quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

É preciso chegar...Crônica de uma missão


A viagem foi longa e cansativa. Singrei por rios  e mares. Em alguns momentos, pensando que não conseguiria, pensei  até em desistir da  minha jornada natural..

Graças a Deus desisti de desistir. Precisava prosseguir, chegar logo e cumprir com meu mister.
De longe, já feliz por ter  conseguido chegar, comecei a procurar pelo melhor lugar. Voei,  voei e não encontrei nenhuma árvore;  uma pena.

O jeito foi mesmo pousar numa antena de TV e cumprir logo com  um dos deveres   que a natureza me deu: cantar.  Estava bem animado.

Nesta manhã escolhi minha melhor nota, só não
não tive muita sorte:   só uma  pessoa me ouviu.

Quem sabe amanhã outras me ouçam.


quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

DO OUTRO MUNDO



Nunca tinha  trabalhado na vida. Nada lhe faltou na infância e,  o fato se repetiu também  na adolescência.

Estudar?  Só mesmo o basicão.  Aprendeu a escrever e  a fazer as quatro operações.  Para ele, daquele jeito,  estava  bom demais.  Era filho único;  o pai era rico e jamais lhe deixaria na mão, dizia sempre ele quando um amigo mais próximo ou  parente o admoestava a estudar e,  a pensar no futuro.

Terêncio, que não se sabia  o porquê ganhara  o apelido de Jejebinha,  gostava mesmo era de dançar, namorar, beber e gastar a dinherama do pai, já  setentão.  

Nas festas gostava de “bulir”  com o que era dos outros. Jovem,  bonito e com muito boi no pasto, não era difícil seduzir as jovens mulheres dos peões das fazendas da região que em dia de folia se juntavam no único clube da  cidade.

Em alguns casos, por mais incrível que possa parecer, os próprios maridos empurravam as mulheres para “o garanhão”  que era uma gabolice só. Com aquele gesto os peões ganhavam o direito de sentar-se á mesa do menino rico e com ele beber e comer sem se preocupar com a despesa.

Sabia-se de um único caso de um desses maridos se insurgir contra os assédios de Jejebinha.  O final não foi feliz.

Ao perceber  Terêncio se jogando para cima da  mulher que tinha ido ao banheiro, o desavisado  peão,  novo no lugar, correu e em ato continuo deu um safanão no rapaz que se estatelou no chão.

- Respeita mulher de homem, cabra safado- vociferou  o valente peão.

Jejebinha nada disse. Levantou-se, olhou para uma escoriação no braço esquerdo em função da queda. Fixou um olhar frio na direção do peão. Meneou  com desdém a cabeça e de costas  se afastou  com o dedo  em riste apontando  para o casal.

Dois dias depois o peão foi encontrado  morto boiando no açude da fazenda onde trabalhava. Falavam que ele tinha levado um choque de um dos poraquês que infestava aquele açude. O caso ficou por isso mesmo.

Se alguém quisesse saber o que de fato tinha ocorrido iria descobrir que sob a mira das armas dos seguranças de Terêncio  o peão foi obrigado a beber três garrafas de cachaça, em seguida levado numa canoa até o meio da lagoa e  lá foi obrigado a pular. Uma semana depois ninguém falava  mais sobre o assunto.

Terêncio continuava com sua boa vida. Já torcia pela morte do pai para , assim, se apossar das terras, gado e tudo mais que o velho  juntara durante toda a vida.

Um dia durante mais uma grande festa na cidade, lá estava Terêncio sentado á mesa com os " sócios " e suas respectivas mulheres. Ainda não sabia com qual delas ia amanhecer o dia.

A mesa estava farta. Arrematou todos os pernis, frango assado e galinha cheia que apareceram.

O forró corria solto, o salão  de festa lotado. No meio do salão surge um casal,  ali nunca visto. O homem era alto, elegante, espadaúdo e com destreza fazia movimentos rápidos e sensuais com a parceira, uma  “puta loira” poucos centímetros menor do que ele.

Nunca tinha visto uma mulher como aquela ali na cidade, avaliou Terêncio. Será se ela sabia quem era ele. Teria alguma chance?  Não custava nada tentar. Ia esperar pelo momento certo para assedia-la.  O momento certo surgiu  quando percebeu que o
parceiro da estonteante mulher tinha se afastado.

Largou a mesa e rapidamente se aproximou da mulher.

Não demorou muito o conquistador estava no fundo do clube no maior amasso com a loira. Nunca tinha beijado tanto na vida. As mãos de ambos se movimentavam habilmente.

Jejebinha   estava prestes a explodir de tanto tensão, quando a estranha disse para ele esperar um pouquinho que precisaria ir ao banheiro. Deu mais um amasso na mulher antes  de deixa-la  sair  e ficou ali esperando.

O inesperado aconteceu. A mulher não voltou. Pela primeira vez desde que passara a frequentar festas  ia amanhecer sem levar ninguém para dormir com ele. Voltou então   ao salão de festas.  Os amigos já tinham  ido embora e os músicos guardavam os instrumentos.  Vasculhou a área para ver se encontrava a mulher,  e nada.

-Puta que pariu! Aquela bandida me deixou na mão- pensou  Jejeba em voz alta.

Terêncio  pagou a conta, montou no cavalo e a caminho da sede da fazenda do pai se lembrou que bebeu muito, mas não comeu nada.  O estômago ruía. Lembrou que um amigo havia falado de uma comidinha caseira feita com capricho num povoado ali perto. 

 Rapidamente chegou  ao local .

O rapaz sentou e enquanto aguardava a chegada do prato, reviu mentalmente os calientes  momentos  vividos com aquela estranha mulher. Ninguém soube informar quem e, de onde era aquela rabuda..

-  Que mulher era aquela.  Ia revolver  toda a região para encontrá- la,    pensou ele.

Terêncio dava a última colherada quando olhou para uma parede ao lado cheia de fotografias. Uma delas fez com que largasse o prato se levantasse para olhar  de mais de perto.

Riu por dentro. O coração jovem bateu mais forte. Não tinha duvida, era ela, mesmo. Não precisaria mais percorrer a região para encontra-la
-  Linda, não é- disse a dona do estabelecimento ante a admiração de Terêncio, extasiado.

Linda? Não, maravilhosa! Quem é?

- Francisca Maria, minha única filha.  Ela e o marido morreram dez anos atrás quando voltavam de uma festa lá  no clube.  Chovia  muito. Um corisco caiu e matou os dois na hora.

Terêncio se engasgou com o copo d'água que sorvia ouvindo aquela mulher. Tudo nele se acelerou, sentiu uma pontada na cabeça e caiu desfalecido.

Quando acordou estava sem fala, a boca torta e sem os movimentos do lado direito do corpo.

Passa atualmente os dias sentado numa cadeira preguiçosa na varanda da fazenda do pai,  ainda vivo,  olhando na direção do nada.  

Ás vezes  Jejebinha  esboça algo parecido com um sorriso. Talvez se lembrando das festas, das mulheres dos peões que costumava seduzir. E, daqueles  momentos , atrás do clube , com aquela loira que lhe levara naquela noite,  á  loucura.