quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

CONTO DE ANO NOVO: DESILUSÃO


Sentado ali na praça de alimentação de um grande shopping da "cidade que nunca dorme" , debaixo de uma temperatura de menos dois graus centigrados,  João José olhava sem ver a multidão ao seu redor.  

Mergulhava num rio de lembranças das coisas da infância e do início da adolescência.  O período  era  propício  para aquele tipo de nostalgia. Já tinha passado o Natal e agora aproximava-se o Ano Novo.

Boas lembranças do seu torrão natal, no interior de uma cidade pobre   do Maranhão.  Era o terceiro ano longe de sua terra e de tudo que amava e que deixou para traz, desde que ganhara a bolsa de estudos do Governo para se doutorar na terra do Tio Sam. Tinha sido um brilhante aluno de medicina. E sua dedicação numa linha de pesquisa sobre reprodução humana tinha lhe rendido aquela bolsa.

Pensava: tinha tudo para dá errado; reproduzir o destino dos pais,  pobres lavradores que tinham que plantar numa terra emprestada para poder  comer. 

Agora estava ali numa das maiores cidades do mundo,  estudando. A certeza de tirar os pais e os irmãos da miséria estava bem próxima.

João José lembrava intensamente dos pais, já na terceira idade;  da galinha caipira feita na hora, das piabas fritas apanhadas no brejo no fundo do quintal  e feita ao azeite de coco babaçu,  do jogo de travinha, dos  festejos, das missas e,  daquele dia que mudou sua vida: um  parente distante  ao observar seu jeito solto de ser, perguntou se ele não gostaria de ir com ele para a capital para estudar.

Ainda quis não aceitar o convite mas ao observar a situação em que vivia os  pais e os irmãos não pensou duas vezes.

Tinha certeza de que tinha feito  a opção certa. Deixar para traz a família e o grande amor de sua vida. Um amor proibido, não pela cor da sua pele negra, mas pelo fosso financeiro que separava a sua família, da família de sua doce e amada Tereza.

Os pais dela não aceitavam aquela  "cegueira"  que dominava os dois desde a infância. Queriam, diziam ao próprio  João José, coisa melhor, para  filha.  

"Coisa melhor". Aquelas palavras soavam como uma faca amolada lhe rasgando o peito, rasgando-lhe  a alma. Já pensava  naquele tempo em se casar com Tereza, construir uma vida com ela, mas não tinha falsa ilusão: se continuasse ali, naquela situação extrema de pobreza,  jamais receberia as bênçãos para desposa-la, por isso se agarrou de corpo e alma ao convite do tio para estudar na capital. Voltaria depois para buscar a amada  e com ela  realizar o sonho da infância de constituir uma família.

Sete  anos depois,  ali já na porta do shopping,  abraçado ao próprio corpo aquecido por um grosso casaco, João José  olhou para o alto, e sentiu os flocos de neve cairem no seu rosto dividindo espaço com uma solitária lágrima que naquele momento parecia queimar-lhe o rosto. 

Horas antes recebera  uma notícia que jamais imaginara: Tereza se casou, já grávida, com o filho de um antigo funcionário da fazenda dos pais dela. 

sábado, 24 de dezembro de 2011

Os sinos dobram: Feliz 2012

 
Imperatriz foto
Os sinos de um novo ano já ecoam nos quatros cantos do planeta. Talvez não haja mais tempo pra coisas  que programamos  quando os sinos de 2010 anunciaram  2011.

No entanto, aqui chegamos!  A esperança continua e, se chegamos  vamos poder continuar na luta permanente para sermos cada vez melhores e justificar assim, nossa presença neste planeta, nesse plano.

Viva! Sobrevivemos a tantas intempéries,saltamos tantos obstáculos.

Em algumas situações fomos derrotados mas,  também vencemos e,  se vencemos temos muito, muito a  agradecer.

Que o sabor dessas vitorias nos fortaleça, que o amargo das derrotas nos ensinem  que na condição de humanos somos falíveis mas que por essa condição temos a capacidade de nos reinventarmos,  corrigir rumos e continuar nossa infinita jornada na busca pela perfeição.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Ontem, hoje



Hoje a certeza  do ontem;
 ontem,  a incerteza do hoje.

O hoje não encontra  o ontem assim,  como o ontem não encontra o hoje.

Tempos que não se encontram.

O  hoje  é filho do ontem, pai do amanhã.
 Não se encontram,  nunca se cruzam, porém,  se completam.
Um construindo sempre o outro

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Madrugada


A madrugada se move! Solta gritos não ouvidos; sussurros nas alcovas abafados por beijos profundos

Ao longe o coaxar dos sapos anuncia a chegada de um novo dia.
O vento sopra forte, esfria a terra, varre o chão

O tempo passa, os sons  intensificam-se

Os primeiros cantos dos pássaros já podem ser ouvidos;

Com garbo  o galo passa a cumprir seu papel de guardião da madrugada e cheio de vitalidade  anuncia o cumprimento de mais um ciclo: dia, noite, madrugada, dia.

O vento sopra com mais intensidade
O céu se abre

A  treva se dissipa perdendo o duelo para  a luz
Os sons e os ventos da madrugada aos poucos vão se distanciando abrindo espaço para os atores do novo dia...

Novos ventos, novos sons.  Uma nova sinfonia até o chegar de uma nova madrugada.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

O poder, humano



Sou capaz de tudo  e , de olhos fechados. Vejo mais longe, o que  não consigo enxergar de olhos abertos. 

Construo, e se não gostar, destruo,  castelos e  muralhas em questão de segundos.

De olhos fechados “num piscar de olhos”   viajo para qualquer canto do mundo sem pagar um tostão.

De olhos fechados sou capaz  de mudar, para melhor ou para pior minha vida e,  a vida  de quem eu quiser.

De olhos fechados crio a minha realidade, antecipo acontecimentos, corijo  rumos...

De olhos fechados reforço minha condição humana, de herdeiro de Deus  e de cidadão do mundo.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Quando estiver sozinho


Já sei o que farei  quando, por um motivo ou outro, me sentir  sozinho!  

Alem de   conversar comigo mesmo, vou aproveitar a oportunidade  e visitar meus pais, que morreram já faz tempo.  Quem sabe a gente consiga brincar um pouco;  relembrar os bons momentos vividos  juntos. 

Vou dizer a eles  o que não  foi  possível  enquanto estavam  fisicamente por aqui. l Não  tenho dúvida de que será um reencontro bem legal.

Talvez possa ir mais longe.  Reencontrar minha primeira professora. Deve tá bem velhinha. Tenho um pedido de desculpas pra ela. Uma vez, nessas zangas de menino, cuspi na saia dela. Arrependi-me, mas cheio de razão, não pedi desculpas...  Quem sabe agora,  ela me perdoa  e,  ai  me convida pra tomar um cafezinho quentinho, cheiroso e cheio de saudade.

Na minha conversa comigo certamente aparecerão outras sugestões de visitas; composições, recomposições, consertos,  acertos, conselhos.

Quem sabe no meio dessa  conversa,  Deus não apareça e diga:  ei, menino quem disse que tu estais sozinho.  Esqueceste que sou seu Pai  e como pai sempre estarei contigo?

É, sendo assim, vem a certeza de que na verdade, numa conversa dessa ( comigo mesmo)  vem a descoberta real de que nunca estamos ou estaremos  sozinhos.






quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Doce Desejo



A água na boca indica o desejo do que irei experimentar.

Primeiro, o olhar firme sobre aquela forma linda, arredondada e viçosa. Um verdadeiro presente da Natureza;

Depois, o cheiro. Meu Deus, que loucura.

Minha mente antever os próximos minutos.

A boca volta a encher-se de água. Minhas pupilas se dilatam diante daquela forma ali, inerte a me esperar.

Breve saciarei meu desejo.

Suave e calmamente sorverei cada gota daquela doce e magnífica laranja.














domingo, 9 de outubro de 2011

Pluralidade


Plural na vida, singular na morte.

Plural no corpo, singular na alma

Se sou plural, divido...

Se sou singular...

Me encerro em mim mesmo, e morro.





quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Olhos Negros



Na negritude de seus olhos a alegria e a profundidade  do ser, mulher.

Mulher na vida, mulher da vida, mulher de vida, mulher da lida,

 Bendita sejas tu, ó criatura divina, que do  fel extrai o mel que adoça a  vida das vidas que te cercam.

sábado, 13 de agosto de 2011

Sacro Pai




Sacro pai que estais na lida!

Benditos sejam os frutos da tua vida.

Sacro pai da roça, da força e do braço.

Sacro pai dos palácios, das matas, dos rios, dos mares; das marquises  e das praças.

Benditas sejam, para sempre, as sacras linhas de tuas rugas por onde escreves as várias histórias de sua vida

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Eterno Voltar




No vento, na onda, no rio, no mar; na terra, a vida a respirar.
Vidas que vão, vidas que vêm.
Vidas no cio,  vidas no frio, no brilho do luar.
Vidas que se somam num eterno multiplicar
Vidas que nascem, vidas que morrem... Vidas que nasce, num  infinito voltar 


terça-feira, 9 de agosto de 2011

Combatendo o mal.

É impressionante a capacidade que o ser humano tem de destilar energias negativas em torno daquilo que não quer, e não deseja que prospere. 

Nesse momento o lado negro da força invade as mentes que se tornam mais criativas num total desperdício daquilo que, se pudesse ser canalizado para o bem, surtiria um efeito muito maior e mútuo.

Sim, porque a energia negativa na maioria das vezes é unilateral. Ela pode até ser emanada coletivamente, mas a principio é planejada no silêncio no “ lado obscuro das mentes”. 

O bom é que a mesma pode ser neutralizada , estancada e devolvida; dependendo de quem seja o alvo, daí, aquela velha máxima de “ o feitiço virar contra o feiticeiro”.

Agora, (a experiência me ensinou isso) tem um porém: se o alvo estiver igual ou numa posição, ou numa situação de fragilidade emocional ou mesmo espiritual inferior ao do “agente do mal”, o “bicho pega”, e como pega.

O segredo para se defender ou se proteger desses petardos, visíveis, mas na maioria das vezes invisíveis, não tenho dúvida é o equilíbrio. Equilibrado, pensa-se melhor, o raciocínio flui com mais rapidez; age-se melhor e com mais sabedoria. E planeja-se inteligentemente a defesa.

O duro é, diante de tantas adversidade, manter sempre o equilíbrio nosso de cada dia; mas vale a pena tentar! 

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Boemia


Boemia

Abrir a porta, fechar os olhos e sentir a lufada de ar no rosto,
Andar pelas ruas a toa, sorrindo naturalmente  e acenando para os amigos que encontrar
Arrancar  o relógio e arremessa-lo o mais longe que puder;
Libertar-se  das horas e dos compromissos marcados
Parar na banca de revista ler as notícias e  as últimas,  das novelas
Sentar –se à  mesa de um boteco, olhar pra direita, pra a esquerda, pra frente e pra trás a admirar as moçoilas a rebolar
Pedir uma cerveja. Sorve-la  e,  calmamente,  sentir a goela gelar esperando o outro dia chegar.

domingo, 26 de junho de 2011

Livre




Fecho os  olhos e me jogo do alto. Abro os braços  e mergulho   em mundo sem barreiras e  sem regras.

São somente eu e o vento e o tempo. Solto  um grito que só eu escuto no silente templo do meu  mundo interior.

Abro mais os braços tentando desesperadamente respirar. O mundo sem barreiras e sem regras não me deixa sorver o ar de que preciso.

Fecho os olhos e contrariando a força da gravidade retorno ao leito do meu pensar.

domingo, 29 de maio de 2011

A Alma e o Corpo



Sabemos, mais ou menos, de onde viemos,  mas não sabemos para onde vamos...A junção de duas células durante o encontro de dois corpos numa noite,  nem sempre,  de amor, ou num tubo de ensaio de algum laboratório provoca  a explosão de onde brota a vida.   

Milhares, milhões  de anos de história genética;  mutações, adaptações  se juntam  e dão origem ao que convencionamos chamar  de humano.

Ao encontro dessas células  agrega-se o desconhecido, o imperscrutável , “a cereja do bolo”  que nos proporciona a condição de humanos: a alma, o espírito.

 Corpo e alma, alma e espírito num só “ambiente”, num só composto; um vivendo no outro até o corpo,   castigado pelo tempo fenecer ou ser humanamente  destruído.  A inevitável  separação acontece; um volta à condição originária de pó;  o outro,  acredita-se,  inicia sua jornada rumo ao desconhecido.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Alegria e tristeza


-Por que às vezes a gente acorda alegre?

- É  o Espírito de Deus  que levanta mais cedo, te toca e diz: este  é meu.

- E quando a gente acorda triste?


-É o espírito de Deus magoado porque você  se esqueceu de agradecer pela alegria do dia anterior

-E de onde vem essa  alegria?

- Penso que vem da gratidão. A gratidão pelo viver, por ter vindo ao mundo, por ser humano e por tudo de bom ou ruim que acontece com a gente.

-E quando a gente não consegue mais ficar alegre e ser feliz?

-É  quando morremos

domingo, 8 de maio de 2011

ZÉ DA MORTE




Leu  num  livro de  um historiador francês,  logo  no  começo da adolescência,  que entre os povos antigos a preocupação do homem era mais de ser  sepultado, ter um enterro decente, do que  propriamente com a  morte. Ficou com aquilo na cabeça e a partir de então estabeleceu uma relação de afinidade com o  fenômeno morte. Só pensava em como seria seu enterro  e  com isso, começou a preparar o que seria seu funeral.

No povoado não perdia um velório. Era morrer alguém e  lá estava  o Zé da Morte, como ficou conhecido o homem, rente nas rezas de despedida do morto. 

Rezava, cantava, chorava,  e ainda dava opiniões sobre o velório.  Ajudava  em praticamente tudo. Fazia aquilo porque queria que fizessem o mesmo com ele quando partisse dessa vida. Acreditava, como os antigos, que se não fosse decentemente sepultado viraria alma penada e passaria a vagar sem rumo. Não queria aquilo de jeito nenhum.

Virou rapaz velho. Não namorava, não ia a festas. Só  imaginava como seria  quando morresse.  Sonhava com a morte dia e noite.

Todo mundo gostava de Zé da Morte, mesmo com o jeito esquisito dele viver. Só andava de preto, dos pés à cabeça.


Chamava atenção um largo chapéu, também preto, usado dia e noite que cobria a face quase por completo.

Por não pegar sol, sua pele branca  ganhou uma coloração amarelada deixando-o mais assustador ainda.

A figura  de Zé da Morte, principalmente à noite quando vinha de alguma novena ou velório, era assustadora. O cara era mesmo esquisito.  Já tinha comprado até  o caixão e a mortalha. Dizia que não queria dá trabalho a ninguém  quando seu dia chegasse.  Quem  ia à  sua casa desavisado  saía  encabulado quando levantava a vista e via   um caixão enrolado num saco Plástico  em cima do guarda roupas.

Zé da Morte   não falava em outro assunto a não ser sobre morte. Os amigos até que tentavam entabular algumas conversa com ele sobre  futebol, roça e  mulher;  esse último assunto  era o  que mais evitava. Tinha medo da  “carne reinar” e queria, dizia ele,  morrer puro.  

- Quando eu me for   quero todo mundo bem vestido, de preferência de preto; muitas flores,  café com bolo pra todo mundo e  a banda da Igreja   tocando meus hinos preferidos. Quero ainda  todo mundo chorando. Se alguém achar que não  vai chorar  no meu velório  é melhor nem aparecer-  dizia ele sempre que se encontrava com os amigos.

O Zé  era tão preocupado com o funeral que abriu até uma poupança  para custear as despesas. O que ganhava  ajudando a organizar  velórios, depositava  na conta aberta na sede do povado que só ele e   a madrinha de batismo sabiam da senha.

Alguns moradores do povoado  viam no  Zé da Morte uma grande piada.  Essa impressão só acabava quando alguém ia a casa dele e este  lhes  mostrava a mortalha e  o caixão.

Uma simples gripe e lá estava o Zé mobilizando a madrinha,  o padre para  lhe fazer  o que seria a extrema unção. Também mandava avisar na voz que sua hora tinha chegado.   Sonhava com muita gente no velório. 

Tornou-se habitual essa folia no povoado sempre que Zé da Morte ficava doente , tanto que já duvidando da sua sanidade,  poucos ainda eram os que  naqueles momentos atendiam ao chamado dele ou acreditava que ele estava mesmo morrendo. 

Muitas gripes, dores de cabeça, topadas, quedas e nada da morte vir ao encontro do Zé

No povoado havia um riacho onde final da tarde a meninada e também os adultos  iam tomar banho. Os moradores evitavam ficar até o começo da noite porque havia a história do aparecimento de uma  sucuri sempre naquele horário. A serpente já tinha arrastado com ela cachoro, bode e até um bezerro. A cobra era tão grande que acabou virando lenda.

 Zé   era o  único  que não tinha medo. Esperava todo mundo ir embora para tomar  seu banho no riacho.  Era um habito que trazia consigo há muitos anos.  Logo estava de volta a sua casa;  vestia o traje habitual e ia para as  novenas.  Todo dia tinha uma.

Numa quinta-feira  de  noite clara  Zé tinha  sido convidado para rezar num velório no final do povoado, mas,  naquele dia ele não apareceu. 

O sol nasceu,  e nada do Zé.  Logo a noticia do desaparecimento dele  se espalhou  causando o maior rebuliço. Tinha sido visto a última vez indo  para a Beira do Riacho, mas no local nenhum vestígio dele foi encontrado. O homem havia sumido de verdade.

- Morreu afogado-  dizia um

-A Sucuri engoliu ele, teorizava outro.

-A morte  veio  pessoalmente buscá-lo, tacou um gaiato.

Dez  anos se passaram e até hoje ninguém sabe o que realmente aconteceu com o Zé da Morte, que  acabou  não tendo o tão planejado enterro. Nada de  flores,   banda de música  ou gente chorando.

De vez em quando no principal  boteco do lugar alguém esbaforido  chega jurando ter visto o Zé subindo vagarosamente,  todo de preto,  a ladeira do cemitério.















Mãe


Mãe, magia.


Mãe, alegria.


Mãe, energia.


Mãe alegre, mãe triste.


Mãe feliz que alimenta, cuida e lambe sua cria


Mãe, presente, mãe distante, mãe ausente


Mãe, rica, mãe pobre,


Mãe puro amor, amor puro e de muito vigor


Mãe, mãe, saudades...

Muitas saudades mamãe.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Crônica : DE CASAMENTOS E ETECETERAS

Recebo e , publico  a crônica do aniversariante do  dia   o professor doutor, do Curso de Comunicação Social da UFMA, Marcos Fábio Belo Matos...Boa leitura
Marcos Fábio

 Hoje vi a princesa que até um dia atrás era plebeia. A agora princesa se casou com um príncipe louro dos olhos claros. Igualzinho minhas irmãs liam pra mim nas historias dos livros da minha infância, que depois eu passei a ler sozinho. A princesa branca casando numa linda cerimônia, com rainha  e um monte de súditos.
Nada faz sonhar mais que um conto de fadas. Eles povoam nosso imaginário desde que o mundo é mundo. As narrativas míticas dão sentido de projeção à vida e possibilitam, ao menos no terreno da imaginação, ser alguém diferente do que se é no rés-do-chão.
O príncipe e a princesa são de carne e osso. Moram num palácio real, vivem num país que existe mesmo. Mas nem por isso deixamos de achar que eles, no fundo no fundo, não existem de verdade. Eles são a continuidade dos casais que lemos na infância. Até os cavalos brancos estavam lá.
A princesa que nasceu plebeia não precisou beijar um sapo para que ele se transformasse num príncipe. Nem ser posta num caixão de cristal para receber dele um beijo molhado de lágrimas e desespero. Nem provar um sapatinho deixado numa escadaria de baile. Ela só precisou ir para a universidade, insinuar-se um pouco, estar por perto. E o resto a mágica dos corações jovens tratou de efetivar.
O casal agora real encarna os nossos desejos irrealizáveis na nossa vidinha mais ou menos. Por isso, ver o casamento pela televisão ou pela internet acaba sendo um enternecimento. É como se, ali naquele momento, todos nós, em uníssono, disséssemos também “Yes, I do!”. Ou expirássemos um inaudível “I am so happy!” ao subir na carruagem sustentada por um portentoso William.
Depois da cerimônia, voltamos à nossa vida real! E o casal à dele.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

O voo da Borboleta ou a Crônica da Maturidade


Esta semana,  não descobri  ainda o porquê, me dei um flagra refletindo sobre a maturidade.  Acabei viajando no tempo.

E não é que é legal viajar no túnel do tempo?   Revi amigos, as brincadeiras e peraltices da infância; aquela vez que cuspi,  zangado na saia da professora e,  daquele dia que perguntei a ela, e fiquei sem resposta,  quem era o pai de Deus.  

Viajar no tempo é legal. Descobri que faz bem pra saúde, agora  com uma ressalva:  desde que seja pra reviver boas  recordações,  se for o contrário,   faz um mal danado.

De volta  ao lance da maturidade, embora  saibamos que seja um estágio intermediário para o  fim corporal,  se a gente perceber bem,  é pura magia;   trata-se de um estágio mágico da vida, sobretudo,  quando a gente faz aquelas paradas obrigatórias, como um dia me disse um pastor evangélico.

“Nessa fase  são necessárias algumas paradas obrigatórias para que haja os consertos necessários e a gente possa seguir adiante” me ensinou o velho pastor.  


Outro encontro  bacana foi  esse com o pastor, durante  minha viagem no tempo.

Pensei  e tentei encontrar uma maneira de exemplificar o que seria essa “santa maturidade”.

Na minha mente surgiu  uma lagarta rastejando bem devagar. O bicho  via tudo por um único angulo;  passava por cima de  pau  e pedra,  se machucava, e nem sentia dor. Feria também e nem percebia. 


Medo?  Não existia.  Havia naquela  lagarta  um sentimento de infalibilidade.  

Num determinado momento, obedecendo ao comando natural da  existência, a lagarta parou e se recolheu por um determinado tempo num casulo. Parada obrigatória para um processo de transformação ou   não já que por motivos alheios à sua vontade    esse   processo certamente correria  risco de ser interrompido.

Com a graça  da lagarta  ter  ultrapassado aquela  fase, agora sim,  surgia uma bela  e colorida borboleta. 

A lagarta se transformou, criou asas e voou, passou a ver  o mundo lá do alto.   Descobriu, de repente,  que as  pedras continuavam   lá,  mas que  no meio delas  era possível enxergar  o verde que não  via antes   e uma enorme  variedade de  flores. 

Agora  com as asas, se quisesse,  a ex-lagarta  poderia  ir mais longe , ir a lugares antes  inimagináveis e  escolher  pousar nas   flores mais belas.


Enfim, a  lagarta passou a ser mais seletiva,  e se soubesse cantar,    naquele instante, certamente cantaria como aquele   velho músico americano   Louis Armstrong  na sua  clássica canção:   What wonderful  world  ( Que mundo maravilhoso) .

domingo, 24 de abril de 2011

Chantagem e Sangue


Estava arrependida. Se soubesse que aquela situação fosse terminar daquele jeito nunca teria se exposto daquela maneira,  e colocado  assim,  sua vida conjugal, familiar,  social e empresarial em risco. Uma vingançazinha maldita, sem sentido e que poderia num piscar de olhos,  destruir toda sua boa vida. 

O que estava feito,  estava  feito;   agora  era   aprender com aquela situação  e buscar imediatamente um reparo.  Só ainda ainda não sabia como.

Claudia Cristina tinha a vida que pediu a Deus.  Na adolescência ganhou um concurso de beleza e aquele titulo lhe ajudara abrir muitas portas. Era uma bela mulher,  bem casada;  mãe de  três filhos, que ela não cansava de repetir:  eram   lindos;  uma  vida social bem movimentada com freqüentes  convites  para os mais distintos eventos sociais. Duas viagens nacionais e uma internacional por ano. Uma  empresa que lhe dava muito lucro e a  levara logo  a ficar independente financeiramente do marido. Ela é quem o socorria de vez  em quando.

A vida sexual, era uma loucura. O Marido era insaciável, e ela também. Quando estavam à  sós o diálogo se dava com  os corpos, ainda relativamente  jovens e sempre  em chamas. 

Naquela  manhã ainda  mantinha viva a lembrança a boa trepada  que dera  na noite do dia  anterior em cima da mesa da cozinha.    Estava o corpo todo dolorido, mas valera à pena.  Ela e o marido gozaram feito dois loucos.  Orgulhava-se: “meu marido está cada vez melhor”

-Não posso deixar tudo que construir  todos esses anos  ir por água abaixo. Tenho que  sair dessa encrenca  e bem rápido-  pensou, Claudia.

A jovem empresaria  começou a viajar no encadeamento dos  fatos que a levara  àquela aflita situação.

 Nem sabe  explicar como conseguiu se entregar por total ao marido na apimentada noite anterior  tamanha era sua preocupação.

O casal quase nunca brigava. Uma das únicas brigas ocorrera um ano atrás, e foi por causa daquela  droga de briga que o inferno na sua vida  começou.

 No calor da discussão Claudia acabou levando um tapa na cara. Aquilo  para ela foi o fim do mundo, ainda bem que as crianças não viram. Estavam na casa dos  avós.  Zangado, naquela noite, o marido saiu dizendo que ia dormir na casa de um amigo.

Claudia nunca tinha bebido e  ainda com o rosto ardendo e chorando  pelo tapa que levou  bebeu  num só gole quase meio copo de Red.

 Não merecia aquilo, estava desnorteada, ali  sozinha.  Também julgava que a situação por causa de um cheque sem fundo recebido não era  pra ter chegado a tanto. Precisava desabafar! Quando menos imaginou,  já embriagada,  estava na frente do computador numa dessas salas de bate-papo.  Não sabia que dali a um ano sua vida viraria de pernas para o ar.

Naquela noite/madrugada Claudia Cristina, mas do que interagiu com um sujeito que se apresentou como um próspero e gentil  empresário. Além de desabafar, se exibiu, na WEB. Mostrou os seios fez um estripe e simulou um ato sexual para aquele desconhecido.  Ela não sabia, mas aquele estranho gravava tudo.
Um ano depois, um telefona e o início da chantagem

- Alô, lembra de mim e do maravilhoso show de graça que  fez pra mim?  Pois é, estou pensando em lançar tudo em DVD.

- Quem tá  falando?

- Não lembra mais de mim, é?

-Vou direto ao assunto: quero 50 mil reais e uma noite quente de sexo. Ou você faz isso ou todo mundo vai ficar sabendo quem é verdeiramente dona Claudia Cristina  a  empresaria do ano. Entendeu?

Seis meses se passaram desde o primeiro telefonema do chantagista. O cara descobriu seu celular e ligava pela manhã, á tarde, noite e ainda  dava toques na madrugada.

A vida de Claudia tinha virado um verdadeiro inferno. Poderia ter denunciado tudo à Polícia, mas o risco era grande demais. Ela mesma precisava resolver aquele problema. Decidiu  então ceder ao chantagista.

Já tinha arrumado, às escondidas,  os R$ 50 mil. E naquele instante estava constrangida,  numa loja de produtos eróticos. O chantagista havia pedido que ela levasse espartilhos, incenso,  uma máscara e velas e outros produtos.

Com tudo na bolsa, aguardava mais um telefonema  com as instruções  do chantagista.

-Alô, anota ai, um   endereço.

Nervosa, Claudia Cristina pegou papel e caneta

- Pode falar

Minutos depois, a empresária estava em seu carro em direção à toca do misterioso chantagista, que conforme o endereço, morava  num bairro distante do centro da cidade.

A casa  tinha um muro alto.  Estava próximo das 20 horas e no trajeto o chantagista ligou três vezes para que Claudia se apressasse.
Tocou a campainha.

Na sobra de uma luz fraca. Aparece o estranho.

-Entre querida, a casa é sua.

O chantagista  tinha  1, 70, de altura,  branco, cerca de 35 anos, cabelos ralos e uma voz grossa.

-Vamos por parte, querida:  o dinheiro;  anda, rápido!

-Ta tudo, aqui, disse com um  pavor estampado no rosto,  Claudia Cristina.

- Trouxe o que lhe pedi?

-Sim, tá tudo aqui
-Então, tire essa roupa e vista tudo.
Claudia Cristina tirou o vestido, e foi seguindo as ordens do chantagista que havia exigido dela uma fantasia de Tiazinha, a musa de sua adolescência.

-Não faça nada que eu não goste. Se você não me obedecer, já sabe o que vai acontecer.

O chantagista, já nu se deitou e pediu que a “tiazinha” se aproximasse.

Claudia respirou fundo e foi seguindo as ordens.

Primeiro, em pé sobre a cama, enfiou o salto alto na barriga do homem;  depois ele  pediu que ela acedesse uma vela e soltasse alguns pingos  na sua barriga.  

Super excitado o estranho disse: -

-Amarre minhas mãos e meus pés

Claudia obedecia calma e silenciosamente.

-Quero agora um boquete do jeito que você  me disse na Web que sabe fazer.

Naquele instante, o coração de Claudia acelerou.  Já tinha feito loucuras numa cama, mas só com o marido.

-Meu Deus, em que me meti. E agora? Pensou Claudia olhando para aquele pênis ereto esperando por sua boca carnuda.

-Vamos, não demore minha Tiazinha ! 

Ei, espera   um  momentinho ! Quero que você também  vede meus olhos...

Na manhã seguinte, em casa, à mesa do café, com o marido e os filhos, Claudia Cristina ouvia, indiferente, a seguinte  manchete  em  um desses programas  mundo cão:

-Homem, de aproximadamente  30 anos,  tem o pênis cortado e sangra até morrer na periferia da cidade. O corpo  do desconhecido foi encontrado hoje pela manhã.