sábado, 18 de março de 2023

FOLHA AO VENTO



ElsonMAraujo
Hoje, logo cedo, vi a folha de uma antiga árvore cair solitariamente. Desgarrada das outras folhas irmãs, ela  foi arrastada rapidamente pelo vento para longe da velha árvore, e dos galhos que por algum tempo lhe  deram sustentação, lhe alimentaram e lhe deram vida.
O fenômeno por algum motivo,verdadeiramente, me entristeceu. Mas depois veio a alegria: surgiu uma outra breve rajada de vento e a folha voou indo pousar  calmamente aos pés de uma outra árvore , e ali ficou.  Aí  pude compreender que ela acabara de cumprir uma jornada , e imediatamente começava outra.

segunda-feira, 13 de março de 2023

POR UM AMBIENTE MAIS SEGURO PARA A MULHER

                                     

ElsonMAraujo

 Considero que mais do que uma data festiva, o oito de março, o Dia Internacional da Mulher comemorado nesta semana, deveria reservar um espaço não só para as festividades, mas também para se refletir sobre a manutenção de todas as conquistas históricas já efetivadas por elas, sem desprezar a   luta    permanente pela construção de um ambiente mais seguro. Quando falo em ambiente seguro, me refiro à   integridade física, mesmo.

 Os números, e o noticiário do dia a dia, demonstram que apesar das diversas ferramentas de proteção, e aí entram principalmente as leis, ainda não houve um freio nos casos de violência contra as mulheres, que só se acumulam.  

 Na atualidade, as mulheres ainda são obrigadas a conviver num ambiente marcado, diria, por um nocivo preconceito ancestral do qual derivam o machismo, comportamentos considerados misóginos (ódio contra as mulheres) e outras nocividades que, em algumas ocasiões, resultam até em assassinatos. É fato que as conquistas das mulheres ao longo dos séculos são inúmeras, mas “o ecossistema feminino” ainda é marcado pela selvageria masculina.

 Por tudo que representa a mulher, no consciente e no inconsciente masculino, não resta dúvida que além do carinho, ela precisa ser tratada com respeito e ter a vida preservada.

 Cumpre ressaltar que as conquistas femininas são fruto de um trabalho árduo, que precisa ser realmente reconhecido e celebrado. Mas também é necessário trabalhar para se criar esse ambiente mais acolhedor, e como já disse, seguro para todas as mulheres para que, assim. possamos avançar na luta pela igualdade de direitos.

 Apesar da mulher ainda conviver num ambiente inseguro,   do ponto de vista da preservação da sua  integridade física,  cabe destacar  seu protagonismo histórico pelas lutas e garantias de direitos.

Difícil imaginar que  até 1827, aqui no Brasil, as mulheres, no quesito escolarização sequer podiam ir além da escola primária. Uma lei, a Lei Geral, promulgada no dia 15 de outubro daquele ano, mudou essa história. O voto, outra conquista, foi resultado de uma grande luta travada desde a Constituinte de 1891 e  mesmo assim,  só passou a  valer em 1932, quando foi positivado no primeiro Código  Eleitoral Brasileiro.

 É isso, o protagonismo feminino na sociedade tem sido uma luta constante por igualdade de gênero e oportunidades. As mulheres têm conquistado cada vez mais espaços em áreas antes dominadas por homens, mostrando sua capacidade e talento em diversas áreas profissionais, além de liderarem movimentos sociais e políticos importantes. No entanto, e isso parece até uma espécie de mantra, ainda há muito a ser feito para garantir que elas tenham acesso igualitário a recursos e oportunidades, sem sofrerem discriminação ou violência de gênero.

 

segunda-feira, 6 de março de 2023

A inteligência artificial e o desafio do agora


ElsonMAraujo

Ela chegou, chegando!  Já realiza consultas médicas, faz arranjos musicais,  realiza vendas  on line,  e pasmem! Basta um comando com as especificações do que se quer, e em  30 segundos, às vezes até menos, é elaborada uma fotografia como se fora  produzida, ou tirada pelos melhores fotógrafos do mundo.

Também já são centenas de textos e livros, pagos ou grátis, de vários gêneros, à disposição do leitor. No mês passado um dos livros mais vendidos numa determinada plataforma de vendas on line, foi um infantil, “escrito” por uma inteligência artificial (IA).  Parece assustador, mas tudo isso é uma realidade que já integra o quotidiano de milhares de pessoas, mundo afora.

 Programável, a inteligência artificial aprende e vai se aperfeiçoando a cada acesso, a cada consulta, a cada comando. Todas as grandes corporações da área da internet já estão operando e disponibilizando milhares de serviços por meio dessa nova e revolucionaria ferramenta.

Não há dúvida de que se trata de uma nova revolução de caráter global que, se já não afeta, vai afetar fortemente o mundo do trabalho e as relações humanas. Para não se tornar uma peça descartável os seres humanos estão obrigados a um novo processo de adaptação ao se considerar que a chegada da Inteligência Artificial (AI) é um dos desdobramentos mais interessantes e assustadores da história da tecnologia. Ela tem o potencial de revolucionar nossas vidas, mas também pode criar desafios importantes para a humanidade.

Por um lado, a Inteligência Artificial traz muitas vantagens para o nosso mundo. Ela pode nos ajudar a resolver problemas complexos, reduzir os custos de produção e aprimorar a qualidade dos produtos e serviços. Além disso, pode ajudar a automatizar tarefas repetitivas e facilitar o acesso a informações importantes.

No entanto, a Inteligência Artificial também pode trazer vários desafios. Por exemplo, ela pode criar riscos para a segurança e privacidade, aumentar a desigualdade de renda, reduzir o número de empregos e prejudicar a saúde mental das pessoas. Além disso, pode gerar resultados injustos e incorretos, se não for usada adequadamente.

Na semana passada, ao refletir sobre o tema no brilhante  texto  O biocomputador e a consciência,  o escritor e filosofo, membro da Academia Imperatrizense de Letras Tasso Assunção,  destacou que de fato  “os computadores evoluem, tornam-se cada vez mais capazes de produzir resultados surpreendentes e já superam grandes gênios em termos do volume de informações que podem processar”, contudo,  prossegue ele, embora “os computadores e a inteligência artificial possam vir a executar todas as atividades mentais, jamais serão conscientes e não poderão em tempo nenhum aprender a refletir autonomamente”

Pelo menos esse aspecto, a da incapacidade de desenvolver a consciência e refletir, como destaca Tasso Assunção, de alguma forma nos deixa menos preocupados. Já imaginou se num futuro, não muito distante, além dessas multitarefas a IA, como a gente já assiste nas produções cinematográficas, de uma hora para outra, adquira consciência?

É ou não é assustador?

O filosofo refrigera nosso coração.

“Eles podem acumular conhecimento, mas não estarão em hipótese alguma em um "estado de conhecer". Em outros termos, saberão, mas jamais saberão que sabem, o que caracteriza o Homo sapiens”

Em suma, a Inteligência Artificial pode trazer muitas vantagens, mas também pode trazer desafios. É importante que os governos e empresas trabalhem juntos, desde logo, para garantir que os benefícios da tecnologia sejam aproveitados por todos, e que os riscos sejam minimizados.

 

 

 

 

 

 

 



sábado, 25 de fevereiro de 2023

A Guerra do Leda: Da fuga do Maranhão, ao linchamento em praça pública, em terras paraenses

 

                                       Cidade de Grajau (MA) epicentro da "Guerra do Leda"

       

ElsonMAraujo

 

Chegamos ao terceiro texto onde assentamos um fragmento da história do Maranhão ainda pouco conhecido: “A Guerra do Leda”, que segundo a historiadora Layla Adriana Teixeira Vieira, e ainda o patrono da Cadeira 02 da Academia Imperatrizense de Letras, João Parsondas de Carvalho, bem como o saudoso Salvio Dino, da Academia Maranhense de Letras/ Academia Imperatrizense, se propunha a conquistar a independência política do Sertão Maranhense.

Sobre a Guerra do Leda é admitido, pelos raros estudos encontrados,  e sobretudo pelo relatos testemunhais de Parsondas  revisitados por Sálvio Dino, que  ela teve como um dos  epicentros a cidade de Grajaú, cognominada também naquele tempo de Vila da Chapada,  terra natal de um dos líderes da rebelião, o rico proprietário rural e político  Leão Rodrigues de Miranda Leda 


Leda era ferrenho adversário do então todo poderoso Benedito Leite, o senador da República que mandava mais do que o governador.


Os revoltosos aspiravam, nas palavras da historiadora Layla Adriana Teixeira, uma presença maior do Estado, e que o mesmo promovesse seu desenvolvimento por meio da aplicação de verbas que se destinassem à construção de estradas, escolas e postos de saúde.  Mas o movimento ganhou outros contornos depois do assassinato, em Grajaú, do promotor público Estolano Eustáquio Polary, no dia 16 de agosto de 1898.  É que o senador Benedito Leite aproveitou para atribuir o mando do crime a Leão Leda e seu grupo político.


Leda, conforme já contei, tentou se defender legalmente, mas quando percebeu que na verdade havia era uma sentença de morte e não uma  ordem de prisão, fugiu com mais de 20 homens armados. Iniciava ali, a maior caçada humana já registrada no alto sertão maranhense, com grande derramamento de sangue inocente.

Para capturar Leda e seus homens, Benedito Leite enviou várias guarnições para a região. Com o grupo fortemente armado, Leda conseguia sempre escapar do cerco policial. Os registros de Parsondas, revisitados por Sálvio Dino no livro Parsondas de Carvalho, um novo olhar sobre o sertão, narram a ocorrência de vários conflitos entre  a Polícia  e os  fugitivos, com mortes de ambos os lados.

 Com o agravamento da situação diante da resistência de Leda, é que surgiu a ordem para “castigar” quem desse abrigo para o fugitivo. Bastava uma suspeita para a liberação da licença para matar, estuprar, torturar e tomar a terra, na sua maioria, de pequenos proprietários rurais. Muitas das vítimas chegaram a ser degoladas e castradas.

 Na obra Guerra do Leda, um relato contemporâneo de Parsondas de Carvalho sobre a rebelião que deu nome ao livro, com riqueza de detalhes ele conta um desses episódios, ocorrido num povoado próximo a Carolina. Ali, um idoso, sob a suspeita de ter abrigado Leda e seus homens, depois de ser torturado, foi estripado por um soldado e depois atado a uma estaca para ser comido, segundo eles, pelos urubus, com a recomendação que, quem o tirasse dali para ser sepultado, passaria pelo mesmo suplicio.

 Na cidade Carolina, um padre que a Polícia suspeitou de ter dado abrigo ao grupo do Leda, para não morrer na hora, com a Igreja cercada, fugiu só de batina.

 A Guerra do Leda poderia ter sido totalmente varrida da história do Maranhão se não fosse o espirito inquieto do patrono da cadeira 02 da Academia Imperatrizense de Letras, Parsondas de Carvalho. Antes de escrever Guerra do Leda, para denunciar os crimes do Estado Maranhense contra a população pobre do alto sertão, ele escreveu e publicou vários artigos, principalmente em A Pacotilha, jornal que fazia oposição ao senador Benedito Leite. Mais do que isso, a cavalo,  Parsondas, um misto de jornalista, historiador, geógrafo e rábula (advogado) foi ao Rio de Janeiro e conseguiu também publicar seus artigos no influente Jornal do Brasil.

 Os textos de Parsonda, depois juntados em a Guerra do Leda, e posteriormente resgatados pelo advogado, político e historiador Sálvio Dino, em 2007, são considerados importantes pelos historiadores por abrigarem  as poucas referências sobre esse período sangrento da história do Maranhão , ocorrido entre o final do século XIX e início do século XX, aqui neste lado Maranhão. 

Guerra do Leda ainda é um campo amplo e aberto para os pesquisadores e historiadores maranhenses. 

 Bem, e o que aconteceu com Leão Leda?  Os homens de Benedito Leite depois de dezenas de mortes, dos dois lados da refrega e ainda do assassinato de dezenas de inocentes sem nenhum envolvimento na história, não conseguiram capturá-lo. Consta que entre 1898 e 1889 ele vagou pelo sul do Maranhão e norte do Goiás, fugindo da polícia maranhense, até que em 1900 fixa-se em Boa Vista do Tocantins, hoje Tocantinópolis (TO) onde refez sua vida e até tornou-se prefeito do lugar.

 Depois, essa informação encontrei na enciclopédia eletrônica Wikepedia, já no final de 1908, Leão Leda foi morar em Conceição do Araguaia, terra paraense que por algum tempo chegou a pertencer ao Estado de Goiás.  Seu forte ativismo nunca o afastou dos levantes políticos. Alí, se envolveu numa outra luta emancipacionista para criar um novo estado, que englobaria o sudeste do Pará e o norte do Goiás.  Comprou briga com o prelado Domingos Carrerot  que o  “acusou de ser maçom e judeu”, briga que não teve um final feliz.

 Consta que no dia oito de Março de 1909, por volta das 11 horas da manhã, incentivados por Dom Carrerot, um grupo de homens fortemente armado cercou a casa de Leda. Depois de 24 horas de conflito, todos que estavam na casa estavam mortos. 

Leda e o filho Mariano foram capturados e linchados em Praça Pública, dia nove de março de 1909. Terminava ali a vida do homem que quis emancipar o sertão maranhense  e depois,  territórios do Pará e do Goiás.

 

domingo, 19 de fevereiro de 2023

“A Guerra do Leda”: Assassinatos, estupros, castrações e esbulhos no alto sertão maranhense, no fim do século XIX

 

ElsonMAraujo

 

Superficialmente é estudado nas escolas que o alto sertão maranhense, região que compreende o sul do Estado, foi um dos últimos rincões do Estado a alcançar algum tipo de desenvolvimento.  “A costa sempre esteve de costas para este lado do Estado”. Isso incomodava muito, como até hoje incomoda, a gente da nossa região. Se na atualidade as ações do poder público ainda são escassas por aqui, imagine isso no final do século XIX e começo do século XX.  A sensação era de total abandono. O motivo da chamada “Guerra do Leda” foi esse sentimento, marcado por ferrenhas disputas políticas.

 Segundo a historiadora Layla Adriana Teixeira Vieira, num estudo acadêmico apresentado no simpósio nacional de história, em Natal (RN), em 2013, o movimento defendia, perceba a ousadia e o idealismo das lideranças da época, a independência política do sertão maranhense tendo como fundamento esse abandono regional e a carência de desenvolvimento.

Certamente essa movimentação não poderia passar ao largo dos olhos do governo maranhense, que tratou logo de sufocá-lo. Mas esse não é o alvo da coluna de hoje.  O destaque é para, diria, um fragmento, ainda pouco estudado, ou melhor um dos desdobramentos do levante pela emancipação do alto sertão maranhense que resultou num banho de sangue humano sob a “batuta” do então senador, naqueles idos um poderoso chefe político maranhense, Benedito Pereira Leite.

 Essa guerra, custou a vida de dezenas de inocentes. Foram inúmeros assassinatos, estupros, torturas. Além disso, muita gente teve as propriedades esbulhadas pelos soldados de Benedito Leite. Muitos dos que resistiam, eram castrados (capados) na frente de todo mundo.

 Esse pedaço da história do Maranhão foi registrado/denunciado pelo escritor, professor, jornalista, geógrafo e rábula (advogado) João Parsondas de Carvallho, no livro “A guerra do Leda”, e revisitado  em 2007 .pelo fundador da Cadeira 02 da Academia Imperatrizense de Letras , Sálvio Dino, que hoje ocupo e que tem como patrono Parsondas de Carvalho. O texto de hoje é desdobramento do anterior  , reveja (https://oprogressonet.com/noticia/28562/riqueza-literaria-do-maranhao). 

 

Pois, bem, como já fora dito, o saudoso Sálvio Dino, no livro livro Parsondas de Carvalho, um novo olhar sobre o sertão, revisita o livro A Guerra do Leda. A obra é um relato cruel desse esquecido fragmento da nossa história, ocorrido no final do século XIX, cuja motivação inicial era emancipar a região sul do Maranhão, mas que acabou em muito derramamento de sangue.

 O livro reportagem, Parsondas de Carvalho, um novo olhar sobre o sertão, de Sálvio Dino, pode ser considerado o principal documento produzido pelo fundador da Cadeira 02 da AIL, sobre seu patrono, testemunha dos acontecimentos daquele tempo em que o Maranhão era governado por João Gualberto Torreão da Costa, mas quem mandava era o poderoso chefe político e senador Benedito Pereira Leite.  Sigamos pelo túnel da história!

 

Na construção do livro reportagem, Salvio Dino, com o olhar do patrono, percorreu toda a região, visitou famílias, resgatou informações inéditas e até visitou o túmulo de Parsondas, que morreu em junho de 1916, na vizinha Montes Altos, onde está sepultado.

 

Toda a atrocidade ocorrida na “guerra do leda”, na apuração do acadêmico Sálvio Dino, foi denunciada por Parsondas de Carvalho nos jornais de São Luís, principalmente em A Pacotilha. Tamanha a vontade de tornar público e fazer barrar esses acontecimentos aqui na região, que ele, a cavalo, foi “bater no Rio Janeiro” para denunciar o episódio, no então Jornal do Brasil, um dos mais importantes jornais da sua época. Por essas terras, os relatos sobre a guerra do leda poderiam ter sido varridos para debaixo do tapete da história, se não fosse a coragem de Parsondas.

 O episódio é assim chamado “guerra do leda”  porque um dos protagonistas foi  o grajuense Leão Rodrigues de Miranda Leda , um rico político e  proprietário de terras desta região. De orientação liberal/republicana, Leda era ferrenho adversário de Benedito Leite e do governador da época. 

 Pode se dizer que o banho de sangue   e outras atrocidades   levadas a efeito sob o incentivo de Benedito Leite, e o patrocínio do Governo do Maranhão, teve início a partir do assassinato do promotor de Justiça, Estocolmo Eustáquio Polary, em 16 de agosto de 1898, em Grajau.  Na conjuntura da época, “prato perfeito” para o poderoso chefe político se livrar de um adversário, que há muito vinha lhe incomodando. A estratégia para isso, foi acusar Leda, o genro dele Tomaz Moreira , e todo seu grupo,  pela encomenda do crime.

 A morte de Polary acabou por justificar o envio pelo governo maranhense de um grande contingente da Polícia para a região.

 Já havia um conflito político por causa da luta pela emancipação da região, que tinha Leão Leda como um dos líderes, mas o caldo engrossou mesmo, foi depois do assassinato do promotor público. Naquele tempo, algumas dessas disputas eram resolvidas na base da bala.  Agora, imagine isso quando a peleja tinha numa ponta um prestigiado e influente chefe político, e na outra, um rico proprietário de terras, adversário ferrenho dos mandatários do Maranhão.

 Leão Leda não era bobo. Isso fica claro na obra de Salvio Dino/Parsondas. Ele Sabia da existência do devido processo legal e que não poderia ser acusado unilateralmente de um crime, que dizia não ter praticado, e não poder se defender. Fez uma visita ao magistrado do lugar, impetrou habeas corpus, enfim, tentou se defender legalmente, mas quando viu que o legal não resolveria, se apropriou de um método de defesa muito utilizado nos rincões do Brasil, naquele tempo. Ele contratou, pelo menos, duas dezenas de pistoleiros para fazer a sua segurança. Se tornou um fugitivo da Polícia.  Sabia que a ordem dos Leões, no caso de prisão, seria sua execução.   Havia ali uma implícita “sentença de morte” conta Leão Leda que não ficou na cidade para “pagar para ver” .

 Como o espaço da coluna acabou, não é possível contar o desfecho dessa história na edição de hoje. Na semana que vem, o final dessa história. 

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2023

Os 408 anos da guerra que expulsou os franceses da costa maranhense

                                    

                                Pintura de autoria de Armando Viana. A acervo do Museu de História do Rio de Janeiro


ElsonMAraujo

Novembro foi embora e pouco se lembrou do aniversário dos 408 anos da Batalha de Guaxenduba, evento bélico, que segundo a história, determinou a expulsão dos franceses da Costa Norte do Brasil, a partir da Ilha de São Luís, onde eles já estavam assentados desde setembro de 1612, sendo atribuída a eles, dessa forma, a fundação da nossa capital.

Os registros históricos apontam o 19 de novembro de 1614 como o dia D, da batalha. De um lado, os franceses, comandados por Daniel de La Touche, que contavam com o reforço dos índios Tupinambás, nativos da Ilha de Upaon-Açú, e do outro, os portugueses, sob o comando do capitão-mor Jerônimo de Albuquerque e do sargento-mor Diogo Campos Moreno, com o apoio dos povos Tabajaras e Tremembés. Daí, é possível imaginar o quanto foi sangrento esse importante evento da história do Brasil.

A Guerra de Guaxenduba ocorrida na costa maranhense frustrou o sonho da França Equinocial intentado pelos franceses, que já vinham de várias incursões para se apoderar de terras, até então sob o domínio Português/Espanhol. Dessa aventura, restou somente a Guiana, Departamento Ultramarino do Governo Francês, que faz fronteira com o município de Oiapoque, no Amapá.

Há uma unanimidade entre os Historiadores ao afirmarem que se não fora a expulsão dos franceses, a partir da Batalha de Guaxenduba, hoje grande parte do norte e do nordeste do Brasil teria o francês como língua oficial, já que eles ambicionavam, não só o domínio da “Grande Ilha”, mas de toda Costa Norte do Brasil, incluindo a região Amazônica.


Jerônimo de Albuquerque Maranhão, Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão (IHGM, o verdadeiro herói de Guaxenduba

Belém, a capital do Pará, por exemplo, fundada em 12 de janeiro de 1616, portanto dois anos depois da Batalha de Guaxenduba, segundo o professor e historiador Joâo Renôr Ferreira de Carvalho, membro fundador da Academia Imperatrizense de Letras, e já falecido, foi uma estratégia dos portugueses para consolidar, efetivamente, a presença lusitana nos dois primeiros núcleos iniciais da COSTA NORTE, ou seja, São Luís (MA) e Belém (PA).

De posse dessa informação histórica, não é errado dizer que Belém “é filha da Batalha de Guaxenduba”, pois foi a partir dela que a coroa portuguesa abriu os olhos e se precipitou a evitar que não só os franceses, mas também os ingleses e holandeses, se apoderassem no todo, ou em parte, das terras do hoje norte/nordeste do Brasil, no século XVII.

 A leitura atenta do livro a Ação e Presença dos Portugueses na Costa Norte do Brasil no século XVII, (Edufpi e Ethos Editora) publicado em 2014, obra do já mencionado historiador, revela isso a partir da citação de diversos documentos e fontes históricas.

O historiador/pesquisador, considerado um dos maiores do Maranhão, morreu em 20 de março de 2016, mas deixou apontamentos importantes sobre a história do Brasil com a perspectiva do olhar amazônico. 

Uma das últimas obras do professor Renôr foi essa já citada em que ele revela nuances dos dias, horas e minutos e as circunstâncias que marcaram Guaxenduba, muitas delas não estudadas nas escolas.

Nesta batalha campal de 19 de novembro de 1614 pela manhã a grande perda de vidas foi do lado francês. Morreu em luta Monsieur de Pisieux e mais cento e quinze combatentes. O sargento-Mor português cronista da guerra (Diogo Campos) afirma que a luta renhida durou pouco mais de uma hora (CARVALHO, João Renôr Ferreira. Imperatriz: Édupi, Ethos editora, 2014, p. 83)

Por uma dessas felizes coincidências, nesse novembro que acabou, mês em que a célebre batalha completou 408 anos, passaram por minhas mãos, além do livro do professor Renôr, duas outras obras que também citam a esquecida Guaxenduba.

Souza Lima (Manoel de Souza Lima), que é nome de escola e de rua em Imperatriz, patrono da Cadeira Número 01 da Academia Imperatrizense de Letras, considerado o primeiro morador de Imperatriz a publicar um livro, é autor de O Tupinambá, romance indigenista publicado em 1934.

Embora sendo um romance, o escritor faz referência a Guaxenduba ao misturar personagens reais com fictícios. O índio tupinambá Tempui, depois chamado de Itapecu, e que quando batizado adotou o nome de Luís Maria, personagem central da ficção, por exemplo, morre nessa batalha, deixando viúva a doce Amujaci, filha da grande “Nação Guajajara”.  Antes de partir com o amado para a Grande Ilha, Amujaci era aldeada, conforme o romance, às margens do rio Grajaú.

O Tupinambá é uma obra Indigenista flagrantemente inspirada em José de Alencar e outros ilustres brasileiros que escreveram sobre o tema. Se publicado em tempos atuais, na avaliação do poeta e escritor Ribamar Silva, membro da AIL, o autor seria laureado nacionalmente.

A obra é importante por natureza e ganha ainda maior importância por causa do seu caráter histórico, a começar pela descrição fiel da geografia da Ilha de São Luís e da região de Grajaú, notadamente as margens do rio Grajaú, naquela época, ambientalmente muito diferente do que é hoje. Souza Lima, certamente, para registrar e construir a narrativa em torno dos seus personagens, deve ter vivenciado aquela, ou aquelas, até então belíssimas e quase intocadas paisagens.

O original da obra foi resgatado na Biblioteca Benedito Leite, em São Luís, pelo professor Fernando Fernandes. Empolgado com o achado, e com o apoio de empresários de Imperatriz, a republicou em 2014 pela Ética Editora. O livro chegou às minhas mãos através do confrade Domingo César com a recomendação de que fosse devolvido, já que é “filho único” do acervo da academia Imperatriz de letras.

A terceira obra que mencionei sobre Guaxenduba e sua importância para o país, é Pelos Caminhos da História, nos bastidores do Brasil Colônia, Império e República, lançado pela Editora Civilização Brasileira, em 2015, e de autoria do diplomata e historiador brasileiro Vasco Mariz que morreu em 2017, aos 96 anos. Vasco era um apaixonado pelos fatos históricos e serviu em vária embaixadas brasileiras na  Europa. Com natural curiosidade histórica, tinha o costume de pesquisar “fios soltos” da história do Brasil nascendo daí diversas conferências no Brasil e no exterior.

 Em Pelo Caminhos da História, o autor, com riqueza de detalhes explora não só a Batalha de Guaxenduba, mas outros episódios da história brasileira também esquecidos. No livro, ele chega a lançar dúvidas sobre a paternidade francesa da fundação de São Luís.  Merece um texto em separado, que vou deixar para outra oportunidade.

 

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023

Sálvio Dino e a passagem da “coluna prestes” pelo alto sertão maranhense

 

                              A Coluna Prestes esteve no Maranhão

ElsonMAraújo

 

    O advogado, político, jornalista, historiador, membro da Academia Maranhense de Letras, fundador da Cadeira Número dois da Academia Imperatrizense de Letras (AIL) Sálvio Dino, desde a adolescência desenvolveu um acentuado senso crítico diante das verdades prontas da história que a ele chegavam pelos bancos da escola. Principalmente aquelas havidas, ou encerradas no alto sertão maranhense, como também é conhecida a região sul do Maranhão, onde nasceu.

    Sálvio Dino, que nos deixou no período agudo da pandemia do coronavírus, levou essa inquietação para a vida adulta, e paralela às suas atividades jurídicas e políticas, com um acurado faro jornalístico e de historiador, foi coletando informações e lançando luzes sobre eventos importantes que tiveram o alto sertão maranhense como palco.


    O advogado Sálvio Dino, escreveu sobre a Coluna Prestes no Maranhão

    Para não me estender, na coluna de hoje trago a lembrança de dois fatos que conduziram o atilado acadêmico a produzir dois importantes registros para a história da banda sul do Maranhão. Em Parsondas de Carvalho, um novo olhar sobre o sertão, livro publicado em 2007, Sálvio Dino, resgata “a guerra do Leda”, disputa política sangrenta que na virada do século XIX para o XX, sob a batuta do então senador Benedito Leite, regou com o sangue de dezenas de inocentes, o chão do Alto Sertão do Maranhão. O ou outro registro, é sobre os aspectos da passagem da “coluna revolucionária prestes” pela região.

    A guerra do Leda vai ficar para uma outra oportunidade. Vou me ater levemente hoje ao segundo evento, prestes a completar cem anos, e que rendeu em 2016, portanto uma das últimas obras do autor, o livro A Coluna Revolucionária Prestes a Exilar-se (Passagem pelo sul do Maranhão). O livro é prefaciado pelo tembém membro da Academia Imperatrizense de Letras Agostinho Noleto.

    A Coluna Prestes foi um movimento revoltoso organizado por tenentistas (militares) que percorreu o interior do Brasil, entre 1925 e 1927, combatendo as tropas e denunciando o que o grupo considerava desmandos do governo de Artur Bernardes e Washington Luís. 


           Luis Carlos Prestes, o Cavaleiro da Esperança

    Durante a chamada Primeira República, os revoltosos percorreram mais de 25 mil quilômetros protestando e tentando levantar o povo contra o poder central. Os tenentes, liderados por Luís Carlos Prestes, passaram por esta região.  Na sua obra, Sálvio Dino resgata aspectos da passagem tenentista por aqui.

    Ao fazer memória da sua meninice, lá pra bandas de Grajaú, onde o pai Nicolau Dino, era juiz de Direito, Salvio Dino, no seu dizer poético registra:

     “vivia eu, menino de calças curtas, ouvindo histórias cabeludas sobre a passagem dos chamados revoltosos pelo nosso chão e por outras cidades sertanejas. Minha insatisfeita curiosidade pré-juvenil, levava-me a perguntar á mestra Caetana Costa, bem ali, na ladeira de barro, da cidade alta: professora, é verdade que os homens da Coluna, além de roubar cavalos, gados das fazendas, comiam criancinhas, quando tinham fome e nada encontravam para comer? (DINO, Sálvio, 2016,  p.25)

    Em a Coluna Revolucionária Prestes a Exilar-se Dino vai fundo nas fontes. Revisita diversos autores maranhenses, ou não, que já escreveram sobre o tema, e ainda esteve em algumas das cidades, como Grajaú, Balsas, Riachão e Carolina; cidade onde os revoltosos foram carinhosamente recebidos, abrigados e alimentados pelas lideranças simpáticas ao movimento. Além disso, pesquisou diversos documentos produzidos por testemunhas daquele fragmento histórico.

    Naquele tempo, se a revolta dos tenentes não era considerada uma ameaça, pelo menos já incomodava muito o governo.

    Com base na pesquisa do autor é possível perceber que naquela época uma das estratégias do poder dominante já era espalhar notícias falsas para desestabilizar qualquer movimento de cunho político contrário ao governo.

    Daí, não se estranhar a pergunta do então infante Sávio Dino a sua professora “se era verdade que os homens da coluna comiam criancinhas”.

    Não, não comiam criancinhas! Os tenentes da Coluna Prestes, mesmo que episodicamente nos 25 mil quilômetros de marcha tenham cometido alguns excessos, tinham um ideal.

     Sobre os ideais da revolta, Salvio Dino resgata um discurso proferido no dia 19 de novembro de 1925, em Carolina por um dos líderes da coluna, o então coronel Juarez Távora, bem como cópia de um manifesto ao povo maranhense publicado em o Libertador, órgão de comunicação da revolução, naquela ocasião impresso nas oficinas de O Tocantins, jornal semanário carolinense famoso, à época.

    O manifesto publicado em Carolina, e resgatado por Salvio Dino, foi assinado pelo general Miguel Costa e pelos coronéis Luiz Carlos Prestes e Juarez Távora, os líderes da coluna. 

    Veja logo abaixo um trecho do longo documento.

    A democracia foi substituída por um conluio reduzido de autocratas- duvidosa elite, surgida de uma seleção rigorosamente negativa. O voto é uma farsa e a soberania das urnas é uma conversão facultativa e vaga á que se sobrepõe, sempre, as conveniências e caprichos dos senhores absolutos

    A Justiça nem é cega, nem enxerga bem: possui, para a infelicidade do povo, a visão obliterada dos que olham, ao mesmo tempo para o montão de ouro com que se compram os venais para a espada de Dâmocles que ameaça a cabeça dos independentes.

    A administração é um descalabro. Os impostos escorchantes são uma indústria, mas vergonhosa com que se se esgota a economia do povo para enriquecer os políticos sem escrúpulos (DINO, Sálvio, 2016, p.130)

 

    Como é sabido, o movimento fracassou. No final de 1926, com mais de um ano de marcha, as lideranças passaram a discutir seu fim. O governo de Artur Bernardes estava prestes a ser encerrar, e, além do mais, a Coluna havia falhado em criar um projeto político de tomada de poder. A romântica empreitada não conseguiu mobilizar a população como esperado. Resultado?

    Em fevereiro de 1927, os membros da Coluna Prestes depuseram as armas e buscaram exílio na Bolívia.

    O Espaço é pequeno para uma viagem maior nos apontamentos de Sálvio Dino nesta sua importante obra sobre a passagem da coluna prestes pelo Alto Sertão Maranhense.  Um episódio com vários desdobramentos políticos para a história do Brasil e a vida de seus protagonistas, como bem deixa dito o escritor.

    Depois da aventura da Coluna Prestes, a história mostra que seus principais líderes permaneceram nas lides políticas, mas em campos ideológicos diferentes.

    Luís Carlos Prestes saiu da Coluna com o apelido de “Cavaleiro da Esperança” e tornou-se um dos grandes nomes da luta popular brasileira ao longo do século XX.  A marcha pelo interior do Brasil ao se deparar com o imenso fosso das desigualdades, segundos os historiadores, o levou a se “converter ao marxismo” em 1930, e   assumir-se comunista. Na mesma década, esteve envolvido com uma tentativa de tomada do poder no Brasil e diversas outras lutas. Foi perseguido e preso pelo regime de Vargas. É considerado uma das personalidades políticas mais influentes do País durante o século XX. Morreu, no Rio de Janeiro, em 7 de março de 1990.

    O outro líder do movimento, o eloquente Juarez Távora seguiu por outro caminho. Pela sua participação na Coluna Prestes chegou a ser preso, mas acabou sendo libertado, já no governo de Washington Luís.  Na sequência da militância política ,  nas eleições de 1930, foi eleito deputado federal no Ceará, porém não chegou a assumir o mandato em razão da Revolução de 1930  que que dissolveu o Parlamento. Passou um tempo no exílio na Argentina, mas depois voltou.  Na Era Vargas, ocupou os ministérios da Agricultura e dos Transportes e depois voltou para o Exercito. Foi ainda candidato a presidente da República tendo perdido a eleição para o  mineiro Juscelino Kubitschek.

    Morreu, assim como  Prestes, no Rio de Janeiro em Julho de 1975

 

 

 

Esperança não nasce em árvores

ESPERANÇA  Então, nada aconteceu. Esperança não nasce em árvores Ela nasce no mais recôndito cantinho do coração ENTRE/MENTES  Entre mentes ...