido processo legal e que não poderia ser acusado unilateralmente de um crime, que dizia não ter praticado, e não poder se defender. Fez uma visita ao magistrado do lugar, impetrou habeas corpus, enfim, tentou se defender legalmente, mas quando viu que o legal não resolveria, se apropriou de um método de defesa muito utilizado nos rincões do Brasil, naquele tempo. Ele contratou, pelo menos, duas dezenas de pistoleiros para fazer a sua segurança. Se tornou um fugitivo da Polícia.  Sabia que a ordem dos Leões, no caso de prisão, seria sua execução.   Havia ali uma implícita “sentença de morte” conta Leão Leda que não ficou na cidade para “pagar para ver” .

 Como o espaço da coluna acabou, não é possível contar o desfecho dessa história na edição de hoje. Na semana que vem, o final dessa história. 

A CIDADE INVISÍVEL

ElsonMAraujo O desafio veio do amigo João Batista, ex-deputado, com quem estreitei amizade nos últimos doze meses e com quem costumo convers...