sábado, 12 de março de 2011

O Bruto também pode amar

                                            (GRAVURA ILUSTRATIVA DO BLOG DE GIAN ZELADA)

O homem tinha quase dois metros, 42 anos de idade; a cabeça grande como a de um cavalo. A pele era castigada pelo sol, resultado de anos de trabalho como encarregado de obras numa firma de construção civil. Parecia ter mais de 50 anos.

O jeito desengonçado de ser lhe deu ainda jovem o apelido de Gigante. Tinha gente que também lhe chamava de cara de cavalo.

Morava num quarto e sala, nessas casinhas feitas para quem gosta de morar só. A única companhia era uma vira lata que não saía de seu pé quando estava em casa.

Ganhou a fama de violento no dia em que quebrou com um soco a cara de um homem que insinuou que o mesmo era gay. “Isso é para você respeitar homem. Nem desse povo eu gosto” disse ele naquela ocasião.

O rapaz até que ganhava bem e tinha muitos amigos. Só não conseguia mesmo era arrumar uma namorada. A última tinha sido há dez anos e, o namoro só durou uma semana.

No sétimo dia, no que seria o primeiro encontro mais intimo do casal, ao vê-lo nu, a mulher, sem nem um pingo de sangue no rosto, inventou de tomar água, e sumiu para nunca mais aparecer. Gigante ficou mesmo só na vontade.

Dez anos, e ele ainda lembrava-se do episódio. Zangou-se. Aquela era a quinta que o deixava da mesma forma

-“Não quero mais saber de mulher. Vou viver agora é sozinho daqui por diante” pensou ele ao perceber que a quinta também tinha fugido sem nem ao menos se despedir.

Gigante levou a sério o que prometeu a si mesmo. Evitava as rodadas de cerveja com os amigos, as festas promovidas pelos peões da firma que trabalhava. Era ele e a cadela, somente. Tinha opinião, mesmo.

“Cara deixa de ser opinioso,” Disse Fábio, um dos poucos que conheciam, mais a fundo, a vida daquela criatura de Deus. Tá na hora de acabar com essa promessa doida e arrumar uma mulher. Tu precisa se casar, construir uma família. Ta ficando velho, hem? “ admoestou o amigo.

“Faz assim, liga aquele notebook que ganhastes na rifa semana passada lá na firma, conecta na internet , que logo, logo tu vai encontrar a mulher da tua vida. Fácil, fácil, faz isso”

-É, Fábio tinha razão. Tava na hora de acabar com aquela situação dos eternos banhos, embalados pelas estrelas da Sexy, Playboy e Vip e acabar com aquela solidão” pensou Gigante.

Aproveitou o dia de folga pra ajeitar tudo. Tinha feito um curso rápido de internet com o amigo o resto seria mais fácil.

Abriu de uma vez MSN, Orkut . Não era possível que com esses instrumentos modernos não encontraria a mulher de sua vida. No mesmo dia pescou vários contatos. Ficou até a madrugada ali puxando conversa com uma e com outra até que uma lhe chamou atenção.

“Morena dengosa” era o nome que apresentava no perfil. Disse que trabalhava numa casa de material de construção; 1,75 metros, isso, sem salto. Cabelos pretos, lábios carnudos e, segundo ela, cheia de amor para oferecer.

Gigante se “apaixonou” logo. Ela havia mostrado foto e tudo. Ela era tudo aquilo que falava, e na recíproca, não se assustou quando ele também se fez ver pela foto do perfil. Não escondeu nada dela. Falou da fuga de suas últimas cinco namoradas, e até da abstinência sexual de dez anos.

Legal, acabara de arrumar uma namorada virtual. Próximo passo: um encontro de verdade, o fim da seca sexual ; e quem sabe, surgiria ali até um casamento.

Sem perda de tempo Gigante marcou o encontro com a “ morena dengosa” para o dia seguinte, inicio da noite, na praça principal da cidade.

Nem trabalhou direito naquele dia. Pouco prestava atenção no que lhe falavam. Por duas vezes derramou água e café na camisa. Fez tudo mais cedo. Não poderia, por nada neste mundo, perder aquele encontro.

Correu para casa, pôs a melhor roupa, tomou banho com metade de um vidro de perfume, pegou o Gol geração 4 , que também mandara lavar e lá se foi o gigante para o grande encontro.

A mulher era tudo o que tinha falado e muito mais. Conversaram pouco. Dali foram para o motel mais próximo.

A morena dengosa falava pouco, nem parecia a “tagarela da internet” pensou, Gigante. A dengosa passou a acariciá-lo e em seguida pediu pra que ele lhe fizesse uma massagem. Confessou que costumava fazer isso com os namorados que já tinha tido. Depois, solicitou que ele fizesse o mesmo com ela. Passasse óleo na suas costas e que em seguida a possuísse bem devagar. Inseguro , Gigante temia que ela também fugisse quando o visse pelado, mas não, ela ficou ali.

Aí, não, mais em cima, estou naqueles dias” disse a dengosa, com o sorriso sarcástico. Gigante obedeceu .

Por três dias, seguidos a cena se repetiu no mesmo motel e, sempre no escuro, que segundo a dengosa, era pra ter mais clima.

No quinto dia , no mesmo horário, antes de irem pra cama, a Dengosa chorou. Disse que tinha um segredo que precisava revelar, mas estava com medo ainda mais depois de saber, com um amigo do namorado, que ele era um homem extremamente violento.

“O que foi minha gatinha. Conta , vai?

Tenho medo?

Medo?

Diz, seja o que for , prometo que não vou ficar zangado.

“É que na verdade, eu não sou Morena Dengosa. Meu nome é Mario João Gonçalves. Pensei que , entre nós, seria só uma aventura mas estou apaixonado por você.

Gigante, ao ouvir a confissão, mudou a feição. Os olhos aumentaram, passou respirar de modo ofegante. Rapidamente pensou no nariz do cara que quebrou por ter lhe insinuado que era gay e de ter dito que não gostava daquele gente.

A morena dengosa, ou na verdade, João Gonçalves, por sua vez, passou a antever mais uma surra que levaria por tem se passado por mulher. Na última passou uma semana internada no Hospital Público da cidade. “ Agora, com certeza, seria morta”, pensou.

João se encolheu num canto do motel, tremendo, aguardando os primeiros safanões quando dela Gigante se aproximou e carinhosamente, sem dizer nada, a fez levantar. Olhou para ela com ternura, e a acolheu carinhosamente nos braços.

Abdoral Políbio do Carmo, o Gigante, e João Gonçalves, a Morena Dengosa, estão juntos há três anos na mesma casa. Foram embora daquela cidade, e hoje lutam para adotar o primeiro filho, livre de qualquer preconceito, numa cidade distante, do sul do país.

Um comentário:

Sheila Varão disse...

Elson, esse conto quase me fez chorar, me emocionei. Já tava ficando com pena do GIGANTE. Só o AMOR mesmo, pra nos livrar do preconceito.