domingo, 27 de março de 2011

A Fiel

                                          (foto ilustrativa)

 “Irmã Aparecida” era uma crente   dessas mais do que  tradicionais.  Estava na casa dos 20 anos. Os pais, super protetores, controlaram demais a vida daquela menina. Vontade tinha de sobra, mas,  aquela bela e,  estonteante morena de cabelos negros como as asas da graúna da virgem dos lábios de mel,  de José de Alencar,  nunca tinha namorado na vida. 

 Pensava em casar, ter filhos  constituir uma família, mas,  via que esse sonho estava cada vez mais distante.  Não entendia o porquê de tanta  vigilância;  além do mais,  pelas regras da família estava passando da hora de arrumar um marido.  Mas,  como?  Se ninguém podia chegar perto dela.

 Ao longo da vida  a irmã Aparecida  tentou duas vezes arrumar um namorado, mas os pretendentes só iam uma vez na casa dela. Além da vigilância  ostensiva dos  pais,  ainda havia o danado do irmão mais velho,   extremamente ciumento e com cara de mau, que   não arredou os pés de perto dela enquanto durara a visita dos  pretendentes.  Foi assim, nas duas  únicas vezes que tentou engatar um namoro.

Pelo modo   como fora criada, Aparecida  achava que se tornaria uma mulher fria e  aversa  ao sexo masculino,  consagrada apenas às coisas  da religião.  

Consagrada?   Bem que poderia ser vista dessa forma.  Participava de quase tudo na  igreja  e não faltava  a nenhum dos ofícios dominicais.  Só não podia sentir o cheiro de homem que o juízo da mulher ia para o espaço.  O corpo não se expressava, mas a mente voava longe.

Um cheiro era especial: o do pastor.  Com ele já tinha realizado fantasias   inimagináveis pela sua  santa,  e protetora mãezinha.  

Sentada no banco da frente enquanto durava o oficio ficava ali observando, hipnotizada,  o religioso ministrar a palavra. Era um momento de prazer,  só seu.

O pastor era um homem bonito e  maduro e despertava em  Aparecida intensas  reações fisiológicas aquecidas por uma  fértil imaginação,   por isso, ficava ali quietinha para ninguém perceber nada.

Não prestava atenção a nenhum item da pregação;  só   no que   poderia viver com aquele homem. Ela sabia que não era amor,   tinha certeza disso. Era tesão mesmo.  Na imaginação, com ele, já tinha feito amor de todo jeito,  de todas as maneiras e,  em quase todos os lugares.

Naquele  Domingo, ali com a Igreja lotada,  imaginou que todos, menos ela e o pastor tinham ido embora. Havia ficado  para ajudar a fechar a igreja.  No fechar da última porta os dois corpos  roçaram-se  levemente, o suficiente para que  incendiados fizessem amor ali mesmo,  em cima do banco mais próximo.

No imaginário de Aparecida,  o momento era tão forte que nem precisou tirar a roupa.  Bastou  levantar um pouco a saia,  afastar para o lado a calcinha  e receber a virilidade do pastor.

“-- Irmã, irmã, vamos embora,  o culto  já acabou”--  Chamou  a atenção a vizinha de banco de Aparecida,   que dessa forma,  saía daquele momento de êxtase.  Era  sempre assim, quando ía à Igreja.

Quando chegava em casa Aparecida se dirigia direto para o quarto. Tirava  a calcinha,   molhada pelo liquido que lhe  preparava o corpo para  algo que nunca  lhe aconteceu; abria o guarda roupa e de lá arrancava o único  objeto com quem podia, sem medo, sem culpa, dividir aquele tesão represado: o diário que mantinha guardado a sete chaves e onde relatava suas  oníricas  aventuras sexuais.

O tempo passou, a Irmã Aparecida, não casou, nunca transou, mora sozinha e  até hoje, aos 75 anos,  permanece fiel á sua igreja,  mas  sempre que pode vai lá, no fundo do baú , pega o velho diário  e faz uma viagem no tempo; ao tempo do cheiro daquele pastor que tantas e intensas emoções lhe causou.

4 comentários:

Sheila Varão disse...

Eita, fiquei triste também, por ela. Isso acontece muito nos dias atuais. Amores proibidos, platônicos e que deixam sequelas tipo essa. Ah docinho, quero é um livro logo e daqueles com 600 páginas... Rsrsrsrsrs

Carlos Leen Santiago disse...

Realismo nada fantastico. "temos a arte para que a realidade nao nos mate"

FELIX disse...

A realidade as vezes pode ser muito cruel.

Ana Paula disse...

Irma Aparecida manteve sua inocencia dada pelos pais intacta , quem podera julgar isso?
Seus pensamentos… ahh, esse ninguem poderia mudar, mexer, controlar, PROIBIR… Usou sua imaginação pra realizar desejos e uma suposta felicidade que poderia ter vivido.. Julgar se seus pais foram certos ou errados. Tambem não cabe a nois.. talvez foi necessario.. ela não lutou contra isso, permitiu ter essa vida..
Não foi contra o que acreditava e louvava.. Pais e a Igreja… mas achava que ia ser eterna “ mulher fria e aversa ao sexo masculino, consagrada apenas às coisas da religião.” … mas não foi..
virgem do sexo, mas não virgem de seus atos, desejos, vontade. … ela errou?? NUNCA.
Foi Feliz.. dentro da atmosfera que vivia .. ela foi feliz…
“cheiro daquele pastor que tantas e intensas emoções lhe causou” hummmmm… isso ninguem irá tirar dela….
Belo contoo..
levando isso para nossas vidas..quantas oportunidades deixamos de fazer. E levamos pro tumulo uma suposta felicidade que o medo matou e que poderiam ter mudado nossas vidas ..
Pastor representa essas oportunidades… ai pergunto pra você..
Vai viver Sem cheiro..ou com cheiro??