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sábado, 18 de março de 2023
FOLHA AO VENTO
segunda-feira, 13 de março de 2023
POR UM AMBIENTE MAIS SEGURO PARA A MULHER
ElsonMAraujo
Difícil imaginar que até 1827, aqui no Brasil, as mulheres, no
quesito escolarização sequer podiam ir além da escola primária. Uma lei, a Lei
Geral, promulgada no dia 15 de outubro daquele ano, mudou essa história. O voto,
outra conquista, foi resultado de uma grande luta travada desde a Constituinte
de 1891 e mesmo assim, só passou a
valer em 1932, quando foi positivado no primeiro Código Eleitoral Brasileiro.
É isso, o
protagonismo feminino na sociedade tem sido uma luta constante por igualdade de
gênero e oportunidades. As mulheres têm conquistado cada vez mais espaços em
áreas antes dominadas por homens, mostrando sua capacidade e talento em
diversas áreas profissionais, além de liderarem movimentos sociais e políticos
importantes. No entanto, e isso parece até uma espécie de mantra, ainda há
muito a ser feito para garantir que elas tenham acesso igualitário a recursos e
oportunidades, sem sofrerem discriminação ou violência de gênero.
segunda-feira, 6 de março de 2023
A inteligência artificial e o desafio do agora
ElsonMAraujo
Ela chegou, chegando! Já
realiza consultas médicas, faz arranjos musicais, realiza vendas on line,
e pasmem! Basta um comando com as especificações do que se quer, e em 30 segundos, às vezes até menos, é elaborada
uma fotografia como se fora produzida,
ou tirada pelos melhores fotógrafos do mundo.
Também já são centenas de textos e livros, pagos ou grátis, de
vários gêneros, à disposição do leitor. No mês passado um dos livros mais
vendidos numa determinada plataforma de vendas on line, foi um infantil,
“escrito” por uma inteligência artificial (IA). Parece assustador, mas tudo isso é uma
realidade que já integra o quotidiano de milhares de pessoas, mundo afora.
Programável, a inteligência
artificial aprende e vai se aperfeiçoando a cada acesso, a cada consulta, a
cada comando. Todas as grandes corporações da área da internet já estão
operando e disponibilizando milhares de serviços por meio dessa nova e
revolucionaria ferramenta.
Não há dúvida de que se trata de uma nova revolução de caráter
global que, se já não afeta, vai afetar fortemente o mundo do trabalho e as
relações humanas. Para não se tornar uma peça descartável os seres humanos
estão obrigados a um novo processo de adaptação ao se considerar que a chegada
da Inteligência Artificial (AI) é um dos desdobramentos mais interessantes e
assustadores da história da tecnologia. Ela tem o potencial de revolucionar
nossas vidas, mas também pode criar desafios importantes para a humanidade.
Por um lado, a Inteligência Artificial traz muitas vantagens para
o nosso mundo. Ela pode nos ajudar a resolver problemas complexos, reduzir os
custos de produção e aprimorar a qualidade dos produtos e serviços. Além disso,
pode ajudar a automatizar tarefas repetitivas e facilitar o acesso a
informações importantes.
No entanto, a Inteligência Artificial também pode trazer vários
desafios. Por exemplo, ela pode criar riscos para a segurança e privacidade,
aumentar a desigualdade de renda, reduzir o número de empregos e prejudicar a
saúde mental das pessoas. Além disso, pode gerar resultados injustos e
incorretos, se não for usada adequadamente.
Na semana passada, ao refletir
sobre o tema no brilhante texto O biocomputador e a consciência, o escritor e filosofo, membro da Academia
Imperatrizense de Letras Tasso Assunção, destacou que de fato “os computadores evoluem, tornam-se cada vez
mais capazes de produzir resultados surpreendentes e já superam grandes gênios
em termos do volume de informações que podem processar”, contudo, prossegue ele, embora “os computadores e a
inteligência artificial possam vir a executar todas as atividades mentais,
jamais serão conscientes e não poderão em tempo nenhum aprender a refletir
autonomamente”
Pelo menos esse aspecto, a da incapacidade de desenvolver a
consciência e refletir, como destaca Tasso Assunção, de alguma forma nos deixa
menos preocupados. Já imaginou se num futuro, não muito distante, além dessas
multitarefas a IA, como a gente já assiste nas produções cinematográficas, de
uma hora para outra, adquira consciência?
É ou não é assustador?
O filosofo refrigera nosso coração.
“Eles podem acumular
conhecimento, mas não estarão em hipótese alguma em um "estado de
conhecer". Em outros termos, saberão, mas jamais saberão que sabem, o que
caracteriza o Homo sapiens”
Em suma, a Inteligência Artificial pode trazer muitas vantagens,
mas também pode trazer desafios. É importante que os governos e empresas
trabalhem juntos, desde logo, para garantir que os benefícios da tecnologia
sejam aproveitados por todos, e que os riscos sejam minimizados.
sábado, 25 de fevereiro de 2023
A Guerra do Leda: Da fuga do Maranhão, ao linchamento em praça pública, em terras paraenses
Cidade de Grajau (MA) epicentro da "Guerra do Leda"
ElsonMAraujo
Chegamos ao terceiro texto onde assentamos um
fragmento da história do Maranhão ainda pouco conhecido: “A Guerra do Leda”,
que segundo a historiadora Layla Adriana Teixeira Vieira, e ainda o
patrono da Cadeira 02 da Academia Imperatrizense de Letras, João Parsondas de
Carvalho, bem como o saudoso Salvio Dino, da Academia Maranhense de Letras/
Academia Imperatrizense, se propunha a conquistar a independência política
do Sertão Maranhense.
Sobre a Guerra do Leda é admitido, pelos raros estudos encontrados, e sobretudo pelo relatos testemunhais de
Parsondas revisitados por Sálvio Dino, que ela teve como um dos epicentros a cidade de Grajaú, cognominada
também naquele tempo de Vila da Chapada, terra natal de um dos líderes da rebelião, o
rico proprietário rural e político Leão Rodrigues de Miranda Leda
Leda era ferrenho adversário do então todo poderoso Benedito Leite, o senador
da República que mandava mais do que o governador.
Os revoltosos aspiravam, nas palavras da historiadora Layla Adriana
Teixeira, uma presença maior do Estado, e que o mesmo promovesse seu
desenvolvimento por meio da aplicação de verbas que se destinassem à construção
de estradas, escolas e postos de saúde.
Mas o movimento ganhou outros contornos depois do assassinato, em
Grajaú, do promotor público Estolano Eustáquio Polary, no dia 16 de
agosto de 1898.
É que o senador Benedito Leite aproveitou para atribuir o mando do crime
a Leão Leda e seu grupo político.
Leda, conforme já contei, tentou se defender legalmente, mas quando
percebeu que na verdade havia era uma sentença de morte e não uma ordem de prisão, fugiu com mais de 20
homens armados. Iniciava ali, a maior caçada humana já registrada no alto
sertão maranhense, com grande derramamento de sangue inocente.
Para capturar Leda e seus homens, Benedito Leite enviou várias guarnições
para a região. Com o grupo fortemente armado, Leda conseguia sempre escapar do
cerco policial. Os registros de Parsondas, revisitados por Sálvio Dino no livro
Parsondas de Carvalho, um novo olhar sobre o sertão, narram a ocorrência
de vários conflitos entre a Polícia e os
fugitivos, com mortes de ambos os lados.
Com o agravamento da situação diante da resistência de Leda, é que surgiu a ordem para “castigar” quem desse abrigo para o fugitivo. Bastava uma suspeita para a liberação da licença para matar, estuprar, torturar e tomar a terra, na sua maioria, de pequenos proprietários rurais. Muitas das vítimas chegaram a ser degoladas e castradas.
Na obra Guerra do Leda, um relato contemporâneo de Parsondas de Carvalho sobre a rebelião que deu nome ao livro, com riqueza de detalhes ele conta um desses episódios, ocorrido num povoado próximo a Carolina. Ali, um idoso, sob a suspeita de ter abrigado Leda e seus homens, depois de ser torturado, foi estripado por um soldado e depois atado a uma estaca para ser comido, segundo eles, pelos urubus, com a recomendação que, quem o tirasse dali para ser sepultado, passaria pelo mesmo suplicio.
Na cidade Carolina, um padre que a Polícia suspeitou de ter dado abrigo ao grupo do Leda, para não morrer na hora, com a Igreja cercada, fugiu só de batina.
A Guerra do Leda poderia ter sido totalmente varrida da história do Maranhão se não fosse o espirito inquieto do patrono da cadeira 02 da Academia Imperatrizense de Letras, Parsondas de Carvalho. Antes de escrever Guerra do Leda, para denunciar os crimes do Estado Maranhense contra a população pobre do alto sertão, ele escreveu e publicou vários artigos, principalmente em A Pacotilha, jornal que fazia oposição ao senador Benedito Leite. Mais do que isso, a cavalo, Parsondas, um misto de jornalista, historiador, geógrafo e rábula (advogado) foi ao Rio de Janeiro e conseguiu também publicar seus artigos no influente Jornal do Brasil.
Os textos de Parsonda, depois juntados em a Guerra do Leda, e posteriormente resgatados pelo advogado, político e historiador Sálvio Dino, em 2007, são considerados importantes pelos historiadores por abrigarem as poucas referências sobre esse período sangrento da história do Maranhão , ocorrido entre o final do século XIX e início do século XX, aqui neste lado Maranhão.
Guerra do Leda ainda é um campo amplo e aberto para os pesquisadores e historiadores maranhenses.
Bem, e o que aconteceu com Leão Leda? Os homens de Benedito Leite depois de dezenas de mortes, dos dois lados da refrega e ainda do assassinato de dezenas de inocentes sem nenhum envolvimento na história, não conseguiram capturá-lo. Consta que entre 1898 e 1889 ele vagou pelo sul do Maranhão e norte do Goiás, fugindo da polícia maranhense, até que em 1900 fixa-se em Boa Vista do Tocantins, hoje Tocantinópolis (TO) onde refez sua vida e até tornou-se prefeito do lugar.
Depois, essa informação encontrei na enciclopédia eletrônica Wikepedia, já no final de 1908, Leão Leda foi morar em Conceição do Araguaia, terra paraense que por algum tempo chegou a pertencer ao Estado de Goiás. Seu forte ativismo nunca o afastou dos levantes políticos. Alí, se envolveu numa outra luta emancipacionista para criar um novo estado, que englobaria o sudeste do Pará e o norte do Goiás. Comprou briga com o prelado Domingos Carrerot que o “acusou de ser maçom e judeu”, briga que não teve um final feliz.
Consta que no dia oito de Março de 1909, por volta das 11 horas da manhã, incentivados por Dom Carrerot, um grupo de homens fortemente armado cercou a casa de Leda. Depois de 24 horas de conflito, todos que estavam na casa estavam mortos.
Leda e o filho Mariano foram capturados e linchados em Praça Pública, dia nove de março de 1909. Terminava ali a vida do homem que quis emancipar o sertão maranhense e depois, territórios do Pará e do Goiás.
domingo, 19 de fevereiro de 2023
“A Guerra do Leda”: Assassinatos, estupros, castrações e esbulhos no alto sertão maranhense, no fim do século XIX
ElsonMAraujo
Superficialmente
é estudado nas escolas que o alto sertão maranhense, região que compreende o
sul do Estado, foi um dos últimos rincões do Estado a alcançar algum tipo de
desenvolvimento. “A costa sempre esteve
de costas para este lado do Estado”. Isso incomodava muito, como até hoje
incomoda, a gente da nossa região. Se na atualidade as ações do poder
público ainda são escassas por aqui, imagine isso no final do século XIX e
começo do século XX. A sensação era de
total abandono. O motivo da chamada “Guerra do Leda” foi esse sentimento, marcado
por ferrenhas disputas políticas.
Segundo a historiadora Layla Adriana Teixeira Vieira, num estudo acadêmico apresentado no simpósio nacional de história, em Natal (RN), em 2013, o movimento defendia, perceba a ousadia e o idealismo das lideranças da época, a independência política do sertão maranhense tendo como fundamento esse abandono regional e a carência de desenvolvimento.
Certamente
essa movimentação não poderia passar ao largo dos olhos do governo maranhense,
que tratou logo de sufocá-lo. Mas esse não é o alvo da coluna de hoje. O destaque é para, diria, um fragmento, ainda
pouco estudado, ou melhor um dos desdobramentos do levante pela emancipação do
alto sertão maranhense que resultou num banho de sangue humano sob a “batuta” do então senador,
naqueles idos um poderoso chefe político maranhense, Benedito Pereira Leite.
Essa guerra, custou a vida de dezenas de inocentes. Foram inúmeros assassinatos, estupros, torturas. Além disso, muita gente teve as propriedades esbulhadas pelos soldados de Benedito Leite. Muitos dos que resistiam, eram castrados (capados) na frente de todo mundo.
Esse pedaço da história do Maranhão foi registrado/denunciado pelo escritor, professor, jornalista, geógrafo e rábula (advogado) João Parsondas de Carvallho, no livro “A guerra do Leda”, e revisitado em 2007 .pelo fundador da Cadeira 02 da Academia Imperatrizense de Letras , Sálvio Dino, que hoje ocupo e que tem como patrono Parsondas de Carvalho. O texto de hoje é desdobramento do anterior , reveja (https://oprogressonet.com/noticia/28562/riqueza-literaria-do-maranhao).
Pois, bem, como já fora dito, o saudoso Sálvio
Dino, no livro livro Parsondas de Carvalho, um novo olhar sobre o sertão,
revisita o livro A Guerra do Leda. A obra é um relato cruel desse
esquecido fragmento da nossa história, ocorrido no final do século XIX, cuja
motivação inicial era emancipar a região sul do Maranhão, mas que acabou em
muito derramamento de sangue.
O livro reportagem, Parsondas de Carvalho, um novo olhar sobre o sertão, de Sálvio Dino, pode ser considerado o principal documento produzido pelo fundador da Cadeira 02 da AIL, sobre seu patrono, testemunha dos acontecimentos daquele tempo em que o Maranhão era governado por João Gualberto Torreão da Costa, mas quem mandava era o poderoso chefe político e senador Benedito Pereira Leite. Sigamos pelo túnel da história!
Na
construção do livro reportagem, Salvio Dino, com o olhar do patrono, percorreu
toda a região, visitou famílias, resgatou informações inéditas e até visitou o
túmulo de Parsondas, que morreu em junho de 1916, na vizinha Montes Altos, onde
está sepultado.
Toda a
atrocidade ocorrida na “guerra do leda”, na apuração do acadêmico Sálvio Dino,
foi denunciada por Parsondas de Carvalho nos jornais de São Luís, principalmente
em A Pacotilha. Tamanha a vontade de tornar público e fazer barrar esses
acontecimentos aqui na região, que ele, a cavalo, foi “bater no Rio Janeiro”
para denunciar o episódio, no então Jornal do Brasil, um dos mais importantes
jornais da sua época. Por essas terras, os relatos sobre a guerra do leda poderiam
ter sido varridos para debaixo do tapete da história, se não fosse a coragem de
Parsondas.
O episódio é assim chamado “guerra do leda” porque um dos protagonistas foi o grajuense Leão Rodrigues de Miranda Leda , um rico político e proprietário de terras desta região. De orientação liberal/republicana, Leda era ferrenho adversário de Benedito Leite e do governador da época.
Pode se dizer que o banho de sangue e outras atrocidades levadas a efeito sob o incentivo de Benedito Leite, e o patrocínio do Governo do Maranhão, teve início a partir do assassinato do promotor de Justiça, Estocolmo Eustáquio Polary, em 16 de agosto de 1898, em Grajau. Na conjuntura da época, “prato perfeito” para o poderoso chefe político se livrar de um adversário, que há muito vinha lhe incomodando. A estratégia para isso, foi acusar Leda, o genro dele Tomaz Moreira , e todo seu grupo, pela encomenda do crime.
Já havia um conflito político por causa da luta pela emancipação da região, que tinha Leão Leda como um dos líderes, mas o caldo engrossou mesmo, foi depois do assassinato do promotor público. Naquele tempo, algumas dessas disputas eram resolvidas na base da bala. Agora, imagine isso quando a peleja tinha numa ponta um prestigiado e influente chefe político, e na outra, um rico proprietário de terras, adversário ferrenho dos mandatários do Maranhão.
Leão Leda não era bobo. Isso fica claro na obra de Salvio Dino/Parsondas. Ele Sabia da existência do devido processo legal e que não poderia ser acusado unilateralmente de um crime, que dizia não ter praticado, e não poder se defender. Fez uma visita ao magistrado do lugar, impetrou habeas corpus, enfim, tentou se defender legalmente, mas quando viu que o legal não resolveria, se apropriou de um método de defesa muito utilizado nos rincões do Brasil, naquele tempo. Ele contratou, pelo menos, duas dezenas de pistoleiros para fazer a sua segurança. Se tornou um fugitivo da Polícia. Sabia que a ordem dos Leões, no caso de prisão, seria sua execução. Havia ali uma implícita “sentença de morte” conta Leão Leda que não ficou na cidade para “pagar para ver” .
Como o espaço da coluna acabou, não é possível contar o desfecho dessa história na edição de hoje. Na semana que vem, o final dessa história.
sexta-feira, 17 de fevereiro de 2023
Os 408 anos da guerra que expulsou os franceses da costa maranhense
Pintura de autoria de Armando Viana. A acervo do
Museu de História do Rio de Janeiro
ElsonMAraujo
Novembro foi embora e pouco se lembrou do
aniversário dos 408 anos da Batalha de Guaxenduba, evento bélico, que
segundo a história, determinou a expulsão dos franceses da Costa Norte do
Brasil, a partir da Ilha de São Luís, onde eles já estavam assentados desde
setembro de 1612, sendo atribuída a eles, dessa forma, a fundação da nossa
capital.
Os registros históricos apontam o 19 de novembro de
1614 como o dia D, da batalha. De um lado, os franceses, comandados por Daniel de La
Touche, que contavam com o reforço dos índios Tupinambás,
nativos da Ilha de Upaon-Açú, e do outro, os portugueses, sob o comando do
capitão-mor Jerônimo de Albuquerque e do sargento-mor Diogo Campos Moreno, com
o apoio dos povos Tabajaras e Tremembés. Daí, é possível imaginar o quanto foi
sangrento esse importante evento da história do Brasil.
A Guerra de Guaxenduba ocorrida na costa maranhense frustrou o sonho da
França Equinocial intentado pelos franceses, que já vinham de várias incursões
para se apoderar de terras, até então sob o domínio Português/Espanhol. Dessa
aventura, restou somente a Guiana, Departamento Ultramarino do Governo Francês,
que faz fronteira com o município de Oiapoque, no Amapá.
Há uma unanimidade entre os Historiadores ao
afirmarem que se não fora a expulsão dos franceses, a partir da Batalha de
Guaxenduba, hoje grande parte do norte e do nordeste do Brasil teria o francês
como língua oficial, já que eles ambicionavam, não só o domínio da “Grande
Ilha”, mas de toda Costa Norte do Brasil, incluindo a região Amazônica.
Jerônimo
de Albuquerque Maranhão, Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão (IHGM, o
verdadeiro herói de Guaxenduba
Belém, a capital do Pará, por exemplo, fundada em
12 de janeiro de 1616, portanto dois anos depois da Batalha de Guaxenduba,
segundo o professor e historiador Joâo Renôr Ferreira de Carvalho, membro
fundador da Academia Imperatrizense de Letras, e já falecido, foi uma
estratégia dos portugueses para consolidar, efetivamente, a presença lusitana nos
dois primeiros núcleos iniciais da COSTA NORTE, ou seja, São Luís (MA) e
Belém (PA).
De posse dessa informação histórica, não é errado
dizer que Belém “é filha da Batalha de Guaxenduba”, pois foi a partir dela que
a coroa portuguesa abriu os olhos e se precipitou a evitar que não só os
franceses, mas também os ingleses e holandeses, se apoderassem no todo, ou em
parte, das terras do hoje norte/nordeste do Brasil, no século XVII.
A leitura
atenta do livro a Ação e Presença dos Portugueses na Costa Norte do Brasil
no século XVII, (Edufpi e Ethos Editora) publicado em 2014, obra do já
mencionado historiador, revela isso a partir da citação de diversos documentos
e fontes históricas.
O historiador/pesquisador, considerado um dos
maiores do Maranhão, morreu em 20 de março de 2016, mas deixou apontamentos
importantes sobre a história do Brasil com a perspectiva do olhar
amazônico.
Uma das últimas obras do professor Renôr foi essa já
citada em que ele revela nuances dos dias, horas e minutos e as circunstâncias
que marcaram Guaxenduba, muitas delas não estudadas nas escolas.
Nesta batalha campal de 19 de novembro de 1614 pela
manhã a grande perda de vidas foi do lado francês. Morreu em luta Monsieur de
Pisieux e mais cento e quinze combatentes. O sargento-Mor português cronista da
guerra (Diogo Campos) afirma que a luta renhida durou pouco mais de uma hora
(CARVALHO,
João Renôr Ferreira. Imperatriz: Édupi, Ethos editora, 2014, p. 83)
Por uma dessas felizes coincidências, nesse
novembro que acabou, mês em que a célebre batalha completou 408 anos, passaram
por minhas mãos, além do livro do professor Renôr, duas outras obras que também
citam a esquecida Guaxenduba.
Souza Lima (Manoel de Souza Lima), que é nome de
escola e de rua em Imperatriz, patrono da Cadeira Número 01 da Academia
Imperatrizense de Letras, considerado o primeiro morador de Imperatriz a publicar
um livro, é autor de O Tupinambá, romance indigenista publicado em 1934.
Embora sendo um romance, o escritor faz referência
a Guaxenduba ao misturar personagens reais com fictícios. O índio tupinambá
Tempui, depois chamado de Itapecu, e que quando batizado adotou o nome de Luís
Maria, personagem central da ficção, por exemplo, morre nessa batalha, deixando
viúva a doce Amujaci, filha da grande “Nação Guajajara”. Antes de partir com o amado para a Grande
Ilha, Amujaci era aldeada, conforme o romance, às margens do rio Grajaú.
O Tupinambá é uma obra Indigenista flagrantemente
inspirada em José de Alencar e outros ilustres brasileiros que escreveram sobre
o tema. Se publicado em tempos atuais, na avaliação do poeta e escritor Ribamar
Silva, membro da AIL, o autor seria laureado nacionalmente.
A obra é importante por natureza e ganha ainda
maior importância por causa do seu caráter histórico, a começar pela descrição
fiel da geografia da Ilha de São Luís e da região de Grajaú, notadamente as
margens do rio Grajaú, naquela época, ambientalmente muito diferente do que é
hoje. Souza Lima, certamente, para registrar e construir a narrativa em torno
dos seus personagens, deve ter vivenciado aquela, ou aquelas, até então
belíssimas e quase intocadas paisagens.
O original da obra foi resgatado na Biblioteca
Benedito Leite, em São Luís, pelo professor Fernando Fernandes. Empolgado com o
achado, e com o apoio de empresários de Imperatriz, a republicou em 2014 pela
Ética Editora. O livro chegou às minhas mãos através do confrade Domingo César
com a recomendação de que fosse devolvido, já que é “filho único” do acervo da
academia Imperatriz de letras.
A terceira obra que mencionei sobre Guaxenduba e
sua importância para o país, é Pelos Caminhos da História, nos bastidores do
Brasil Colônia, Império e República, lançado pela Editora Civilização
Brasileira, em 2015, e de autoria do diplomata e historiador brasileiro
Vasco Mariz que morreu em 2017, aos 96 anos. Vasco era um apaixonado pelos
fatos históricos e serviu em vária embaixadas brasileiras na Europa. Com natural curiosidade histórica,
tinha o costume de pesquisar “fios soltos” da história do Brasil nascendo daí
diversas conferências no Brasil e no exterior.
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023
Sálvio Dino e a passagem da “coluna prestes” pelo alto sertão maranhense
A Coluna Prestes esteve no Maranhão
ElsonMAraújo
O advogado, político,
jornalista, historiador, membro da Academia Maranhense de Letras, fundador da Cadeira
Número dois da Academia Imperatrizense de Letras (AIL) Sálvio Dino, desde a
adolescência desenvolveu um acentuado senso crítico diante das verdades prontas
da história que a ele chegavam pelos bancos da escola. Principalmente
aquelas havidas, ou encerradas no alto sertão maranhense, como também é
conhecida a região sul do Maranhão, onde nasceu.
Sálvio Dino, que nos deixou no período agudo da pandemia do coronavírus, levou essa inquietação para a vida adulta, e paralela às suas atividades jurídicas e políticas, com um acurado faro jornalístico e de historiador, foi coletando informações e lançando luzes sobre eventos importantes que tiveram o alto sertão maranhense como palco.
O advogado Sálvio Dino, escreveu sobre a Coluna Prestes no Maranhão
Para não me estender, na
coluna de hoje trago a lembrança de dois fatos que conduziram o atilado
acadêmico a produzir dois importantes registros para a história da banda sul do
Maranhão. Em Parsondas de Carvalho, um novo olhar sobre o sertão, livro
publicado em 2007, Sálvio Dino, resgata “a guerra do Leda”, disputa
política sangrenta que na virada do século XIX para o XX, sob a batuta do então senador Benedito Leite, regou com o sangue de dezenas de inocentes, o chão
do Alto Sertão do Maranhão. O ou outro registro, é sobre os aspectos da
passagem da “coluna revolucionária prestes” pela região.
A guerra do Leda vai ficar
para uma outra oportunidade. Vou me ater levemente hoje ao segundo evento,
prestes a completar cem anos, e que rendeu em 2016, portanto uma das últimas
obras do autor, o livro A Coluna Revolucionária Prestes a Exilar-se
(Passagem pelo sul do Maranhão). O livro é prefaciado pelo tembém membro da
Academia Imperatrizense de Letras Agostinho Noleto.
A Coluna
Prestes foi um movimento revoltoso
organizado por tenentistas (militares) que percorreu o interior do Brasil,
entre 1925 e 1927, combatendo as tropas e denunciando o que o grupo considerava
desmandos do governo de Artur Bernardes e Washington Luís.
Luis Carlos Prestes, o Cavaleiro da Esperança
Durante
a chamada Primeira República, os revoltosos percorreram mais de 25 mil
quilômetros protestando e tentando levantar o povo contra o poder central. Os
tenentes, liderados por Luís Carlos Prestes, passaram por esta região. Na sua obra, Sálvio Dino resgata aspectos da
passagem tenentista por aqui.
Ao fazer memória da sua
meninice, lá pra bandas de Grajaú, onde o pai Nicolau Dino, era juiz de
Direito, Salvio Dino, no seu dizer poético registra:
“vivia eu, menino de calças curtas, ouvindo
histórias cabeludas sobre a passagem dos chamados revoltosos pelo nosso chão e
por outras cidades sertanejas. Minha insatisfeita curiosidade pré-juvenil,
levava-me a perguntar á mestra Caetana Costa, bem ali, na ladeira de barro, da
cidade alta: professora, é verdade que os homens da Coluna, além de roubar
cavalos, gados das fazendas, comiam criancinhas, quando tinham fome e nada
encontravam para comer? (DINO, Sálvio, 2016, p.25)
Em a Coluna Revolucionária
Prestes a Exilar-se Dino vai fundo nas fontes. Revisita diversos autores
maranhenses, ou não, que já escreveram sobre o tema, e ainda esteve em algumas
das cidades, como Grajaú, Balsas, Riachão e Carolina; cidade onde os revoltosos
foram carinhosamente recebidos, abrigados e alimentados pelas lideranças
simpáticas ao movimento. Além disso, pesquisou diversos documentos produzidos
por testemunhas daquele fragmento histórico.
Naquele tempo, se a revolta
dos tenentes não era considerada uma ameaça, pelo menos já incomodava muito o
governo.
Com base na pesquisa do autor
é possível perceber que naquela época uma das estratégias do poder dominante já
era espalhar notícias falsas para desestabilizar qualquer movimento de
cunho político contrário ao governo.
Daí, não se estranhar a
pergunta do então infante Sávio Dino a sua professora “se era verdade que os
homens da coluna comiam criancinhas”.
Não, não comiam criancinhas!
Os tenentes da Coluna Prestes, mesmo que episodicamente nos 25 mil quilômetros
de marcha tenham cometido alguns excessos, tinham um ideal.
Sobre os ideais da revolta, Salvio Dino resgata
um discurso proferido no dia 19 de novembro de 1925, em Carolina por um dos
líderes da coluna, o então coronel Juarez Távora, bem como cópia de um manifesto
ao povo maranhense publicado em o Libertador, órgão de comunicação
da revolução, naquela ocasião impresso nas oficinas de O Tocantins,
jornal semanário carolinense famoso, à época.
O manifesto publicado em
Carolina, e resgatado por Salvio Dino, foi assinado pelo general Miguel Costa e
pelos coronéis Luiz Carlos Prestes e Juarez Távora, os líderes da coluna.
Veja logo abaixo um trecho do
longo documento.
A democracia foi
substituída por um conluio reduzido de autocratas- duvidosa elite, surgida de
uma seleção rigorosamente negativa. O voto é uma farsa e a soberania das urnas
é uma conversão facultativa e vaga á que se sobrepõe, sempre, as conveniências
e caprichos dos senhores absolutos
A Justiça nem é cega,
nem enxerga bem: possui, para a infelicidade do povo, a visão obliterada dos
que olham, ao mesmo tempo para o montão de ouro com que se compram os venais
para a espada de Dâmocles que ameaça a cabeça dos independentes.
A administração é um
descalabro. Os impostos escorchantes são uma indústria, mas vergonhosa com que
se se esgota a economia do povo para enriquecer os políticos sem escrúpulos
(DINO, Sálvio, 2016, p.130)
Como é sabido, o movimento
fracassou. No final de 1926, com mais de um ano de marcha, as lideranças
passaram a discutir seu fim. O governo de Artur Bernardes estava prestes a ser
encerrar, e, além do mais, a Coluna havia falhado em criar um projeto político
de tomada de poder. A romântica empreitada não conseguiu mobilizar a população
como esperado. Resultado?
Em fevereiro de 1927, os
membros da Coluna Prestes depuseram as armas e buscaram exílio na Bolívia.
O Espaço é pequeno para uma
viagem maior nos apontamentos de Sálvio Dino nesta sua importante obra sobre a
passagem da coluna prestes pelo Alto Sertão Maranhense. Um episódio com vários desdobramentos
políticos para a história do Brasil e a vida de seus protagonistas, como bem deixa
dito o escritor.
Depois da aventura da Coluna Prestes,
a história mostra que seus principais líderes permaneceram nas lides políticas,
mas em campos ideológicos diferentes.
Luís Carlos Prestes saiu da
Coluna com o apelido de “Cavaleiro da Esperança” e tornou-se um dos grandes
nomes da luta popular brasileira ao longo do século XX. A marcha pelo interior do Brasil ao se
deparar com o imenso fosso das desigualdades, segundos os historiadores, o
levou a se “converter ao marxismo” em 1930, e assumir-se comunista. Na mesma década, esteve
envolvido com uma tentativa de tomada do poder no Brasil e diversas outras
lutas. Foi perseguido e preso pelo regime de Vargas. É considerado uma das
personalidades políticas mais influentes do País durante o século XX. Morreu,
no Rio de Janeiro, em 7 de março de 1990.
O outro líder do movimento, o
eloquente Juarez Távora seguiu por outro caminho. Pela sua participação na
Coluna Prestes chegou a ser preso, mas acabou sendo libertado, já no governo de
Washington Luís. Na sequência da
militância política , nas eleições de 1930, foi eleito deputado federal no
Ceará, porém não chegou a assumir o mandato em razão da Revolução de 1930 que que dissolveu o Parlamento. Passou um tempo no exílio
na Argentina, mas depois voltou. Na Era
Vargas, ocupou os ministérios da Agricultura e dos Transportes e depois voltou
para o Exercito. Foi ainda candidato a presidente da República tendo perdido a
eleição para o mineiro Juscelino Kubitschek.
Morreu, assim
como Prestes, no Rio de Janeiro em Julho
de 1975
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