sábado, 19 de março de 2011

A dama da faculdade


 Era o centro das atenções  por onde passava, entrava ou  saía. Ainda jovem, cerca de 30 anos,  branca, olhos esverdeados.  De fato, era mesmo uma mulher bonita e,  nem precisava daquela arrumação exagerada, toda.  Era naturalmente bela.

Gostava de todos aqueles acessórios para lá, digamos,  que cheguei.  Brincões, pulseiras ao longo dos dois braços,  anéis de ouro 18 em todos os dedos, cada um maior do que o outro; colares, gigantescos.   As roupas eram um exagero só.  

O perfume, importado, sentia-se  a 15 metros de distância.  Também era um mistério como ela  conseguia se equilibrar num salto tão alto como aquele. 

A boca encarnada que  nem uma brasa viva era o tempo todo retocada.   O tom vermelho era sua marca registrada.  Uma verdadeira perua , na concepção moderna da palavra.

Nem sempre foi assim, Mary Dalva, nome dado em homenagem à sua avó materna, nasceu num povoado de um município do interior, do Estado.  Lembra com tristeza do dia que seus pais receberam a visita de seu padrinho, fazendeiro rico do sul do Estado. Diziam que tinha 50 mil cabeças de gado.

Passaram-se 15 anos desde seu batismo e o padrinho, recém enviuvado,  passava pelo povoado atrás de uns peões para uma das fazendas que mantinha na região. 

O compadre quase se engasga quando viu aquela menina entrar na sala trazendo uma bandeja de café e bolo.   Era, sem dúvida, uma mulher formada.

Trajava uma blusinha fina e insinuante  com a alça  do lado direito caída sobre o  ombro,  quase  que mostrando o seio. O  short jeans,  surrado e apertado,   ressaltava ainda mais sua forma de menina-mulher.
O fazendeiro  quase morre,  ali mesmo,  ante ao que via. Recompôs-se e na primeira oportunidade foi logo dizendo:

“Compadre não vou mais procurar ninguém para tocar minha terra aqui, não. Quero que o senhor seja meu homem, na região, pago bem.  Aceita? O pai da ninfa  aceitou sem titubear.

“Outra coisa:  o senhor precisa pensar no futuro dessa menina.  Quero  que  minha afilhada  estude e seja alguém na vida. É isso que o senhor quer também, não é? Disse com um sorriso maroto, no canto da boca.

No dia seguinte àquela conversa  Mary Dalva seguia com o padrinho para  estudar na cidade grande, numa caminhonete último tipo. Foi um dia triste. Deixava para trás os pais,  as amigas, as bonecas de pano;  enfim, sua vida tranqüila de menina do campo.

Na cidade não lhe faltava nada naquela casa grande,  muito diferente da casa de pau-a-pique de seus pais. Tinha até piscina.  Era tratada como uma princesa. Mas aquilo tudo não a deixava feliz. Estava ali, morando  sozinha com o padrinho viúvo,  40 anos mais velho do que ela.  Ladina,  já previa o que estava prestes a acontecer.   Queria mesmo era  voltar correndo  para casa.

Mary Dalva  não voltou, acabou virando amante do padrinho, numa noite que também preferiu esquecer. Foi praticamente estuprada quando este chegara de uma de suas noitadas, bêbado. Pensou em fugir, mas  quando isso vinha a sua cabeça lembrava-se dos pais que por conta do novo trabalho melhoraram de vida e tinham ainda três filhos,  além dela.  Aceitou aquela situação.

Logo que terminou o ensino médio Mary Dalva passou de amante a esposa  do velho fazendeiro.  Casaram-se só no padre.  Não era uma mulher  feliz. O jeito espalhafatoso de ser se tornou uma fuga, na verdade um disfarce para camuflar a infelicidade. Tinha tudo materialmente, mas  havia um vazio emocional que ficou  mais forte depois da morte dos pais num acidente de carro.

Sexo? Nunca soube o que era  aquilo que suas amigas costumavam chamar de uma “boa gozada”.  Tinha inveja delas.  Nos encontros com o marido lembrava sempre daquela traumática primeira vez.

Numa madrugada, dessas insones, Mary Dalva se deparou na TV com um filme de 1978, baseado na obra de Nelson Rodrigues. A  Dama da Lotação.   Logo se identificou com a personagem principal,  Solange, interpretada pela morenaça Sonia Braga, que no filme também carregava o trauma de ter sido estuprada, pelo marido  na noite de núpcias.

“ É, isso, vou virar uma Solange. Preciso de alegria, preciso ser feliz, me sentir mulher”, pensou.
Para prosseguir com seu plano precisava de uma desculpa para sair de casa. “Vou fazer faculdade. É isso, estudar ele deixa” imaginou.

Dito e feito, o fazendeiro gostou da idéia da mulher voltar a estudar. Mary se matriculou no curso de direito, mas a cabeça tava longe dos estudos. Solange, a dama da lotação, não lhe saia da cabeça.

Uma semana depois, no corredor  da faculdade ela cruza o olhar com um rapaz, de aproximadamente 20 anos. Conversaram muito pouco, o olhar,  a respiração dizia tudo. Marcaram um encontro na hora  do intervalo no estacionamento da faculdade que passou a ser a rota de  todas as fugas de Mary. Nada de Motel, o local era perfeito para seus encontros.

 O garotão entrou no carrão de Mary,  um desses   parecidos com uma minivan,   que já lhe aguardava seminua. Sem uma palavra se amaram intensamente por exatos 15 minutos.  O tão esperado gozo, não veio.
Os encontros do intervalo, sempre no estacionamento, se tornaram uma rotina. Evitava os colegas da sala para evitar  falatório, preferia os das outras salas, sempre um diferente.

Num determinado dia   um imprevisto impediu  que   o garotão com quem Mary havia marcado no estacionamento  fosse até ela.  O tempo passou e nada do rapaz chegar. Passou então, mais uma vez a buscar solitariamente  o gozo com um vibrador que carregava sempre na bolsa. Já tinha feito aquilo várias vezes e nada de gozar.

O vigia do estacionamento, que já andava desconfiado das idas  no intervalo  de Mary ao estacionamento decidiu verificar o que estava acontecendo.

Mary  percebeu a aproximação do vigia, escondeu rapidamente o equipamento no porta luva,  baixou  saia. E esperou.

- Boa noite! A senhora ta bem, precisando de alguma coisa?

A pergunta encheu Mary de tesão. É claro, que estava.

O vigia, um sujeito magro,  cambota, estatura mediana,  28 anos, não resistiu àquele olhar, àquele cheiro, àquela bela mulher. Entrou no carro.

Naquele dia Mary soube de verdade o que era se sentir  mulher. Uma duas três, pensava que ia morrer,  e o vigia ali suado cumprindo, sem  que soubesse uma missão que já havia sido tentado por outros, sempre em vão.

Depois daquele dia Anastácio pediu demissão da empresa de segurança onde trabalhava. Hoje é o gerente geral de uma das fazendas do  marido de Mary onde esta costuma passar os finais de semana e feriados.
































6 comentários:

Sheila Varão disse...

Eita conto! Menino, você tá esperando o que, pra nos agraciar com um livro de contos? AMEIII. Esse conto reforçou muito minha tese:
QUANTIDADE NUNCA QUE SUPERA A QUALIDADE!

thiago disse...

meu caro perfeito,fiquei em transe q mulher é essa queria desvendar todos os seus mistérios vai ficar perpetudo, obrigado por nos agraciar com um conto que realmento nos envolve, arranca suspiros abraços Thiago Rodrigues

Amicro - Imperatriz disse...

Parabéns para transformar em um livro muito bom mesmo

Eliabe Martins.. disse...

Oi,Elson,tdo bem? Mto bom seu blog. Sou colunista da Tribuna do Tocantins, nasci em Imperatriz, apesar de nao mais morar nesta cidade,admiro mto os bons artistas dessa terra. Tambem escrevo, mas ainda nao estou certo de que seria interessante eu lançar livro. Sinta-se a vontade para visitar e deixar uma opiniao critica de algumas de minhas obras,Elson. Abraço!!!

L3YLOKA disse...

De todos que li esse por enquanto está sendo meu preferido. Muito bom!

afodoinga disse...

Muito bom meu amigo!!!um conto típico da nossa região...