sábado, 10 de agosto de 2024

A VIDA EM TODO LUGAR


ElsonMAraujo


Não diria que é uma paixão, mas confesso que tenho um grande apreço pela fotografia. Durante aproximadamente cinco anos, vivi uma espécie de encantamento por essa arte, que floresceu a partir da minha admiração pelos trabalhos do renomado maranhense Brawnir Meireles, um dos melhores fotógrafos do Brasil. Também me inspirava nas obras do fotojornalista Daniel Sena, cuja maestria era inegável. Quando ocupava um cargo público, incentivei a Fundação Cultural de Imperatriz (FCI) a promover um concurso de fotografia. O evento contou com pelo menos sete edições e atraía muitos artistas da luz, movimentando a cena cultural da cidade por um longo período.

 O “Olharte Imperatriz”, sob a direção do inquieto Lucena Filho e sua equipe, tornou-se um marco na história local. Embora a intensidade do meu amor pela fotografia tenha diminuído, o apreço pela arte permanece.

Para aqueles que escrevem, a fotografia é um poderoso estímulo. Muitas vezes, a beleza – ou a falta dela – chega com uma força tão intensa que apenas capturar a imagem não é suficiente; é preciso também eternizar aquele momento em palavras. Já vivi essa experiência várias vezes e considero essa prática uma valiosa ginástica para fortalecer e estimular as conexões cerebrais.

Recentemente, deparei-me com uma cena que me impactou profundamente e que logo procurei registrar. Infelizmente, perdi o registro quando formatei meu computador. Tratava-se do nascimento de uma  flor vinca em um local dos mais improváveis: no vinco de uma parede que mais recebe a luz do sol em minha casa. A pequena planta, que sobreviveu por pelo menos cinco meses, brotou no concreto puro, sem qualquer adubo. Mesmo assim, todos os dias, saudava os moradores da casa com sua brancura (existem outras cores), impressionando-me com sua resistência e capacidade de sobrevivência.

O fato de a vinca ter surgido em um ambiente tão hostil pareceu-me uma metáfora para a vida. Em meio às adversidades e à falta de condições ideais, a vida ainda é capaz de encontrar um caminho. Essa experiência me ensinou que, mesmo em circunstâncias desfavoráveis, com um pouco de água, atenção e um ingrediente primordial chamado amor, a sobrevivência é não apenas possível, mas muitas vezes surpreendente.

Além disso, a vinca, cientificamente conhecida como *Catharanthus roseus* ou *Vinca rosea*, também chamada de planta boa-noite ou vinca de Madagascar, possui propriedades medicinais notáveis. Rica em alcaloides, esta planta é recomendada para auxiliar no tratamento de feridas, diabetes e pressão alta, devido às suas propriedades cicatrizantes, diuréticas e antidiabéticas.

A presença dessa planta em um local tão improvável não é apenas um testemunho de sua resiliência, mas também um lembrete de que, em muitos aspectos, a vida, assim como a vinca, encontra maneiras surpreendentes de prosperar.

Ao refletir sobre a perseverança desta pequena planta, percebo que cada um de nós, em nossas jornadas pessoais, pode encontrar inspiração e força nas circunstâncias mais inesperadas. Talvez, assim como a flor  vinca, possamos todos florescer e prosperar, mesmo quando o cenário à nossa volta parece menos que ideal.

 

 

 

 

 

 

 

domingo, 28 de julho de 2024

CREIO

 

Ao longo da vida, por diversas questões, pessoais e também circunstanciais, cheguei a duvidar da existência de Deus. Nasci e cresci num lar cristão/católico. Batismo, Primeira Comunhão, crisma, clube de jovens, movimentos carismáticos, enfim, fiz tudo que um jovem cristão, nascido num lar católico, por tradição familiar, no início da vida precisava fazer. Anos depois, frequentei a Assembleia de Deus. Imagine então o dilema que vivi quando das vezes em que duvidei da existência do Criador? Tudo ficou só comigo. Tema sensível, socializo pela primeira vez aqui neste cantinho semanal. Mas, e tudo tem sempre um mas, minha descrença durou pouco.

Costumo hoje dizer, em tom de brincadeira, que tentei algumas vezes ser ateu. O ateísmo é a ausência de crença em uma ou mais divindades, mas no senso comum se convencionou que é a pessoa que não acredita em Deus. Enfim, minha tentativa de virar um “sem Deus”, graças a Deus, foi frustrada. É que por mais que tentasse provar, para mim mesmo, a inexistência dele, a coisa não dava certo. Sabe o porquê? É que a cada tentativa, mais Ele aparecia na minha frente, estando presente em tudo que via. Vez por outra, lembrava daquela saudação, típica do islam.  ”O Deus que habita em mim, é o mesmo que habita em você”. Uma frase que hoje considero de uma profundidade extraordinária.

Em outra ponta, recordava dos tempos da catequese quando fui ensinado que Deus mora dentro de nós, e que nosso corpo é o templo do Espírito Santo, um dos componentes da Santíssima Trindade. Na época de infância, não tinha, mas que hoje faz muito sentido para mim.

Como uma coisa puxa outra, também vinha até mim o conceito bíblico que diz que Deus verdadeiramente é onisciente, onipresente e onipotente e que possui várias moradas, uma delas no nosso interior. Não tenho mais dúvida da existência de um Ser Superior, que tudo sabe, que tudo vê, que equilibra o universo quando há necessidade de equilibrá-lo e que, de igual modo, o desequilibra.

E foi numa dessas noites insones, em que a mente teima em rever o passado e imaginar o futuro, que me peguei refletindo sobre a simplicidade da fé. Lembrei-me das palavras de um santo católico, que dizia que é no silêncio do coração que Deus fala. Na minha mente inquieta, algo insistia em pontuar que não é preciso buscar sinais espetaculares ou milagres grandiosos para sentir a presença de Deus. A presença divina se manifestava nas pequenas coisas, nas sutilezas do cotidiano, no sorriso de uma criança, no pôr do sol, no abraço sincero de um amigo. Essas pequenas manifestações me fizeram perceber que Deus não está distante, mas sim intimamente ligado a cada momento de nossas vidas.

Gosto muito de ler textos sobre esse tema e da lavra de autores de diversas confissões, evidentemente construídos em momentos de profundas reflexões. Ouso até dizer que essas reflexões são provocadas pelo próprio Criador de todas as coisas. Dias desses cheguei a uma conclusão: Estou certo? Não sei! Contudo, essa conclusão não sai da minha cabeça: a de que nesse lado do Planeta Terra, nos “ensinaram” Deus de forma deturpada. O homem complicou demais a existência dele ao cercá-lo de verdades engarrafadas, utilizando-o, por meio das religiões, como instrumento de dominação. Outra conclusão: a relação com Deus é mais simples do que muitos imaginam, principalmente porque somos uma de suas moradas.

Deus existe sim! Está presente em todos os lugares, em todos os momentos, inspirando e se mostrando, o tempo todo, a todos os seres da Terra. Deus existe sim! E se faz revelar a todo momento. E, assim, na simplicidade da fé renovada, encontrei paz e um sentido profundo para a minha existência, percebendo que, em cada pequena coisa, Ele se revela e nos convida a viver com amor e gratidão.

sábado, 20 de julho de 2024

UM POUCO SOBRE A MULTIDÃO


Tem gente que tem medo de multidão ou sente crise de ansiedade incontrolável quando se depara com esse tipo de situação. Esses dois mecanismos têm até nome. Nomes esquisitos, por sinal. O medo explícito de multidão a ciência batizou de demofobia. Também conhecido por oclofobia ou enoclofobia, que é quando se tem fobia de estar em ambientes cheios de pessoas. Já a situação de ansiedade incontrolável a ciência denominou de agorafobia, que ocorre tanto em lugares fechados quanto em abertos. Ambas as denominações mencionadas, no geral, significam, numa linguagem bem nossa, o medo de estar no meio de muita gente.

O contrário também existe. Há muitas pessoas que conseguem, por vários motivos, se encontrar na multidão. A psicologia e sua prima, a sociologia moderna, estudam esses fenômenos da natureza humana. Enquanto a sociologia estuda o comportamento e a interação de indivíduos em um grupo, a atração por multidões e sua influência sobre estes, a psicologia social vai estudar a sensação de pertencimento, excitação sensorial e até uma tal de filifilia, denominação esquisita para descrever a não menos esquisita atração sexual por multidões ou aglomerações. Perceba aí a complexidade do ser humano, que não se reduz a uma montanha de células, músculos, suor e sangue, mas a um complexo mecanismo, uma pedra bruta objeto de observação e estudos permanentes.

Confesso que este não seria o tema da semana. Mas aí a gente começa a escrever, vai refletindo, o pensamento fluindo e o tema que seria para estar aqui hoje vai ficando lá para trás. Talvez nem volte mais.

Não me enquadro em nenhum quadro dos estudos referidos até aqui. Mas fiquei curioso para descobrir como se denomina as pessoas que gostam de observar multidão, como é meu caso. O hábito de escrever me levou ao hábito de observar com mais acuidade o “mundo ao redor”. E isso inclui coisas e pessoas. Já escrevi tempos atrás uma crônica sobre a experiência sensorial que foi de percorrer a pé um dos caminhos da cidade. Foi bacana porque acabei por enxergar coisas que via todos os dias. Não é que essa prática, para minha surpresa, também tem nome?

Novidade para mim: flâneurisme é o conceito filosófico e cultural que envolve caminhar pelas ruas da cidade de forma despretensiosa e atenta, observando os detalhes do ambiente urbano e das pessoas que o habitam. Justamente o que fiz e resultou na crônica "Do que Sentirei Saudade Quando Morrer?", que pode ser acessada no seguinte endereço: https://regiaotocantina.com.br/2024/05/19/do-que-sentirei-saudade-quando-morrer/ publicada em Maio 2024 e em maio deste ano.

Pois flâneurisme  foi a denominação mais próxima que encontrei para explicar o gosto que tenho de explorar meus sentidos ao percorrer a cidade e a me deparar com aglomerações de pessoas e, por vezes, multidões. Lembrei que fazia isso bem antes de intensificar o hábito de escrever, que vem da  infância.

Aprendemos muito com a observação dos tipos humanos reunidos, seja nos pequenos ou grandes espaços. Desde as heranças físicas/genéticas até a análise comportamental. E nem precisa ser cientista para isso.

As aglomerações, os ajuntamentos de gente constituem-se em verdadeiros laboratórios onde é possível aprender e apreender muito sobre as dimensões do ser humano. Cada rosto, cada gesto, cada murmúrio ou exclamação revela um fragmento do mosaico que compõe a nossa humanidade. É como se cada indivíduo fosse uma página viva de um livro interminável, onde histórias de vida, esperanças e desilusões se entrelaçam, formando uma tapeçaria rica e multifacetada.

Nas grandes cidades, como nossa querida Imperatriz, as multidões são como rios caudalosos, onde a correnteza de pessoas flui incessantemente. Observar essa correnteza é como mergulhar num universo paralelo, onde se pode testemunhar a diversidade da experiência humana. Ali, no meio da massa de corpos e vozes, percebemos que somos, ao mesmo tempo, únicos e parte de um todo maior. É nesse fluxo contínuo de vida que reside a beleza da multidão: uma celebração constante da existência humana, com todos os seus paradoxos e maravilhas.

segunda-feira, 17 de junho de 2024

LANÇAMENTO: CONSCIÊNCIA CÓSMICA

 


Por meio de reflexões profundas sobre a natureza, a vida e o cotidiano, este opúsculo nos convida a desacelerar e a observar o mundo com mais atenção.

As pequenas revelações contidas em seus aforismos nos ajudam a resgatar a sabedoria que muitas vezes ignoramos ou esquecemos em meio às pressões do dia a dia.

Leia "Consciência Cósmica: Aforismos" e:

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Este ebook é para você se:

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sábado, 1 de junho de 2024

Filha do acreditar

 


 

ElsonMAraujo

 

Acreditar é uma faculdade. Quando acreditamos em algo, somos capazes de feitos inimagináveis. O homem acreditou que podia voar, e voou. Acreditou que podia chegar até a Lua, e lá também chegou. Mas não somos obrigados a acreditar naquilo que não queremos. Assim como um terceiro, por mais eloquente ou convincente que seja, também não ostenta tal capacidade: a de impor um acreditar distante das nossas crenças.

Podemos até, por educação, ouvir ou fingir convencimento, mas fica nisso. No período (pré) eleitoral é comum isso. Na atual conjuntura nacional, nesse campo quase ninguém acredita em alguém. O contrário também é verdadeiro. Dependendo do capital cultural, das experiências, dos interesses individuais, enfim, de fatores intrínsecos e extrínsecos de cada um, podemos cair de amores por uma causa e daí, até matar e morrer por ela.  A fé é filha do acreditar, e num mundo cada vez mais incoerente, para se acreditar também é preciso coerência.

Ter fé é acreditar no invisível, no intocável, no inatingível; não é ter a certeza sobre todos os mistérios que nos cercam, mas é ter a certeza de que existe algo infinitamente maior que nós que pode tornar tudo visível, palpável e possível. (Alexandre Sessa)

 

As três maiores religiões monoteístas no planeta, Judaísmo, Cristianismo e Islamismo, foram construídas a partir da crença no Deus único. Na defesa desse acreditar, nações foram construídas, nações foram destruídas. Sangue foi derramado, sangue foi exaltado. Portanto, é acreditar em acreditar que caminha a humanidade. Seria essa faculdade consciente humana o primeiro passo para se atingir um objetivo, seja ele qual for. O óbvio surge cristalino diante dos nossos olhos: sem acreditar, qualquer iniciativa já nasce morta.

A história está repleta de exemplos que ilustram esse poder do acreditar. Pensemos em Martin Luther King Jr., o mártir da luta pelos direitos civis americanos, que, com seu sonho de igualdade, moveu multidões e inspirou mudanças profundas. Seu acreditar gerou uma grande energia coletiva. Ele acreditava tão intensamente na justiça e na igualdade que seu sonho não apenas moldou seu próprio destino, mas também o de uma nação inteira. Seu sangue jorrou sob a mira de um assassino, no entanto, sua fé na possibilidade de um mundo melhor acendeu a chama da esperança em corações que por muito tempo haviam sido obscurecidos pelo desespero.

Da mesma forma, Gandhi acreditou na força da não-violência e, com essa crença, conseguiu liderar a Índia à independência sem disparar um único tiro. Foi um acreditar silencioso, mas firme, que resistiu às armas e à opressão, provando que a fé em princípios maiores pode transformar a realidade. Cada passo que Gandhi dava, cada greve de fome que ele enfrentava, era um testemunho de que o poder da crença pode mover montanhas.

No entanto, o acreditar não está restrito aos grandes líderes ou aos movimentos históricos. Ele reside em cada um de nós, em nossos gestos cotidianos, em nossas pequenas batalhas. Está presente no agricultor que planta suas sementes acreditando na colheita futura, no professor que ensina acreditando no potencial de seus alunos, no artista que cria acreditando na beleza de sua visão.

Acreditar é, portanto, a força motriz por trás de cada ação significativa. É a faísca que acende a chama da inovação, da descoberta, da mudança. Sem acreditar, a vida se torna uma sequência de atos vazios, desprovidos de propósito e direção. Mas, com a crença, cada momento ganha significado, cada desafio se transforma em oportunidade, cada sonho pode se tornar realidade.

E assim, seguimos adiante, cada um com suas crenças, suas fés, seus sonhos. E é essa diversidade de crenças que enriquece a tapeçaria da humanidade, fazendo-nos lembrar que, no fundo, todos buscamos algo maior que nos transcenda, algo que dê sentido às nossas jornadas. Acreditar, afinal, é o que nos faz humanos.

 

sábado, 16 de dezembro de 2023

QUANDO DEIXEI DE ACREDITAR EM PAPAI NOEL

 

 ElsonMAraújo

Neste dezembro de 2023, mais precisamente no próximo dia 25, completarão-se 49 anos desde que deixei de acreditar em Papai Noel. A ruptura com essa lúdica crença num personagem lendário da cultura cristã ocidental foi traumática. Numa só noite/madrugada fui acometido de sentimentos incompreensíveis para um menino, ainda na primeira infância. Devo ter chorado por pelo menos um dia. Tinha seis anos de idade, vivi um verdadeiro luto.

Hoje identifico que até a ficha cair e descobrir que Papai Noel era uma ficção, sofri com o sentimento de culpa. Afinal, o que teria eu feito de ruim para que naquele Natal, o “bom velhinho” não deixasse meu presente no “pé da minha rede”?

Justo naquela noite tinha armado um plano para flagrar a chegada do Papai Noel. No ano anterior, me esforcei, mas não o vi chegando com um carrinho de plástico vermelho, que durou até o meio do ano. Gostava de carrinhos e naquele Natal, de 49 anos atrás, torcia para ganhar uma C 10. Uma C 10 verde, igual à que um primo tinha sido contemplado, dois anos antes.

O plano para flagrar o Papai Noel era fingir que estava dormindo. Uma luta inglória, pois o sono era grande demais. Mesmo assim, com aquele plano na cabeça, no menor dos barulhos eu acordava e dizia para mim mesmo: “É ele!” O barulho sumia. Olhava para debaixo da rede, não via o carrinho que pedi e voltava a dormir. E assim, foi até amanhecer o dia. Não teve presente nenhum.

Para garantir o presente do Papai Noel, a orientação dos irmãos mais velhos, pais e professores, era pra gente ser sempre obediente, estudioso, respeitar os mais velhos, e ir à missa das crianças todos os domingos. Havia feito tudo isso, o ano inteiro, mas, mesmo assim, não ganhei meu carrinho.

Por mais que vasculhasse a memória não encontrava nenhum delito que motivasse aquele castigo. Teria sido porque tentei vê-lo? Nada justificava. Tinha certeza que tinha sido um bom garoto.

Do sentimento de culpa nasceram a frustração e o ódio. Nunca perdoaria o Papai Noel por aquela covardia. Prometi que iria odiá-lo para sempre.

Como não parava de chorar, minha família preocupada, designou minha irmã normalista Margarete  para a missão de me explicar o que ocorrera de verdade. Já era grandinho e estava na hora de saber que Papai Noel não existe.

Sempre muito habilidosa, minha irmã foi por longe. Me pôs nas pernas, enxugou minhas lágrimas, disse que eu era bom menino e que Papai Noel não viera naquela Natal não por alguma peraltice que eu tivesse feito, e sim porque, simplesmente, não existia.

-Mas ano passado ele veio, deixou até meu carrinho vermelho. É mentira, ele existe sim.

-Não, meu querido irmão. Não existe! Quem sempre deixou o presente de Natal debaixo da tua rede foi o papai. Este ano ele não teve dinheiro para comprar presente para todo mundo e para beneficiar um e outro não, preferiu não presentear nenhum dos filhos.

A notícia foi devastadora. Eu não conseguia acreditar que aquele mundo mágico que eu havia construído na minha cabeça não passava de uma fantasia. O Papai Noel não existia? Como isso era possível?

Senti-me traído, enganado.

O choro foi embora, mas durante dias, fiquei pensativo, tentando entender aquela nova verdade. Não queria conversa com mais ninguém. Aos poucos, fui me acostumando com a ideia de que o Papai Noel não existia

O lado positivo da experiência do Natal dos meus seis anos de idade, foi um importante passo no meu processo de amadurecimento. Foi a primeira vez que fui confrontado com a realidade, com o mundo como ele realmente é. Para completar, naquele ano me deparei com a primeira noticia do assassinato de uma pessoa, o prefeito da cidade, Joaquim Baltazar tinha sido morto por pistoleiros. A cidade era Axixá (GO) , hoje pertencente ao Estado do Tocantins.

Aprendi que nem tudo é o que parece, que existem mentiras e decepções. Mas também aprendi que é importante manter a fé, mesmo quando tudo parece perdido. Afinal, mesmo que o Papai Noel não exista, ainda existia pessoas boas no mundo, como meu saudoso pai, dispostas a fazer o bem.

 

domingo, 3 de dezembro de 2023

Saudade, alimento da alma



ElsonMAraujo

Em memória da professora Maria Luíza Brandão

 Para quem gosta de escrever, e escreve com regularidade, alguns temas são recorrentes. Às vezes, por achar repetitivo, você até tenta empurrá-los mais para frente, mas, quando o escriba se rebela, vem a vingança, não me pergunte da parte de quem, e a escassez de inspiração aparece, dando origem a uma briga silenciosa.  É que, enquanto o tal {texto} que insiste em nascer não é liberado, a fila não anda e a inspiração para outro assunto, não flui. Não duvide!  Sou testemunha disso.  Acontece comigo sempre. Hoje, a insistência é da tal da saudade. 

Não sei se é por conta da maturidade, mas saudade tem sido um desses temas que chegam a mim com frequência. Acredito que não se trata de uma exclusividade, minha.  Aos sábados, quando o Jornal O Progresso, da cidade de Imperatriz, sudoeste do Maranhão, abre as cortinas do seu caderno de literatura, é comum encontrar um ou mais textos versando sobre saudade. O campeão, disparado, é o mestre das crônicas Clemente Viegas, talvez eu fique em terceiro, ou quem sabe, quarto lugar.

A professora Maria Luiza Brandão, de saudosa memória, a mãe do Carlos, também in memoriam, e do Francisco Brandão, e avó do jornalista Carlos Henrique, do Márcio e da Marcella, gostava de conversar comigo, muita antes de eu me aventurar nessa seara da literatura, sobre as crônicas que todos os sábados ou aos domingos ela lia em O Progresso, e no caderno de cultura do Jornal O Estado do Maranhão. Quando não destacava Sálvio Dino, que era cronista semanal de O Estado, comentava Viegas, há anos questionando o social nas páginas de O Progresso e nas ondas da Radio Mirante AM, de São Luís. E não tinha jeito, o que mais lhe chamava atenção era quando os dois cronistas destacavam o elemento saudade.

“A gente viaja nas histórias do Viegas. Ele nos conduz para dentro do que conta, fazendo a gente sentir saudade, sem saber nem do que.  O Doutor Sálvio, é outro. Gosto demais do que eles escrevem”, dizia a inteligente e antenada professora despertando ali, naquele instante, uma vontade danada de também começar a escrever crônicas.

Tenho saudade das conversas havidas com a professora, que era uma grande contadora de histórias.  Pelo menos uma vez por semana, ali na esquina da Simplicio com a Rua São Domingos, lá estava eu, a provocá-la sobre qualquer assunto. De política a literatura, de tudo ela tinha uma observação.   Com o tempo, e o fortalecimento dos laços fraternais, com a permissão do Carlos e do Francisco, passei a chamá-la de “mãe Maria Luíza”, seguida da frase “a moça mais bonita do quarteirão”. Percebi que ela gostava daquele mimo.  E foi assim, até ela adoecer, fechar o comércio, e partir para o Oriente Eterno.

Foi numa das conversas com Mãe Maria Luíza Brandão, que descobri a história do Frei Alberto Beretta, o padre/médico de Grajaú, que na década 1960 ganhou fama de santo pelas curas inimagináveis, para a época, de alguns doentes que se avistavam com ele.  A história me rendeu uma bela reportagem sobre o padre, que no interior do Maranhão teria sido, embora não reconhecido, o precursor do uso de células tronco na cura de determinadas doenças. O texto foi publicado em O Progresso, e no Jornal o Estado do Maranhão, ganhou as redes sociais e repercute até hoje.

Embora, em regra, o elemento saudade nos leve às lágrimas, não deixa de ser um tema leve. Digo até que é um dos principais alimentos para sagrar a imortalidade daqueles ou daquelas que partiram para outros planos.

A saudade hoje, é dela. Da professora Maria Luiza Brandão, a paraibana, da cidade de Esperança, que por anos exerceu o magistério em Imperatriz, e ajudou a formar centenas de bons cidadãos.

 

 

A CIDADE INVISÍVEL

ElsonMAraujo O desafio veio do amigo João Batista, ex-deputado, com quem estreitei amizade nos últimos doze meses e com quem costumo convers...