domingo, 29 de abril de 2012

O Fardo, a missão.




O fardo é pesado! Mesmo assim, sigo adiante.
Se emociono, se choco, desperto compaixão ou provoco pelo menos um “cadinho” de emoção, me tranquilizo com o sentimento da missão cumprida e com a certeza da minha importância no mundo.





sexta-feira, 27 de abril de 2012

O Código Secreto




Quantas inquietações nos atormentam quando, por um momento ou outro,  nos aquietamos e, por alguns segundos e raros minutos, nos desprendemos do mundo ao nosso redor e voltamos-nos para dentro de nós.

São tantas perguntas, tantos pensamentos, tantas vozes silenciosas gritando.  Uma querendo se sobressair mais do que a outra; assim, percebe-se  a necessidade de  um pouco de  equilíbrio no silêncio para que as vozes do que chamamos de   mal não vençam  a batalha da comunicação interior

Somos a soma do tudo e do nada ao mesmo tempo. Somos filho de uma força que está  além da nossa frágil e incipiente  compreensão. Acredito que cada um de nós tem uma senha, um código secreto. Tão secreto, que por mais que nos esforcemos não conseguimos acessar.

Acredito que essa senha só nos é  revelada quando morremos e ninguém quer,  ou  espera morrer para que a ela tenha acesso.   

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Do outro mundo





Nunca tinha  trabalhado na vida. Nada lhe faltou na infância e,  o fato se repetiu na adolescência.


Estudar? Só mesmo o basicão.  Aprendeu a escrever e  a fazer as quatro operações.  Para ele, daquele jeito,  estava  bom demais.  Era filho único;  o pai era rico e jamais lhe deixaria na mão, dizia sempre ele quando um amigo mais próximo ou  parente o admoestava a estudar e,  a pensar no futuro.

Terêncio, que não se sabe o porquê ganhou o apelido de Jejebinha,  gostava mesmo era de dançar, namorar, beber e gastar o dinherama do pai, já  setentão.  


Nas festas gostava de “bulir”  com o que era dos outros. Jovem,  bonito e com muito boi no pasto, não era difícil seduzir as jovens mulheres dos peões das fazendas da região que em dia de folia se juntavam no único clube da  cidade.

Em alguns casos, por mais incrível que possa parecer, os próprios maridos empurravam as mulheres para “o garanhão”  que era uma gabolice só. Com aquele gesto os peões ganhavam o direito de sentar-se á mesa do menino rico e com ele beber e comer sem se preocupar com a despesa.

Sabia-se de um único caso de um desses maridos se insurgir contra os assédios de Jejebinha. O final não foi feliz.

Ao perceber  Terêncio se jogando para cima da  mulher que tinha ido ao banheiro, o desavisado  peão,  novo no lugar, correu e em ato continuo deu um safanão no rapaz que se estatelou no chão.

- Respeita mulher de homem, cabra safado- vociferou  o valente peão.

Jejebinha nada disse. Levantou-se, olhou para uma escoriação no braço esquerdo em função da queda. Fixou um olhar frio na direção do peão. Meneou  com desdém a cabeça e de costas  se afastou  com o dedo  em riste apontando  para o casal.

Dois dias depois o peão foi encontrado  morto boiando no açude da fazenda onde trabalhava. Falavam que ele tinha levado um choque de um dos poraquês que infestava aquele açude. O caso ficou por isso mesmo. 

Se alguém quisesse saber o que de fato tinha ocorrido iria descobrir que sob a mira das armas dos seguranças de Terêncio  o peão foi obrigado a beber três garrafas de cachaça, em seguida levado numa canoa até o meio da lagoa e  lá foi obrigado a pular. Uma semana depois ninguém falava  mais sobre o assunto.

Terêncio continuava com sua boa vida. Já torcia pela morte do pai para , assim, se apossar das terras, gado e tudo mais que o velho  juntara durante toda a vida.

Um dia durante mais uma grande festa na cidade, lá estava Terêncio sentado á mesa com os " sócios " e suas respectivas mulheres. Ainda não sabia com qual delas ia amanhecer o dia.

A mesa estava farta. Arrematou todos os pernis, frango assado e galinha cheia que apareceram.


O forró corria solto, o salão  de festa lotado. No meio do salão surge um casal,  ali nunca visto. O homem era alto, elegante, espadaúdo e com destreza fazia movimentos rápidos e sensuais com a parceira, uma  puta loira poucos centímetros menor do que ele.


Nunca tinha visto uma mulher como aquela ali na cidade, avaliou Terêncio. Será se ela sabia quem era ele. Teria alguma chance?  Não custava nada tentar. Ia esperar pelo momento certo para assedia-la.  O momento certo surgiu  quando percebeu que o
parceiro da estonteante mulher tinha se afastado.

Largou a mesa e rapidamente se aproximou da mulher.

Não demorou muito o conquistador estava no fundo do clube no maior amasso com a loira. Nunca tinha beijado tanto na vida. As mãos de ambos se movimentavam habilmente. 


Jejebinha   estava prestes a explodir de tanto tensão, quando a estranha disse para ele esperar um pouquinho que precisaria ir ao banheiro. Deu mais um amasso na mulher antes  de deixa-la  sair  e ficou ali esperando.

O inesperado aconteceu. A mulher não voltou. Pela primeira vez desde que passara a frequentar festas  ia amanhecer sem levar ninguém para dormir com ele. Voltou então   ao salão de festas.  Os amigos já tinham  ido embora e os músicos guardavam os instrumentos.  Vasculhou a área para ver se encontrava a mulher,  e nada.


-Puta que pariu! Aquela bandida me deixou na mão- pensou  Jejeba em voz alta.

Terêncio  pagou a conta, montou no cavalo e a caminho da sede da fazenda do pai se lembrou que bebeu muito, mas não comeu nada.  O estômago ruía. Lembrou que um amigo havia falado de uma comidinha caseira feita com capricho num povoado ali perto.  Rapidamente chegou  ao local .

O rapaz sentou e enquanto aguardava a chegada do prato, reviu mentalmente os calientes  momentos  vividos com aquela estranha mulher. Ninguém soube informar quem e, de onde era aquela rabuda..

- Puta que pariu! Que mulher era aquela. Ia revolver  toda a região para encontra la-  pensou ele.

Terêncio dava a ultima colherada quando olhou para uma parede ao lado cheia de fotografias. Uma delas fez com que largasse o prato se levantasse para olhar  de mais de perto.

Riu por dentro. O coração jovem bateu mais forte. Não tinha duvida, era ela, mesmo. Não precisaria mais percorrer a região para encontra-la


-  Linda, não é- disse a dona do estabelecimento ante a admiração de Terêncio, extasiado.

Linda? Não, maravilhosa! Quem é?

- Francisca Maria, minha única filha.  Ela e o marido morreram dez anos atrás quando voltavam de uma festa lá  no clube.  Chovia  muito. Um corisco caiu e matou os dois na hora.

Terêncio se engasgou com o copo d'água que sorvia ouvindo aquela mulher. Tudo nele se acelerou, sentiu uma pontada na cabeça e caiu desfalecido.

Quando acordou estava sem fala, a boca torta e sem os movimentos do lado direito do corpo.

Passa atualmente os dias sentado numa cadeira preguiçosa na varanda da fazenda do pai,  ainda vivo,  olhando na direção do nada.  


Ás vezes Jejebinha  esboça algo parecido com um sorriso. Talvez se lembrando das festas, das mulheres dos peões que costumava seduzir. E, daqueles momentos , atrás do clube , com aquela loira que lhe levara naquela noite a  loucura.


domingo, 15 de abril de 2012

O menino , o demônio e a loucura.


Filhos de pais católicos Francisco de Assis sempre foi  um menino especial. Quando se entendeu por gente já  estava na missa de domingo cantando as tradicionais canções católicas.  Na escola, era um ás.  Aprendia tudo com facilidade e,  numa velocidade que surpreendia os professores  e despertava inveja nos pequenos colegas da sala.

-" Quando Jesus, passar, quando Jesus, quando Jesus passar eu quero estar no  meu lugar"-   

Cantava Francisco naquela manhã de domingo com os outros colegas  de catecismo, antes do início da missa.

Sabia  todas as músicas da liturgia da tradicional  missa das crianças. Idade para fazer a Primeira comunhão não tinha mas, foi tanto seu interesse, tamanha participação no dia -a -dia da Igreja, que os catequistas, com a anuência do pároco , permitiram- no ,  aos  nove anos de idade,   fazer a Primeira Eucaristia sendo o mais novo da sala.   Era um marco na vida do menino, uma alegria sem tamanho.

No domingo seguinte àquela missa seria o grande dia.  Os pais dividiam com o pequeno Francisco toda alegria.  No quintal da casa engordavam um Capão e um leitão. A festa seria grande.

" Quando Jesus passar, quando Jesus passar eu quero estar no meu lugar"  cantava mais forte e mais alto a criançada.


De repente um silêncio total. As crianças pararam de cantar diante de um Francisco caído no chão tremendo todo o corpo.

Alguns coleguinhas assustados correram.  Outros ficaram ali enquanto os catequistas e  o padre que se preparavam  para iniciar o oficio religioso, correram em seu socorro.  Era, sem duvida, um ataque epiléptico, mas,  naquele tempo quase ninguém naquele lugar saberia identificar o que seria aquela doença.

A vida de Francisco mudou radicalmente a partir daquela manhã.  Naquele tempo as informações  não tinham a mesma velocidade de hoje. Ainda imperava a ignorância e Francisco começou a sentir isso na pele.

Por recomendação do padre os pais levaram o garoto no dia seguinte, depois da crise,  ao posto de saúde.  

Medicamentos eram raros.  Medico era  a coisa  mais difícil do mundo e quem acabava  consultando o povo eram mesmo os auxiliares de enfermagem. Alguns,  por acertarem com os remédios para verme,  dor de  barriga e dor de cabeça acabaram ficando mais famosos  e mais importantes do que os raros médicos que apareciam ali  uma vez na vida e outra  na morte.  Foi um desses auxiliares que " consultou" Francisco.

- Besteira, isso não é  nada não.  Não mande mais esse menino sem tomar café para Igreja “-


 Disse o “doutor enfermeiro”  insinuando que o desmaio tinha sido de fome.  Não foi.  Os pais de Francisco eram pobres, porém não passavam fome. Eles tentaram retrucar aquele diagnostico precipitado, no entanto   “ o doutor”   tinha pressa.  Havia  outros para consultar.

" Vá para casa e  alimente direito seu filho" disse o  auxiliar quase que empurrando  pai, mãe e filho do consultório.

"O demônio tinha se apossado do menino"  diziam os moradores mais antigos e ignorantes  do lugar.


De tanto falarem que o diabo tinha tomado posse do menino, por pura ignorância, os pais,  sentindo-se pressionados,  o tiraram da escola e  não permitiram que ele fosse mais à Igreja. Tinham medo, tinham vergonha. Temiam algum tipo de agressão contra o menino.

Sabiam que não tinha nada com demônio. Sabiam que era uma doença só não sabiam qual. Davam todo topo de beberagem para o garoto e nada. Uma agitação, por menor que  fosse,  lá estava Francisco caído, babando pelo canto da boca diante dos pais assustados. A rezadeira mais famosa do lugar não saí a da casa de Francisco. Rezava, rezava  e nada da cura. 

Isolado, discriminado por quase todos os moradores daquele lugar distante e,  o pior,  sem o devido tratamento,  o juízo de Francisco foi embora anos depois.


Ficou para trás a lembrança daquele menino bonito, inteligente, que não perdia uma missa e que  um dia chegou a dizer aos pais que queria ser padre.

Mesmo insano Francisco desenvolveu o hábito de aos domingos fugir de casa  para a porta da Igreja.  Ficava ali do lado de fora ouvindo de longe as antigas canções dominicais.

- Quando Jesus passar, quando Jesus passar...-

 Francisco ouvia,  e misturava   riso com choro.

Um dia,  nas suas andanças pela ruas do lugar, já com os seus 30 anos, Francisco se encantou com um caminhão que entregava mercadoria numa quitanda. O encanto foi tão grande que  passou o dia inteiro seguindo  discretamente o carro;   foi tão grande o fascínio  que do alto da sua insanidade,  ao perceber que o veiculo  deixaria a cidade,  começou a correr  atrás dele. 

Francisco correu desesperadamente. Não se sabe como encontrou tanta energia para alcançar o veiculo e,  sem ser visto,  subir e se esconder debaixo da lona que cobria a corroceria. Ali ficou ali dormiu até chegar ao  desconhecido destino.

Quem passa hoje por aquela praça da maior cidade do Brasil, nem imagina que aquele homem, já com os seus  50 anos, sujo, andrajoso, com uma barba até  a altura da barriga,  um dia foi um bela criança, que cantava as musicas da Igreja, era o melhor aluno da sua sala, que queria fazer a Primeira Comunhão e que um dia sonhou em ser padre

sábado, 7 de abril de 2012

As armadilhas do amor. Não adiantou nada ela fugir.

Início da tarde de uma segunda-feira de chuva naquele Estado Amazônico. Grávida, de sete meses,  Fatinha  perambulava pelas ruas do centro da cidade.

Dizia frases desconexas. Tremia de frio e sentia muita fome.  Até aquele horário não tinha comido nada. O estômago ruía , a cabeça estava  para explodir de dor.

Sabia que se um milagre não acontece corriam risco de morte ela, e o bebê que estava para nascer.

Os pingos de chuva se confundiam com as lágrimas que desciam copiosamente do seu rosto. Estava toda molhada ali debaixo daquela marquise. A chuva era de vento e aquele espaço não conseguia protegê-la.

Chegara ali naquela  cidade fugida do marido, preso por tê-la espancado e que  ameaçou matá-la quando saísse da cadeia porque esta o denunciara.  

Não quis esperar. Pegou uns poucos pertences e saiu da cidade tendo em mente encontrar uma prima numa cidade de um dos  Estados amazônico, bem distante de sua casa, do seu lugar.  A ela ia pedir abrigo.

O pior não poderia acontecer: a prima não morava mais naquela cidade. Foi embora sem deixar endereço.

Estava ali agora grávida, sem dinheiro,  com fome, sem nada;  sem ter para aonde ir. Ligar para  os parentes ?  Nem pensar!  Não queria que ninguém da sua cidade, mesmo os parentes,  soubessem  pelo menos um indício do seu paradeiro. Estava disposta a deixar para trás a vida de sofrimento desde que deixara a boa vida da casa dos pais para se casar  com aquele  que se revelaria, pouco tempo depois, um cafajeste de primeira grandeza.

O marido bebia muito, saia com outras mulheres na frente dela e , um dia ousou levar uma amante para dentro de casa e convidar a esposa para uma “festinha a três”. 

Por não aceitar aquela proposta foi que Fatinha  passou a ser vitima do marido que por qualquer motivo lhe ameaçava. Não demorou para a coisa sair do campo das ameaças. Uma, duas, três. Na quarta vez, já grávida de sete meses, Fatinha denunciou o marido que acabou preso.  Saiu de casa gritando que a mataria quando saísse da prisão. Ela não quis esperar,  fugiu.

Os últimos acontecimentos passavam como um filme na mente de Fatinha. Naquele momento, ali naquela marquise  lembrou das rezas da infância e começou  recita-las, às vezes, trocando as palavras, mas precisava se apegar aos céus.  Alguém precisava ouvi-la. Rezou até perder os sentidos. Desmaiou.

Horas depois acordou  assustada na enfermaria de um hospital. Pensou naquele momento que tinha acordado num outro mundo.

-Calma, você está bem, agora-  disse uma voz grossa e terna, ali do seu lado.

Era o tão “esperado anjo da guarda” que tanto clamara, até desmaiar.

Euclides tinha saído para comprar remédio quando vira uma pessoa caída. Aproximou-se  e viu que era uma mulher grávida. Deixou  a dor de cabeça de lado e tratou de socorrê-la levando-a ao  hospital mais próximo.

Aos 60 anos o empresário morava sozinho com o filho único, Pedro Augusto, rapaz velho de 35 anos que naquele dia estava viajando a trabalho  e por isso,  ele mesmo teve de ir comprar o remédio para dor de cabeça e quis o destino que no trajeto encontrasse aquela  estranha mulher caída debaixo da marquise de uma loja no centro da cidade.

- Onde estou?  Perguntou Fatinha.

-No hospital. Respondeu Euclides.

-Fique tranquila, você vai ficar bem, completou o velho empresário.

Depois de ouvir a história de Fatinha  Euclides, enternecido, já sabia o que faria quando ela tivesse alta. O bebê ainda demoraria mais um tempo para nascer e decidira levar a mulher para sua casa e cuidar dela até o parto.

Euclides morava numa bela e confortável casa no melhor bairro da cidade. Era viúvo. A mulher com  quem casou, ainda recém saída da adolescência,  morreu de câncer  anos depois;  e ,  ele prometeu para si mesmo que nunca mais se casaria. Seria dali por diante só ele  e o filho, na época com cinco anos de idade.

Era naquela casa que Fatinha ficaria abrigada até, na intenção do empresário, esta ganhar o bebê. Não se preocuparia com nada  ele bancaria tudo, garantiu ele àquela , até então estranha, mulher.

O filho, a princípio,  não gostou da presença da moça  na sua casa, mas depois se acostumou com a  ideia;  principalmente depois que ela deu a luz a um belo e forte menino.  O pai pediu que ela passasse mais  algum tempo ali até sentir segurança para  encontrar um rumo na vida.

O tempo passou. Fatinha, e o filho, que ganhou o nome de Euclides  em homenagem ao  seu benfeitor, se incorporaram à rotina da casa.

 O empresário adorava chegar em casa e encontrar Euclidinho, já com dois anos, brincando cheio de  saúde, no berço e a comida pronta e  quentinha;  diferente da que ele, antes de Fatinha,  tinha o custume de pedir no restaurante do bairro.

Pedro Augusto, o filho do empresário também gostava de chegar das viagens e encontrar, não Euclidinho, mas aquela  magnífica mulher chamada Maria de Fátima, Fatinha como gostava se ser chamada.  Nem parecia que   já era mãe. 

Sem perceber pai e filho desenvolveram um carinho mais do que especial por aquela mulher que a qualquer momento poderia   ir embora e deixar um vazio na casa e na vida deles.  Na verdade, pai e filho, já estavam apaixonados por Fatinha e ela já havia  percebido e,  se incomodava com a situação.

Gostava dos dois,  gostava da forma terna e carinhosa como estava sendo tratada desde sua entrada naquele  casa onde não faltava nada nem pra ela nem para o filho.

Por Euclides, desenvolveu o carinho de pai;  com relação a Pedro Augusto já havia se flagrado pelos menos umas cinco vezes pensando nele.  Uma vez sonhou fazendo amor com ele. Acordou com suas partes íntimas irrigadas  e aquilo lhe incomodou bastante.  Ficou com vergonha e sentimento de culpa.  Achava que não tinha aquele direito.

- Era hora de ir embora- pensou ela já  triste com a situação que começava a se desenhar.

Nos dias  em que pai e filho estavam de folga se tornaram comuns saírem todos juntos. O pequeno Euclides se tornou o xodó da casa e do grupo.

Os olhares de Pedro Augusto e do Pai  para Fatinha começaram a falar mais alto e ela ali percebendo tudo. O coração disparava sempre que analisava a situação.

Num desses passeios Fatinha tomou uma decisão: ia fugir. Deixaria uma carta agradecendo o apoio, o carinho deles e sumiria dali.

Tinha feito uma pequena economia com a mesada que passou a receber do empresário  em retribuição aos cuidados que tinha com a casa e com ele. Daria para recomeçar a vida numa outra cidade. Para casa não voltaria jamais. O medo do marido deixado para trás permanecia muito forte.

De triste, Fatinha passou a chorar toda a noite desde o dia que tomara a decisão de abandonar Euclides e Pedro Augusto. Estava completamente apaixonada pelo filho do empresário  e sentia que ele também nutria o mesmo sentimento por ela. No  meio dessa história estava Euclides  que a tratara tão bem e,  que também  sabia, era  apaixonado por ela.

A mulher  tinha planejado ir embora quando coincidisse pai e filho viajarem. Era comum as viagens a negócio  dos dois.

Viajaram, e mãe filho precisavam  se apressar.  Eles poderiam chegar a qualquer momento e aquela situação  não poderia mais perdurar. Mais uma vez  tinha de fugir, mas  ao contrário da primeira vez fugia por amor, fugia para não sofrer e não provocar sofrimento.

Como planejara Fatinha foi recomeçar a vida numa outra cidade distante da Amazônia,  distante  do seu amor.  Alugou um quarto e sala, deixava o filho numa creche e passava o dia inteiro no centro da cidade. Trabalhava como garçonete  numa pizzaria. Bonita, cantada não lhe faltava,  mas não queria saber de ninguém.  A cabeça só tinha espaço para Pedro Augusto.

Cinco anos  depois da fuga  da casa de Euclides e Pedro Augusto,  no final de  mais um  dia estafante de trabalho o imponderável aconteceu. Fatinha  se deparou , na saída da pizzaria,  com o único e verdadeiro amor de sua vida. Era muita coincidência.

Fatinha ficou ofegante. Perdeu as pernas, começou a tremer por inteira. Ficaram ali, por alguns instantes, olhando um para o outro como quem  hipnotizados. Sem uma única palavra os dois deixaram aquele ambiente. Os corpos diziam um ao outro que queriam dizer há anos. Foram a um motel.

Naquele dia, Fatinha  se entregou por inteira  a Pedro Augusto.  Soube o que era amar  e sentir prazer de verdade. Amaram-se até o dia seguinte, sem medo, sem traumas, sem culpa.

Depois, Fatinha soube que Euclides , o anjo que o salvara naquela noite chuvosa havia infartado há  pelo menos dois anos. 

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Sexta santa: A alma que sangra

 
A alma sangra

Um sangue sem dor

Um sangue sem cor

Uma via se  abre  na carne

Escorre a última gota do sangue sem dor...

Do sangue sem cor.