sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Mario Francisco, o matador

Já tinha matado três. O difícil foi só a primeira vez, naquele final de tarde quente de Agosto. Foram cinco horas de tocaia até a vítima aparecer.

O nível de adrenalina subiu, o coração disparou, o suor aumentou. Uma gota daquele liquido salgado caiu no olho esquerdo atrapalhando por alguns instantes a mira. Era sua primeira encomenda e, errar aquele tiro poderia atrapalhar sua carreira, inspirada no avô paterno. Queria ser tão bom quanto ele. Limpou o olho com a manga da camisa e logo voltou a se concentrar no seu alvo.

Do alto de uma barriguda, árvore tipica daquele pedaço do país, onde estava desde o início da tarde, se ajeitou com a espingarda, uma calibre 20, e apertou o gatilho. A vítima, sem nenhuma chance de defesa, foi atingida no peito e morreu imediatamente. Pronto! Sua primeira empreitada tinha dado certo. O patrão, dono da fazenda, ia gostar e pagar bem.

Depois daquela primeira experiência, com a fama alcançada, não demorou muito veio a segunda. Aquela foi mais fácil. O tiro foi na cabeça e não teve nada de nervosismo.

Na terceira vez, autoconfiante, já considerava aquela atividade uma rotina. Começou a cobrar caro pelos seus serviços. Já tinha trocado a 20 por um rifle automático.

Mário Francisco estava ali pronto para sua quarta empreitada. Seria seu trabalho mais importante. O alvo já tinha feito várias vítimas na região e num vacilo qualquer os papéis poderiam se inverter. Mário sentiu um friozinho na barriga.

- Não posso decepcionar quem encomendou esse serviço. O cara já pagou a metade e disse que só me dará a outra se eu levar uma prova de que não houve erro. Acho que vou levar a cabeça, assim ele me paga sem qualquer dúvida”- pensou Mário Francisco.

O danado é que tava demorando demais. Nos levantamentos realizados antes, a vítima passaria por ali às 18 horas e já estava pertinho das 19 h.

Inquieto, com a demora , Mário Francisco continuou ali esperando. Se errasse daquela vez sua fama ia por água abaixo e não apareceria mais nenhuma encomenda e na vida só sabia fazer aquilo.

Aproximava-se das 20 horas quando o matador ouviu um barulho no meio do mato e , um vulto chegando cada vez mais perto do local onde estava.


– É agora! Pensou ele, já imaginando dali a poucas horas entregando a cabeça da vítima ao autor da encomenda. Ia ganhar um bom dinheiro; muito mais do que das outras vezes.

Acomodou-se na tocaia. Esperou mais um pouquinho até ter certeza da mira. Aguardou a vítima chegar mais perto, já que só contava com claro da lua como ajuda, até finalmente poder apertar o gatilho do rifle.

Um único e certeiro disparo acabou com a vida da onça pintada que há meses vinha comendo os bezerros nas fazendas da região.

Mário Francisco, o cara, iria continuar a ser o maior matador de onças daquelas bandas do Brasil.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Miséria pouca é bobagem. Vida e morte de Policarpo

Sujeito sem sorte, aquele. Tanto na vida, quanto na morte. No nascimento, por pouco não morre asfixiado com o cordão umbilical atado ao pescoço. Quase que o moleque não chora e, morre ali mesmo antes do primeiro suspiro.

Era o dia 23 de um chuvoso fevereiro. Na casa de palha, no meio da roça, á luz de lamparina, era goteira pra todo lado. O nascimento não foi nada fácil. Diferente dos outros dez filhos de Maria Concebida.

Suada, e molhada, pelos pingos d’água que caíam naquele quarto de chão batido e paredes de palha; nervosa, a velha parteira Maria da Piedade dava vozes de comando para a filha fazer força para o menino nascer logo. Concebida fez um barrigão danado e tava sofrendo muito.

O menino era grande e, nas contas da velha parteira, passando da hora de nascer. Concebida gritava de dor. “Guenta firme filha, ele já tá vindo”.

O menino nasceu mudo; o choro não veio junto com ele. A bênção é que a experiente parteira, mesmo sem enxergar bem, percebeu que o cordão umbilical o sufocava. Agiu rápido. Fez o que tinha de ser feito para salvar o neto, deu umas duas palmadas na bunda dele e, logo veio o choro.

“O Policarpo nasceu! ” gritou a parteira ao restante da família que aguardava, ansiosa, do lado de fora do quarto. Pena que a alegria durou pouco. Concebida não resistiu. Tinha morrido antes de ouvir o choro tardio do filho. Logo, Policarpo ganhou a fama de ter matado a mãe no parto. Carregou esse estigma até quando cresceu.

O nome Policarpo não era por acaso. Além de ser o dia do santo, morto na fogueira em 155 Depois de Cristo, era costume, naquele tempo, quem nascia com o cordão laçando o pescoço, receber logo o nome de um santo da Igreja Católica e, de preferência o do dia, no caso São Policarpo. Seria o presságio de uma vida de sofrimento e de azar? Só o tempo iria dizer.

Com o trauma de a mãe ter morrido no seu nascimento, potencializado pelos outros irmãos, Policarpo se tornou um adulto triste. Pôs na cabeça que nada dava certo para ele. Já carregava consigo as marcas de um braço quebrado , três mordidas de cobra e uma cicatriz na cabeça, resultado de uma pedrada de badogue dada por um vizinho quando ainda tinha 15 anos. Além de tudo, as pessoas achavam estranho o nome dele e logo vinham as gozações .

Não aguentava mais aquela vida de agruras e decidiu fugir de casa. Mal assinava o nome. O que tinha aprendido até aqueles dias de seus 25 anos era brocar. Era bom com uma foice. Acreditava que era o suficiente para ganhar o mundo. Para trás deixou uma única frase para o irmão do meio, antes de pegar a pé, a estrada. O mano era o único que sabia do plano de fuga: “Só volto, rico! ” disse ele antes de sair madrugada adentro.

Chegou á sede do povoado onde morava no pingo do meio dia. Tinha caminhado pelo menos umas três léguas. Os pés estavam em carne viva e a fome e a sede lhe devoravam. Sentou debaixo da sombra de um pequizeiro para descansar e pensar no que ia fazer da vida dali pra frente.

A mulher do maior comerciante do lugar que passava por ali vendo a situação do rapaz se aproximou puxou conversa se compadeceu com a história dele e lhe ofereceu água e comida. Será se a sorte começava a sorrir para Policarpo?

O que aquela mulher tinha de bondade o marido dela tinha de ruindade e viu em Policarpo uma mão de obra escrava a ser explorada em sua fazenda a 1000 quilômetros dali, mata adentro.

- Se preocupe não, meu rapaz! Você terá comida e ainda vai ganhar um dinheirinho no fim do mês. Amanhã te levo pra minha roça.

- Obrigado, moço. O senhor é homem, muito bom. - Agradeceu Policarpo.

Cinco meses depois o jovem Policarpo estava com uma jornada de trabalho cavalar. Acordava às 5 da manhã e já começava a brocar às 6 horas; um intervalozinho para comer um feijão cheio de ranço e gorgulho com um arroz que parecia uma papa gosmenta, por volta da uma da tarde, e só parava a lida depois das sete das noite.

Desde que chegou naquele lugar para desmatar a fazenda de seu “benfeitor” nunca viu um tostão furado. Havia sempre uma desculpa qualquer do mal encarado capataz, sempre armado com um revólver 38, cano longo.

Um dia no intervalo do almoço Policarpo pensou: Vou embora daqui. Isso aqui não é vida. Além do mais estou com saudade da minha família; vou receber o que me devem. Quero voltar para casa!

No final daquele dia, depois de ter conversado com o capataz, Policarpo foi dormir feliz. Tinha recebido a garantia de receber os atrasados e mais uma gratificação pelos seus esforços. O pagamento lhe seria feito na manhã seguinte.

Vou comprar uns bezerrinhos e começar minha criação de gado com meus irmãos, dormiu pensando o jovem Policarpo.

Bem cedo, Policarpo foi acordado por dois homens que trabalhavam com o capataz da fazenda.

- Como é seu último dia aqui, o Trindade pediu para te oferecer um quebra jejum mais decente. Tá, aqui, leite, bolo de puba, ovo e farofa de galinha. Come aí que ele está te esperando lá na sede para fazer teu pagamento.

Policarpo se encheu de orgulho e felicidade. Ia voltar para casa muito melhor do que saiu. Ia ser respeitado por todo mundo. Vida nova. Sentia-se um vitorioso.

Comeu, como nunca. Nada sobrou.

Se preparava para mais uma golada de leite quando começou a passar a mal. Se levantou, tentou se segurar no punho da rede em que dormia, mas logo caiu babando. A comida tinha sido envenenada pelos jagunços da fazenda. Estava tudo temperado com veneno de rato.

Policarpo não ia voltar para casa, não receberia os cinco meses de salário, foi enganado pelo seu “benfeitor”. Morria, numa manhã chuvosa do dia 23 de fevereiro, dia do seu aniversário, dia do Santo que lhe deu o nome e que morreu queimado no ano 155 D.C.

Até os dias de hoje os familiares de Policarpo aguardam pela sua volta acreditando que, de fato, ele tenha ficado rico em algum canto perdido desse Brasil.



















































domingo, 20 de fevereiro de 2011

O Cú da Discordia, uma história real

Na rua, apesar de seus 15 anos já era o cara. Magro e alto, como o pai, nem de longe parecia ter a idade que tinha. Quando não estava na escola vivia na rua jogando pião, soltando papagaio e brincando de travinha com os meninos da vizinhança. Só parava quando tinha de ir pra escola, ou para almoçar. Dedem era “o rei da rua”, um líder por natureza. Invejado pelos colegas e amado pelas meninas.

Dedem aprendeu desde cedo a fazer negócios. A casa dele era cheia de pequenos objetos que conseguia com seus rolos. Álbum de figurinha, bola de futebol, revistas; e até jogos eletrônicos. Ganhava tudo fazendo favores para os vizinhos e promovendo pequenas trocas.

Se gostasse de um objeto pertencente a algum colega, lá estava o Dedem prontinho propondo uma troca,  ou algo parecido. Ali estava um menino que tinha tudo para ser um grande comerciante, tinha tino o garoto.

O caso aconteceu num final de tarde, logo depois do jogo de travinha, no fundo do quintal da casa de dona Rita, uma vendedora de cuscuz sessentona que morava a cinco quarteirões da casa de Dedem.

Era o tempo de caju, e ali tinha muito. Amarelo, laranja, encarnado; doce; enfim, de todo o tipo, mas a meninada gostava mesmo era dos mais azedos porque dava pra comer com sal e pimenta do reino.

Dedem, com uma baladeira, mirava nas pipiras, que caiam de pau num caju madurinho, quando apareceu Zezinho, o filho do quitandeira da  rua. Era um ano mais novo que Dedem. Franzino e delicado parecia um corredor de maratona. As pernas eram longas e os pés grandes.

Zezinho admirava o jeito solto e destemido de Dedem, principalmente a habilidade que tinha de subir nas árvores. Rapidinho chegava ao topo das mangueiras e cajueiros e do alto ficava jogando nos colegas as castanhas e os caroços das mangas que consumia. Zezinho não tinha essa habilidade. Morria de medo de subir e cair.

Naquela tarde o filho da quitandeira olhou para o alto do Cajueiro onde Dendem tentava acertar as pipiras e mirou um caju daqueles bem vermelhinho. Era bem grande o danado.

Com água na boca foi logo dizendo pra Dedem:

 “Tô com uma vontade de comer aquele caju. Pena que não sei, e não tenho coragem de subir, lá”

Dedem ao ouvir aquele lamento viu ali uma oportunidade de negócio. Podia rapidinho subir no cajueiro apanhar a fruta e dá-la ao amigo mas, aí era fácil demais. Tinha de haver algo em troca.

“Se eu pegar o caju pra você o que ganho em troca? Perguntou o “dono da rua” ao delicado Zezinho que olhou surpreso para Dedem.

“Bem, aqui não tenho nada. A não ser, disse ele brincando, se eu te der meu cu”.

Zezinho falou brincando, mas Dedem aceitou de pronto o negócio, e num piscar de olhos, numa velocidade que nunca tinha empreendido antes, estava no topo do cajueiro e com o caju na mão gritou “ segura, vou jogar, não deixa cair”.

Zezinho recebeu a fruta que de tão grande e suculenta quase lhe escapa das mãos e vai ao chão. Nem lavou na gamela d’água ali perto e foi logo levando-a à boca com sujeira e tudo. Sequer, por educação ofereceu um pedaço a Dedem.

Zezinho ainda se deliciava com o último pedaço da fruta quando percebeu Dedem, com os olhos arregalados olhando para ele. Um olhar mais atento do moleque e este percebeu um volume se formando no calção do Dedem. Foi aí, que lembrou do compromisso que tinha feito.

“Será que ele levou mesmo a sério a historia do cu” pensou ele já com o coração a mil por hora. “Preciso agir rápido senão vou me lascar todinho. Ele é maior e mais forte do que eu”

Zezinho vendo o perigo que corria não pensou mais em nada, devagarinho tirou os pés da sandália e, antes da última chupada no caju, “o rabo foi um rei”. Correu, como nunca na vida sendo, perseguido por Dedem que gritava:

- “compromisso é compromisso. Prometeu agora eu quero teu cu”.

Zezinho só teve sossego quando, quase   sem fôlego, entrou em casa indo parar na cozinha onde a mãe preparava a janta.

-“O que foi, meu filho?

-É o Dedem, mamãe ele quer comer meu cu!

-Como é que é. Que história é essa, rapaz?

Ainda com o coração batendo forte Zezinho contou toda a história à mãe.

 “Mãe, não sabia que ele levava as coisas tão a sério; e agora o que faço?

E lá se foi a mamãe do meigo Zezinho conversar com Dedem que como um boi brabo ficou na porta indo de um lado para outro, sussurrando: 

-Marrapá, ele vai ter que pagar. Não quero nem saber. Quero o cu, que ganhei.

-Que coisa  doida  é essa menino! Gritou a mãe de Zezinho.

-A senhora devia ensinar seu filho a cumprir com os compromissos dele!

-Foi só uma brincadeira, Dedem!

Brincadeira, nada. Eu não vou sossegar enquanto o Zezinho não pagar o que me deve!

O fim da história? 

Bem , o fim da história, é que Zezinho ficou mesmo sem pagar o que devia a Dedem.  Para se livrar do assedio do colega  passou dois meses sem brincar na rua. À  escola só ia acompanhado de um parente para protegê-lo 

O tempo passou.  Dedem  tornou-se um próspero homem de negócio. Zezinho herdou as terras de um parente distante e virou fazendeiro num município longe de sua cidade. Os dois nunca mais voltaram a se encontrar.

Dedem continuou na cidade e sempre que pode relembra, inconformado, de um dos únicos negócios que fizera na vida em que o devedor não cumpriu com sua parte.