domingo, 20 de fevereiro de 2011

O Cú da Discordia, uma história real

Na rua, apesar de seus 15 anos já era o cara. Magro e alto, como o pai, nem de longe parecia ter a idade que tinha. Quando não estava na escola vivia na rua jogando pião, soltando papagaio e brincando de travinha com os meninos da vizinhança. Só parava quando tinha de ir pra escola, ou para almoçar. Dedem era “o rei da rua”, um líder por natureza. Invejado pelos colegas e amado pelas meninas.

Dedem aprendeu desde cedo a fazer negócios. A casa dele era cheia de pequenos objetos que conseguia com seus rolos. Álbum de figurinha, bola de futebol, revistas; e até jogos eletrônicos. Ganhava tudo fazendo favores para os vizinhos e promovendo pequenas trocas.

Se gostasse de um objeto pertencente a algum colega, lá estava o Dedem prontinho propondo uma troca,  ou algo parecido. Ali estava um menino que tinha tudo para ser um grande comerciante, tinha tino o garoto.

O caso aconteceu num final de tarde, logo depois do jogo de travinha, no fundo do quintal da casa de dona Rita, uma vendedora de cuscuz sessentona que morava a cinco quarteirões da casa de Dedem.

Era o tempo de caju, e ali tinha muito. Amarelo, laranja, encarnado; doce; enfim, de todo o tipo, mas a meninada gostava mesmo era dos mais azedos porque dava pra comer com sal e pimenta do reino.

Dedem, com uma baladeira, mirava nas pipiras, que caiam de pau num caju madurinho, quando apareceu Zezinho, o filho do quitandeira da  rua. Era um ano mais novo que Dedem. Franzino e delicado parecia um corredor de maratona. As pernas eram longas e os pés grandes.

Zezinho admirava o jeito solto e destemido de Dedem, principalmente a habilidade que tinha de subir nas árvores. Rapidinho chegava ao topo das mangueiras e cajueiros e do alto ficava jogando nos colegas as castanhas e os caroços das mangas que consumia. Zezinho não tinha essa habilidade. Morria de medo de subir e cair.

Naquela tarde o filho da quitandeira olhou para o alto do Cajueiro onde Dendem tentava acertar as pipiras e mirou um caju daqueles bem vermelhinho. Era bem grande o danado.

Com água na boca foi logo dizendo pra Dedem:

 “Tô com uma vontade de comer aquele caju. Pena que não sei, e não tenho coragem de subir, lá”

Dedem ao ouvir aquele lamento viu ali uma oportunidade de negócio. Podia rapidinho subir no cajueiro apanhar a fruta e dá-la ao amigo mas, aí era fácil demais. Tinha de haver algo em troca.

“Se eu pegar o caju pra você o que ganho em troca? Perguntou o “dono da rua” ao delicado Zezinho que olhou surpreso para Dedem.

“Bem, aqui não tenho nada. A não ser, disse ele brincando, se eu te der meu cu”.

Zezinho falou brincando, mas Dedem aceitou de pronto o negócio, e num piscar de olhos, numa velocidade que nunca tinha empreendido antes, estava no topo do cajueiro e com o caju na mão gritou “ segura, vou jogar, não deixa cair”.

Zezinho recebeu a fruta que de tão grande e suculenta quase lhe escapa das mãos e vai ao chão. Nem lavou na gamela d’água ali perto e foi logo levando-a à boca com sujeira e tudo. Sequer, por educação ofereceu um pedaço a Dedem.

Zezinho ainda se deliciava com o último pedaço da fruta quando percebeu Dedem, com os olhos arregalados olhando para ele. Um olhar mais atento do moleque e este percebeu um volume se formando no calção do Dedem. Foi aí, que lembrou do compromisso que tinha feito.

“Será que ele levou mesmo a sério a historia do cu” pensou ele já com o coração a mil por hora. “Preciso agir rápido senão vou me lascar todinho. Ele é maior e mais forte do que eu”

Zezinho vendo o perigo que corria não pensou mais em nada, devagarinho tirou os pés da sandália e, antes da última chupada no caju, “o rabo foi um rei”. Correu, como nunca na vida sendo, perseguido por Dedem que gritava:

- “compromisso é compromisso. Prometeu agora eu quero teu cu”.

Zezinho só teve sossego quando, quase   sem fôlego, entrou em casa indo parar na cozinha onde a mãe preparava a janta.

-“O que foi, meu filho?

-É o Dedem, mamãe ele quer comer meu cu!

-Como é que é. Que história é essa, rapaz?

Ainda com o coração batendo forte Zezinho contou toda a história à mãe.

 “Mãe, não sabia que ele levava as coisas tão a sério; e agora o que faço?

E lá se foi a mamãe do meigo Zezinho conversar com Dedem que como um boi brabo ficou na porta indo de um lado para outro, sussurrando: 

-Marrapá, ele vai ter que pagar. Não quero nem saber. Quero o cu, que ganhei.

-Que coisa  doida  é essa menino! Gritou a mãe de Zezinho.

-A senhora devia ensinar seu filho a cumprir com os compromissos dele!

-Foi só uma brincadeira, Dedem!

Brincadeira, nada. Eu não vou sossegar enquanto o Zezinho não pagar o que me deve!

O fim da história? 

Bem , o fim da história, é que Zezinho ficou mesmo sem pagar o que devia a Dedem.  Para se livrar do assedio do colega  passou dois meses sem brincar na rua. À  escola só ia acompanhado de um parente para protegê-lo 

O tempo passou.  Dedem  tornou-se um próspero homem de negócio. Zezinho herdou as terras de um parente distante e virou fazendeiro num município longe de sua cidade. Os dois nunca mais voltaram a se encontrar.

Dedem continuou na cidade e sempre que pode relembra, inconformado, de um dos únicos negócios que fizera na vida em que o devedor não cumpriu com sua parte.

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