quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

CONTO DE ANO NOVO: DESILUSÃO


Sentado ali na praça de alimentação de um grande shopping da "cidade que nunca dorme" , debaixo de uma temperatura de menos dois graus centigrados,  João José olhava sem ver a multidão ao seu redor.  

Mergulhava num rio de lembranças das coisas da infância e do início da adolescência.  O período  era  propício  para aquele tipo de nostalgia. Já tinha passado o Natal e agora aproximava-se o Ano Novo.

Boas lembranças do seu torrão natal, no interior de uma cidade pobre   do Maranhão.  Era o terceiro ano longe de sua terra e de tudo que amava e que deixou para traz, desde que ganhara a bolsa de estudos do Governo para se doutorar na terra do Tio Sam. Tinha sido um brilhante aluno de medicina. E sua dedicação numa linha de pesquisa sobre reprodução humana tinha lhe rendido aquela bolsa.

Pensava: tinha tudo para dá errado; reproduzir o destino dos pais,  pobres lavradores que tinham que plantar numa terra emprestada para poder  comer. 

Agora estava ali numa das maiores cidades do mundo,  estudando. A certeza de tirar os pais e os irmãos da miséria estava bem próxima.

João José lembrava intensamente dos pais, já na terceira idade;  da galinha caipira feita na hora, das piabas fritas apanhadas no brejo no fundo do quintal  e feita ao azeite de coco babaçu,  do jogo de travinha, dos  festejos, das missas e,  daquele dia que mudou sua vida: um  parente distante  ao observar seu jeito solto de ser, perguntou se ele não gostaria de ir com ele para a capital para estudar.

Ainda quis não aceitar o convite mas ao observar a situação em que vivia os  pais e os irmãos não pensou duas vezes.

Tinha certeza de que tinha feito  a opção certa. Deixar para traz a família e o grande amor de sua vida. Um amor proibido, não pela cor da sua pele negra, mas pelo fosso financeiro que separava a sua família, da família de sua doce e amada Tereza.

Os pais dela não aceitavam aquela  "cegueira"  que dominava os dois desde a infância. Queriam, diziam ao próprio  João José, coisa melhor, para  filha.  

"Coisa melhor". Aquelas palavras soavam como uma faca amolada lhe rasgando o peito, rasgando-lhe  a alma. Já pensava  naquele tempo em se casar com Tereza, construir uma vida com ela, mas não tinha falsa ilusão: se continuasse ali, naquela situação extrema de pobreza,  jamais receberia as bênçãos para desposa-la, por isso se agarrou de corpo e alma ao convite do tio para estudar na capital. Voltaria depois para buscar a amada  e com ela  realizar o sonho da infância de constituir uma família.

Sete  anos depois,  ali já na porta do shopping,  abraçado ao próprio corpo aquecido por um grosso casaco, João José  olhou para o alto, e sentiu os flocos de neve cairem no seu rosto dividindo espaço com uma solitária lágrima que naquele momento parecia queimar-lhe o rosto. 

Horas antes recebera  uma notícia que jamais imaginara: Tereza se casou, já grávida, com o filho de um antigo funcionário da fazenda dos pais dela. 

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