sexta-feira, 29 de abril de 2011

Crônica : DE CASAMENTOS E ETECETERAS

Recebo e , publico  a crônica do aniversariante do  dia   o professor doutor, do Curso de Comunicação Social da UFMA, Marcos Fábio Belo Matos...Boa leitura
Marcos Fábio

 Hoje vi a princesa que até um dia atrás era plebeia. A agora princesa se casou com um príncipe louro dos olhos claros. Igualzinho minhas irmãs liam pra mim nas historias dos livros da minha infância, que depois eu passei a ler sozinho. A princesa branca casando numa linda cerimônia, com rainha  e um monte de súditos.
Nada faz sonhar mais que um conto de fadas. Eles povoam nosso imaginário desde que o mundo é mundo. As narrativas míticas dão sentido de projeção à vida e possibilitam, ao menos no terreno da imaginação, ser alguém diferente do que se é no rés-do-chão.
O príncipe e a princesa são de carne e osso. Moram num palácio real, vivem num país que existe mesmo. Mas nem por isso deixamos de achar que eles, no fundo no fundo, não existem de verdade. Eles são a continuidade dos casais que lemos na infância. Até os cavalos brancos estavam lá.
A princesa que nasceu plebeia não precisou beijar um sapo para que ele se transformasse num príncipe. Nem ser posta num caixão de cristal para receber dele um beijo molhado de lágrimas e desespero. Nem provar um sapatinho deixado numa escadaria de baile. Ela só precisou ir para a universidade, insinuar-se um pouco, estar por perto. E o resto a mágica dos corações jovens tratou de efetivar.
O casal agora real encarna os nossos desejos irrealizáveis na nossa vidinha mais ou menos. Por isso, ver o casamento pela televisão ou pela internet acaba sendo um enternecimento. É como se, ali naquele momento, todos nós, em uníssono, disséssemos também “Yes, I do!”. Ou expirássemos um inaudível “I am so happy!” ao subir na carruagem sustentada por um portentoso William.
Depois da cerimônia, voltamos à nossa vida real! E o casal à dele.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

O voo da Borboleta ou a Crônica da Maturidade


Esta semana,  não descobri  ainda o porquê, me dei um flagra refletindo sobre a maturidade.  Acabei viajando no tempo.

E não é que é legal viajar no túnel do tempo?   Revi amigos, as brincadeiras e peraltices da infância; aquela vez que cuspi,  zangado na saia da professora e,  daquele dia que perguntei a ela, e fiquei sem resposta,  quem era o pai de Deus.  

Viajar no tempo é legal. Descobri que faz bem pra saúde, agora  com uma ressalva:  desde que seja pra reviver boas  recordações,  se for o contrário,   faz um mal danado.

De volta  ao lance da maturidade, embora  saibamos que seja um estágio intermediário para o  fim corporal,  se a gente perceber bem,  é pura magia;   trata-se de um estágio mágico da vida, sobretudo,  quando a gente faz aquelas paradas obrigatórias, como um dia me disse um pastor evangélico.

“Nessa fase  são necessárias algumas paradas obrigatórias para que haja os consertos necessários e a gente possa seguir adiante” me ensinou o velho pastor.  


Outro encontro  bacana foi  esse com o pastor, durante  minha viagem no tempo.

Pensei  e tentei encontrar uma maneira de exemplificar o que seria essa “santa maturidade”.

Na minha mente surgiu  uma lagarta rastejando bem devagar. O bicho  via tudo por um único angulo;  passava por cima de  pau  e pedra,  se machucava, e nem sentia dor. Feria também e nem percebia. 


Medo?  Não existia.  Havia naquela  lagarta  um sentimento de infalibilidade.  

Num determinado momento, obedecendo ao comando natural da  existência, a lagarta parou e se recolheu por um determinado tempo num casulo. Parada obrigatória para um processo de transformação ou   não já que por motivos alheios à sua vontade    esse   processo certamente correria  risco de ser interrompido.

Com a graça  da lagarta  ter  ultrapassado aquela  fase, agora sim,  surgia uma bela  e colorida borboleta. 

A lagarta se transformou, criou asas e voou, passou a ver  o mundo lá do alto.   Descobriu, de repente,  que as  pedras continuavam   lá,  mas que  no meio delas  era possível enxergar  o verde que não  via antes   e uma enorme  variedade de  flores. 

Agora  com as asas, se quisesse,  a ex-lagarta  poderia  ir mais longe , ir a lugares antes  inimagináveis e  escolher  pousar nas   flores mais belas.


Enfim, a  lagarta passou a ser mais seletiva,  e se soubesse cantar,    naquele instante, certamente cantaria como aquele   velho músico americano   Louis Armstrong  na sua  clássica canção:   What wonderful  world  ( Que mundo maravilhoso) .

domingo, 24 de abril de 2011

Chantagem e Sangue


Estava arrependida. Se soubesse que aquela situação fosse terminar daquele jeito nunca teria se exposto daquela maneira,  e colocado  assim,  sua vida conjugal, familiar,  social e empresarial em risco. Uma vingançazinha maldita, sem sentido e que poderia num piscar de olhos,  destruir toda sua boa vida. 

O que estava feito,  estava  feito;   agora  era   aprender com aquela situação  e buscar imediatamente um reparo.  Só ainda ainda não sabia como.

Claudia Cristina tinha a vida que pediu a Deus.  Na adolescência ganhou um concurso de beleza e aquele titulo lhe ajudara abrir muitas portas. Era uma bela mulher,  bem casada;  mãe de  três filhos, que ela não cansava de repetir:  eram   lindos;  uma  vida social bem movimentada com freqüentes  convites  para os mais distintos eventos sociais. Duas viagens nacionais e uma internacional por ano. Uma  empresa que lhe dava muito lucro e a  levara logo  a ficar independente financeiramente do marido. Ela é quem o socorria de vez  em quando.

A vida sexual, era uma loucura. O Marido era insaciável, e ela também. Quando estavam à  sós o diálogo se dava com  os corpos, ainda relativamente  jovens e sempre  em chamas. 

Naquela  manhã ainda  mantinha viva a lembrança a boa trepada  que dera  na noite do dia  anterior em cima da mesa da cozinha.    Estava o corpo todo dolorido, mas valera à pena.  Ela e o marido gozaram feito dois loucos.  Orgulhava-se: “meu marido está cada vez melhor”

-Não posso deixar tudo que construir  todos esses anos  ir por água abaixo. Tenho que  sair dessa encrenca  e bem rápido-  pensou, Claudia.

A jovem empresaria  começou a viajar no encadeamento dos  fatos que a levara  àquela aflita situação.

 Nem sabe  explicar como conseguiu se entregar por total ao marido na apimentada noite anterior  tamanha era sua preocupação.

O casal quase nunca brigava. Uma das únicas brigas ocorrera um ano atrás, e foi por causa daquela  droga de briga que o inferno na sua vida  começou.

 No calor da discussão Claudia acabou levando um tapa na cara. Aquilo  para ela foi o fim do mundo, ainda bem que as crianças não viram. Estavam na casa dos  avós.  Zangado, naquela noite, o marido saiu dizendo que ia dormir na casa de um amigo.

Claudia nunca tinha bebido e  ainda com o rosto ardendo e chorando  pelo tapa que levou  bebeu  num só gole quase meio copo de Red.

 Não merecia aquilo, estava desnorteada, ali  sozinha.  Também julgava que a situação por causa de um cheque sem fundo recebido não era  pra ter chegado a tanto. Precisava desabafar! Quando menos imaginou,  já embriagada,  estava na frente do computador numa dessas salas de bate-papo.  Não sabia que dali a um ano sua vida viraria de pernas para o ar.

Naquela noite/madrugada Claudia Cristina, mas do que interagiu com um sujeito que se apresentou como um próspero e gentil  empresário. Além de desabafar, se exibiu, na WEB. Mostrou os seios fez um estripe e simulou um ato sexual para aquele desconhecido.  Ela não sabia, mas aquele estranho gravava tudo.
Um ano depois, um telefona e o início da chantagem

- Alô, lembra de mim e do maravilhoso show de graça que  fez pra mim?  Pois é, estou pensando em lançar tudo em DVD.

- Quem tá  falando?

- Não lembra mais de mim, é?

-Vou direto ao assunto: quero 50 mil reais e uma noite quente de sexo. Ou você faz isso ou todo mundo vai ficar sabendo quem é verdeiramente dona Claudia Cristina  a  empresaria do ano. Entendeu?

Seis meses se passaram desde o primeiro telefonema do chantagista. O cara descobriu seu celular e ligava pela manhã, á tarde, noite e ainda  dava toques na madrugada.

A vida de Claudia tinha virado um verdadeiro inferno. Poderia ter denunciado tudo à Polícia, mas o risco era grande demais. Ela mesma precisava resolver aquele problema. Decidiu  então ceder ao chantagista.

Já tinha arrumado, às escondidas,  os R$ 50 mil. E naquele instante estava constrangida,  numa loja de produtos eróticos. O chantagista havia pedido que ela levasse espartilhos, incenso,  uma máscara e velas e outros produtos.

Com tudo na bolsa, aguardava mais um telefonema  com as instruções  do chantagista.

-Alô, anota ai, um   endereço.

Nervosa, Claudia Cristina pegou papel e caneta

- Pode falar

Minutos depois, a empresária estava em seu carro em direção à toca do misterioso chantagista, que conforme o endereço, morava  num bairro distante do centro da cidade.

A casa  tinha um muro alto.  Estava próximo das 20 horas e no trajeto o chantagista ligou três vezes para que Claudia se apressasse.
Tocou a campainha.

Na sobra de uma luz fraca. Aparece o estranho.

-Entre querida, a casa é sua.

O chantagista  tinha  1, 70, de altura,  branco, cerca de 35 anos, cabelos ralos e uma voz grossa.

-Vamos por parte, querida:  o dinheiro;  anda, rápido!

-Ta tudo, aqui, disse com um  pavor estampado no rosto,  Claudia Cristina.

- Trouxe o que lhe pedi?

-Sim, tá tudo aqui
-Então, tire essa roupa e vista tudo.
Claudia Cristina tirou o vestido, e foi seguindo as ordens do chantagista que havia exigido dela uma fantasia de Tiazinha, a musa de sua adolescência.

-Não faça nada que eu não goste. Se você não me obedecer, já sabe o que vai acontecer.

O chantagista, já nu se deitou e pediu que a “tiazinha” se aproximasse.

Claudia respirou fundo e foi seguindo as ordens.

Primeiro, em pé sobre a cama, enfiou o salto alto na barriga do homem;  depois ele  pediu que ela acedesse uma vela e soltasse alguns pingos  na sua barriga.  

Super excitado o estranho disse: -

-Amarre minhas mãos e meus pés

Claudia obedecia calma e silenciosamente.

-Quero agora um boquete do jeito que você  me disse na Web que sabe fazer.

Naquele instante, o coração de Claudia acelerou.  Já tinha feito loucuras numa cama, mas só com o marido.

-Meu Deus, em que me meti. E agora? Pensou Claudia olhando para aquele pênis ereto esperando por sua boca carnuda.

-Vamos, não demore minha Tiazinha ! 

Ei, espera   um  momentinho ! Quero que você também  vede meus olhos...

Na manhã seguinte, em casa, à mesa do café, com o marido e os filhos, Claudia Cristina ouvia, indiferente, a seguinte  manchete  em  um desses programas  mundo cão:

-Homem, de aproximadamente  30 anos,  tem o pênis cortado e sangra até morrer na periferia da cidade. O corpo  do desconhecido foi encontrado hoje pela manhã.

"POEMANDO"


Pedaços

No tempo, no vento, nas idas e vindas...

No choro, no riso, no sangue, no ar,

Sempre, no todo, um pouco muito de você.

Um pouco de mim

Um tiquinho de ti

E, o que era verbo virou carne.



Agricultando

Quem planta colhe! Quem planta cedo colhe cedo, quem planta tarde, colhe tarde; todavia, que não planta nada, nada terá a colher.

Reciprocidade

Aquele beijo atrai meu beijo, aquele abraço atrai meu abraço, aquele riso atrai meu sorriso, aquele bom dia atrai, e motiva o meu bom dia, aquela raiva atrai minha raiva, aquela vingança atrai minha vigança ; aquela esperança atrai minha esperança; a esperança de uma sociedade mais justa e fraterna.





 

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Canibalismo social

Banquete canibal-foto ilustrativa

O Mundo vive um lento e acelerado processo de embrutecimento com o ter sobrepondo-se ao ser. A máxima de Alexandre Dumas de “Um por todos, e todos por um” consignada na fábula de “Os três mosqueteiros” há muito não voga na sociedade moderna.

Vivemos hoje sob o império absolutista do EU, que tem levado o homem a se contextualizar sob o manto de uma espécie de “canibalismo social”, e a deixar ser dominado por um desejo mórbido de destruir o outro a favor do seu bem estar não importando as conseqüências.

Esse processo, extremamente virulento, tem custado a vida de milhares de pessoas produzindo na sociedade um estado permanente de insegurança e incerteza.

É, na verdade, ninguém se sente completamente seguro nas mais diferentes vertentes e interpretações do que venha a ser SEGURANÇA.

O vírus do “canibalismo social” se prolifera muito rápido e, às vezes é letal. Há, no entanto, uma certeza: se esse vírus não for contido, chegaremos rapidamente, ( se já não chegamos) a um processo de convulsão social.

Algumas das consequencias desse vírus já podem ser sentidas como, por exemplo, a banalização do crime; a destruição dos valores familiares, a falta de respeito mútuo, entre outros. Assim, um assalto, um estupro, uma ofensa ao semelhante; um assassinato, tonaram-se hábitos tão simples como mudar de roupa.

Diante desse quadro, infere-se que “o ser humano” necessita ser salvo e resgatado sob pena deste Planeta chamado Terra se tornar .definitivamente , um lugar insuportável para se viver ficando assim comprometida a vida das futuras gerações.

A cura- Talvez a cura ou o antídoto para este mal esteja no próprio homem começando por um processo de reavaliação do que venha a ser humano, e no fortalecimento das instituições como Familia, Escola, Igreja, ECT. “Não seria o momento para estas instituições reavaliarem seus ritos e suas verdades na formação do homem? Há, de fato, alguma coisa errada!

Conclui-se que a tarefa da criação de um novo homem está nas mãos do próprio homem. As atenções têm que se voltar para a fundamentação de um ser humano livre, que se sinta, realmente parte integrante do UNIVERSO, e assim, realmente seja impelido a imergir no preceito bíblico de amar uns aos outros, e que passe a carregar sobre si , a certeza de que ao fazer o mal a alguém ou, à Natureza estará ofendendo a si mesmo.



segunda-feira, 18 de abril de 2011

Diálogo da dor

                                                         Foto do blog compartilharcom.blogspot.com


Os dois num momento de introspecção começaram  a conversar sobre a dor.

-Qual  dói mais, a dor do corpo ou a dor da alma?

-É a dor que vem  da ferida, creio eu.

-Mais que ferida, a da alma ou do corpo?

-Ambas são dolorosas.

-E têm cura, essas dores?

 - A do corpo é mais fácil, a da alma é mais difícil. É preciso um arrastão interior, uma viagem por um íngreme caminho para se poder pensar na possibilidade de cura da dor da alma. Cada corpo, cada alma, uma resposta diferente.

- Não entendi

-Para se entender, é preciso ser humano, é preciso sentir, viver a dor, e aprender com ela.

-Não entendi

-Eu também, não pois   ainda busco a cura de minha alma ferida. 

domingo, 17 de abril de 2011

Crônica do bom humor


De todas as estratégias que conheço para atrair bons fluídos, bons negócios e boas companhias, manter o bom humor é a mais infalível delas, uma arma poderosa para quem deseja manter distante a ingrisia e todo tipo de energia negativa que vez por outra teimam chegar próxima da gente.  

O bom humor é tão poderoso que antes da existência dos fortes medicamentos para combater males como a depressão, a literatura revela que os médicos aconselhavam aos pacientes a deitar, olhar para cima e ficar procurando motivos para sorrir. 

Se o paciente ficava curado, eu não sei, o que sei é que é visível a sensação de bem estar que o bom humor provoca naqueles que o cultivam.

Tem gente que reclama que as rosas têm espinhos; e se tiram os espinhos, também reclama porque os espinhos não têm rosas. Essa frase, da qual desconheço a autoria, revela o perfil de grande parte das pessoas que ao deixar de cultivar o bom humor espanta, afasta, cria antipatia. Ninguém quer ficar perto de quem só reclama da vida e de todos, o tempo todo.

Conheço  gente em Imperatriz que ganha, no bom sentido, os outros só com o bom humor e com a aura positiva que cria vai tocando a vida. Uma dessas pessoas é o Luís Paraíba, do Brasão. Quem em Imperatriz já não ouviu o famoso bordão “Figuraaaa maaaximaaaa” seguida de uma gargalhada extremamente original.  

Paraíba chegou a Imperatriz anos atrás praticamente na lona e hoje é um próspero comerciante, mas  não é agora que quero falar dele não é de outro Luís, o Luís Paraense ( foto abaixo)

Luis Aires Lima, o Luis Paraense, natural de Marabá (PA) é viúvo e não esconde de ninguém o par de chifres que levou da finada.  Ao invés de ficar chorando nos cantos pelo chifre e pela morte da mulher, encarou tudo com bom humor, abriu um bar cujo principal ingrediente é alegria e o bom humor. Impossível sair de lá sem umas boas risadas. “Fui corno 18 anos” diz ele com uma boa gargalhada.

O Paraense fica na Rua da Lua, na Vila Fiquene, é freqüentado praticamente só por homens.  No final de semana Luís compra 30 quilos de carne, assa e distribui, gratuitamente, entre os fregueses.

Confusão?  Ele diz que é muito  difícil de acontecer, mas já aconteceu e igualmente como a história do chifre  ele encarou na boa, no bom humor:  mandou fazer um facão (inofensivo)  de cerca de dois metros e sempre que alguém tenta brigar ele costuma exibir a arma. 

É só mostrar o facão que tudo termina em risada  com os  eventuais brigões  fazendo as pazes ali mesmo.

Luis Aires de Lima, o paraense, a personificação do bom humor, é o nosso personagem do dia.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Um olhar mudou tudo

Não tirava da cabeça aquele olhar percuciente que vira de soslaio naquela manhã quando deixava os filhos, já atrasada, na escola. Ele estava numa esquina como quem esperasse alguém. Não conseguia lembrar-se da fisionomia do dono daqueles olhos, apenas do olhar que quase a deixara nua.

“O que era aquilo, meu Deus” pensou a bem comportada Ednalva.

Jamais imaginou que um olhar causasse tanta transformação na sua vida como o daquele estranho.

De fato, desde aquela manhã Ednalva não foi mais a mesma. Com quase 15 anos de casada descobriu naquele dia, depois do encontro com os olhos do desconhecido sujeito, que ainda era uma bela e atraente mulher.

Ao chegar em casa, com o coração aos pulos, foi ao espelho grande do quarto e com ele começou a interagir. Passou as mãos em concha no rosto ao redor dos olhos como quem quisesse tirar as poucas rugas que ali já se estabelecera; levantou os cabelos longos girou o pescoço para um lado e para outro, passou as mãos pela barriga e cintura indo até a altura das grossas coxas, retornando-as pelo mesmo caminho até os negros cabelos.

“Eu ainda estou viva e bonita!” vibrou interiormente Ednalva.

Desde aquela tarde a rotina de Ednalva começou a sofrer algumas transformações. A primeira delas, depois da redescoberta da beleza esquecida ao longo dos 15 anos de casada, foi não chegar mais atrasada na escola dos filhos, o motivo era só um: reencontrar o dono daqueles olhos que a fizera sentir o que não sentia desde o dia em que conheceu o homem com quem estava casada, seu único namorado, em toda vida.

Aquele olhar do homem misterioso virou a cabeça de Ednalva. Para onde ia, para onde se voltava, aquele olhar lhe acompanhava. Até quando ia dormir, lá estavam aqueles olhos lhe atormentando o juízo.

Um dia, enquanto tomava banho, e se prepara para dormir, passou a se admirar novamente diante do espelho. Mais do que isso, passou a tocar o corpo nu.

Passou a ter orgulho dos seios ainda firmes e naquele instante intumescidos pelos frios pingos d água que caiam do chuveiro. Também gostava da bunda, bem avantajada.

Com o olhos fechados Ednalva passou subir e a descer suavemente as mãos pelo corpo ensaboado. A esquerda se ateve aos seios e a direita, se concentrou detidamente numa vagina mais do que irrigada.

Os movimentos da mão direita se aceleraram. Ednalva soltou um grito, abafado pelo som da água do chuveiro. Acabara de conseguir, mais uma vez, com as mãos o que há anos tentava com o marido: um bom, relaxante e solitário orgasmo; só que daquela vez teve a companhia imaginária do dono do diabo daquele olhar que lhe despira há três meses quando deixava as crianças na escola, que não saia mais da cabeça e que lhe fez redescobrir que ainda era uma bela e caliente mulher.





terça-feira, 12 de abril de 2011

CONFUSÃO


Penso que se não fosse assim,  sería mesmo daquele jeito.
Do  jeito que imaginei que um dia fosse e,  que acabou não sendo.
Se um dia ocorresse o que  imaginei, sería tudo diferente.
Não estaria lá imaginando uma maneira de não fazer aquilo que acabou ocorrendo e mudando o rumo das coisas

quarta-feira, 6 de abril de 2011

A Virgem e o coronel


Todos  tinham  medo do coronel  Francisco Libório da Fonseca  naquele distante povoado nordestino. Também não era pra menos. Era dono de quase todas as terras do lugar. Casava, batizava, matava e mandava capar, como fizera  com um sujeito que olhou enviesada para sua filha única,  que depois mandou estudar na capital.  O coitado depois de capado, envergonhado, foi embora do lugar com medo de ser morto. O homem era, de fato, muito cruel.

A própria figura do coronel  impunha medo. O homem era  grande e todo peludo.  O rosto quadrado;  uma barba que chegava ao peito  e um bigode que fazia voltas. Gostava de botas, sempre ornamentadas com um belo par esporas.  Também não dispensava um 38 cano longo na cintura. Naquele tempo de um ano qualquer de nosso senhor Jesus Cristo um homem como Libório, podia quase tudo.

O coronel  detestava ser enganado. Quem pelo menos tentasse passar a perna nele  acabava pagando um preço muito alto, às vezes até com a vida.

Pois bem, o coronel  Libório já tinha enviuvado três vezes. A primeira morreu de parto,  a segunda morreu afogada numa pescaria num dos açudes da fazenda,  e a terceira morreu de taca. Um dia deixou a comida do  homem queimar e se deparou  com  a ira dele.  A pisa foi tão grande que a frágil Maria morreu depois de uma semana.  Nem as canecas  de mastruço com leite lhe ajudaram  a sarar,  morreu toda inchada e vomitando sangue.

“Tá  na hora  de procurar uma nova companheira!”  Disse o  coronel ao capataz da fazenda-

“ Isso aqui tá sem graça demais sem mulher”  completou  Libório.

“Agora, tem de ser  selada. Se for mulher  mexida,  não quero!  E se me enganarem  mato ela e a família toda”  gritou o  coronel.

A notícia logo se espalhou. O Libório ia casar novamente e procurava uma noiva.

Mesmo com a má fama do coronel era mais quem quisesse empurrar uma filha pra casar com o dono de quase tudo ali. Era uma oportunidade para se ajeitar na vida.

A notícia chegou aos ouvidos de Flavinha, a filha do quitandeiro Raimundo Feijão.  Tinha 20 anos,   morara dois anos na capital,  já conhecia o calor de um  homem e acumulava umas boas horas de sexo, mas aos  pais  ela vendia a idéia de quem  ainda era moça.  

Os pais nem  de longe desconfiava dos encontros dela com  Antônio, o ajudante de balcão da quitanda , quase falida.

Flavinha planejou tudo. O  casamento com o coronel poderia salvar o comércio do pai e ela ainda poderia ter uma boa vida.

A danada pensou em tudo. Sabia que o coronel, dia de Domingo, ia sempre à feira; não para  fazer compras, mas para se exibir e contar lorotas nos botecos.

Flávinha  tinha sangue de índio com  Europeu. A mistura  de raça fez vir ao mundo uma mulher de fazer qualquer um perder a cabeça, inclusive o coronel.  Os olhos se perdiam num verde esmeralda de encantar até  a serpente mais peçonhenta.

Dissimulada,  pôs seu  vestido mais bonito , se enfeitou toda e inventou de  visitar a  colega Joana  que morava justamente vizinha  ao  boteco onde o coronel contava suas vantagens.

Não deu outra. Foi o Libório por os olhos  na menina  pra “carne dele reinar”. Todo aceso, foi logo perguntando para quem se quisesse responder.

“De quem é aquela menina ?”

“É  a filha do vendeiro” respondeu um  

“Ela  é moça? Se For,  vai virar minha mulher”
Os homens do boteco indicaram a casa do vendeiro  pai da menina  e, lá se foi o coronel.

“Boa tarde” disse Libório

“Boa”, respondeu o dono da venda.

“Aquela menina é sua?

É, sim senhor!

E  ela é mexida?

“Não coronel, de jeito nenhum”

“Então quero casar com ela! Agora você já conhece minha história. Se vocês tiverem mentindo mato e mando matar todo mundo”

O casamento foi acertado para dali a um mês.

Flavinha vibrou, intimamente,  quando o pai disse que ela iria se casar com o Libório,  o homem mais rico,  e mau do lugar. Só tinha um problema:  não era mais virgem e,   por isso  precisaria arrumar  uma maneira  de  enganar o maldito, mas  rico  coronel.

Bastou dois dedos de prosa com a experiente amiga Joana para a espevitada Flavinha bolar um plano. Se desse errado, ela sabia que ela e a família estariam perdidas. Todo mundo ia morrer.

O casamento foi o acontecimento do ano,  no povoado.  Casaram no padre e no civil.

Flavinha suspendeu  o remédio que tomava  às escondidas  dos pais para não engravidar do ajudante de balcão com quem se divertia quase todos os dias, depois da meia noite,  numa moita,  detrás da Igreja.

Calculou tudo. A menstruação veio  no dia do casamento. Parte do plano já tinha dado certo. Faltava ainda a outra parte. Estava com muito medo.

Bruto feito um animal,  o coronel Libório nem esperou a festa do casamento acabar e arrastou Flavinha pra sede da fazenda.  Tava ansioso para tirar mais um “cabaço”. 

 Fora  as mulheres com que tinha casado, Já havia  feito aquilo umas 50 vezes com as filhas dos peões de sua fazenda e,  se orgulhava do feito.

Esperta, Flavinha  olhou toda lânguida para o coronel e  pediu para juntos tomarem uma dose bem aprumada  de cachaça;  disse que daquela forma  se sentiria melhor para recebê-lo, afinal, era sua primeira vez.
O coronel bebia, Flavinha fingia que bebia.

No dia seguinte, ao acordar com uma puta dor de cabeça e lembrança zero,  Libório tomou um  susto:  “ai, Jesus,  matei a menina! ”

Na cama era sangue pra todo lado. Na calcinha , jogada ao lado do travesseiro, na colcha, na ceroula... Era muito sangue.

Flavinha,  fingia um sono profundo.  O coronel por alguns instantes pensou o pior, daí, mais atento viu a mulher esboçar um pequeno movimento  e , só assim se tranqüilizou.

Em silêncio, vestiu a roupa, pôs as botas, o revolver na cintura, o indispensável chapéu, postou-se na frente do espelho, se ajeitou todo,  sorriu com o canto da boca,  torceu para cima o gigante e esbranquiçado  bigode e pensou cheio de gabolice:

“Sou o coronel Libório da Fonseca, comigo ninguém pode, sou eu e o boi não lambe. Boto mesmo  é pra quebrar.  Com esse, fechei  o meu qüinquagésimo  primeiro cabaço.












Sem eira, nem beira

 Foto:ilustrativa
Eu vi um homem, sem eira, nem beira, bem na rabeira.

Eu vi um homem sem dente, sorridente, contente, sob a marquise daquela gente que não gosta de gente.

Vi , ontem e hoje, um homem sem eira , nem beira.

Não era o bicho do Manoel, o Bandeira,

Era um homem!  Sem eira, nem beira numa luta sem fim.