sábado, 20 de julho de 2024

UM POUCO SOBRE A MULTIDÃO


Tem gente que tem medo de multidão ou sente crise de ansiedade incontrolável quando se depara com esse tipo de situação. Esses dois mecanismos têm até nome. Nomes esquisitos, por sinal. O medo explícito de multidão a ciência batizou de demofobia. Também conhecido por oclofobia ou enoclofobia, que é quando se tem fobia de estar em ambientes cheios de pessoas. Já a situação de ansiedade incontrolável a ciência denominou de agorafobia, que ocorre tanto em lugares fechados quanto em abertos. Ambas as denominações mencionadas, no geral, significam, numa linguagem bem nossa, o medo de estar no meio de muita gente.

O contrário também existe. Há muitas pessoas que conseguem, por vários motivos, se encontrar na multidão. A psicologia e sua prima, a sociologia moderna, estudam esses fenômenos da natureza humana. Enquanto a sociologia estuda o comportamento e a interação de indivíduos em um grupo, a atração por multidões e sua influência sobre estes, a psicologia social vai estudar a sensação de pertencimento, excitação sensorial e até uma tal de filifilia, denominação esquisita para descrever a não menos esquisita atração sexual por multidões ou aglomerações. Perceba aí a complexidade do ser humano, que não se reduz a uma montanha de células, músculos, suor e sangue, mas a um complexo mecanismo, uma pedra bruta objeto de observação e estudos permanentes.

Confesso que este não seria o tema da semana. Mas aí a gente começa a escrever, vai refletindo, o pensamento fluindo e o tema que seria para estar aqui hoje vai ficando lá para trás. Talvez nem volte mais.

Não me enquadro em nenhum quadro dos estudos referidos até aqui. Mas fiquei curioso para descobrir como se denomina as pessoas que gostam de observar multidão, como é meu caso. O hábito de escrever me levou ao hábito de observar com mais acuidade o “mundo ao redor”. E isso inclui coisas e pessoas. Já escrevi tempos atrás uma crônica sobre a experiência sensorial que foi de percorrer a pé um dos caminhos da cidade. Foi bacana porque acabei por enxergar coisas que via todos os dias. Não é que essa prática, para minha surpresa, também tem nome?

Novidade para mim: flâneurisme é o conceito filosófico e cultural que envolve caminhar pelas ruas da cidade de forma despretensiosa e atenta, observando os detalhes do ambiente urbano e das pessoas que o habitam. Justamente o que fiz e resultou na crônica "Do que Sentirei Saudade Quando Morrer?", que pode ser acessada no seguinte endereço: https://regiaotocantina.com.br/2024/05/19/do-que-sentirei-saudade-quando-morrer/ publicada em Maio 2024 e em maio deste ano.

Pois flâneurisme  foi a denominação mais próxima que encontrei para explicar o gosto que tenho de explorar meus sentidos ao percorrer a cidade e a me deparar com aglomerações de pessoas e, por vezes, multidões. Lembrei que fazia isso bem antes de intensificar o hábito de escrever, que vem da  infância.

Aprendemos muito com a observação dos tipos humanos reunidos, seja nos pequenos ou grandes espaços. Desde as heranças físicas/genéticas até a análise comportamental. E nem precisa ser cientista para isso.

As aglomerações, os ajuntamentos de gente constituem-se em verdadeiros laboratórios onde é possível aprender e apreender muito sobre as dimensões do ser humano. Cada rosto, cada gesto, cada murmúrio ou exclamação revela um fragmento do mosaico que compõe a nossa humanidade. É como se cada indivíduo fosse uma página viva de um livro interminável, onde histórias de vida, esperanças e desilusões se entrelaçam, formando uma tapeçaria rica e multifacetada.

Nas grandes cidades, como nossa querida Imperatriz, as multidões são como rios caudalosos, onde a correnteza de pessoas flui incessantemente. Observar essa correnteza é como mergulhar num universo paralelo, onde se pode testemunhar a diversidade da experiência humana. Ali, no meio da massa de corpos e vozes, percebemos que somos, ao mesmo tempo, únicos e parte de um todo maior. É nesse fluxo contínuo de vida que reside a beleza da multidão: uma celebração constante da existência humana, com todos os seus paradoxos e maravilhas.

segunda-feira, 17 de junho de 2024

LANÇAMENTO: CONSCIÊNCIA CÓSMICA

 


Por meio de reflexões profundas sobre a natureza, a vida e o cotidiano, este opúsculo nos convida a desacelerar e a observar o mundo com mais atenção.

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sábado, 1 de junho de 2024

Filha do acreditar

 


 

ElsonMAraujo

 

Acreditar é uma faculdade. Quando acreditamos em algo, somos capazes de feitos inimagináveis. O homem acreditou que podia voar, e voou. Acreditou que podia chegar até a Lua, e lá também chegou. Mas não somos obrigados a acreditar naquilo que não queremos. Assim como um terceiro, por mais eloquente ou convincente que seja, também não ostenta tal capacidade: a de impor um acreditar distante das nossas crenças.

Podemos até, por educação, ouvir ou fingir convencimento, mas fica nisso. No período (pré) eleitoral é comum isso. Na atual conjuntura nacional, nesse campo quase ninguém acredita em alguém. O contrário também é verdadeiro. Dependendo do capital cultural, das experiências, dos interesses individuais, enfim, de fatores intrínsecos e extrínsecos de cada um, podemos cair de amores por uma causa e daí, até matar e morrer por ela.  A fé é filha do acreditar, e num mundo cada vez mais incoerente, para se acreditar também é preciso coerência.

Ter fé é acreditar no invisível, no intocável, no inatingível; não é ter a certeza sobre todos os mistérios que nos cercam, mas é ter a certeza de que existe algo infinitamente maior que nós que pode tornar tudo visível, palpável e possível. (Alexandre Sessa)

 

As três maiores religiões monoteístas no planeta, Judaísmo, Cristianismo e Islamismo, foram construídas a partir da crença no Deus único. Na defesa desse acreditar, nações foram construídas, nações foram destruídas. Sangue foi derramado, sangue foi exaltado. Portanto, é acreditar em acreditar que caminha a humanidade. Seria essa faculdade consciente humana o primeiro passo para se atingir um objetivo, seja ele qual for. O óbvio surge cristalino diante dos nossos olhos: sem acreditar, qualquer iniciativa já nasce morta.

A história está repleta de exemplos que ilustram esse poder do acreditar. Pensemos em Martin Luther King Jr., o mártir da luta pelos direitos civis americanos, que, com seu sonho de igualdade, moveu multidões e inspirou mudanças profundas. Seu acreditar gerou uma grande energia coletiva. Ele acreditava tão intensamente na justiça e na igualdade que seu sonho não apenas moldou seu próprio destino, mas também o de uma nação inteira. Seu sangue jorrou sob a mira de um assassino, no entanto, sua fé na possibilidade de um mundo melhor acendeu a chama da esperança em corações que por muito tempo haviam sido obscurecidos pelo desespero.

Da mesma forma, Gandhi acreditou na força da não-violência e, com essa crença, conseguiu liderar a Índia à independência sem disparar um único tiro. Foi um acreditar silencioso, mas firme, que resistiu às armas e à opressão, provando que a fé em princípios maiores pode transformar a realidade. Cada passo que Gandhi dava, cada greve de fome que ele enfrentava, era um testemunho de que o poder da crença pode mover montanhas.

No entanto, o acreditar não está restrito aos grandes líderes ou aos movimentos históricos. Ele reside em cada um de nós, em nossos gestos cotidianos, em nossas pequenas batalhas. Está presente no agricultor que planta suas sementes acreditando na colheita futura, no professor que ensina acreditando no potencial de seus alunos, no artista que cria acreditando na beleza de sua visão.

Acreditar é, portanto, a força motriz por trás de cada ação significativa. É a faísca que acende a chama da inovação, da descoberta, da mudança. Sem acreditar, a vida se torna uma sequência de atos vazios, desprovidos de propósito e direção. Mas, com a crença, cada momento ganha significado, cada desafio se transforma em oportunidade, cada sonho pode se tornar realidade.

E assim, seguimos adiante, cada um com suas crenças, suas fés, seus sonhos. E é essa diversidade de crenças que enriquece a tapeçaria da humanidade, fazendo-nos lembrar que, no fundo, todos buscamos algo maior que nos transcenda, algo que dê sentido às nossas jornadas. Acreditar, afinal, é o que nos faz humanos.

 

sábado, 16 de dezembro de 2023

QUANDO DEIXEI DE ACREDITAR EM PAPAI NOEL

 

 ElsonMAraújo

Neste dezembro de 2023, mais precisamente no próximo dia 25, completarão-se 49 anos desde que deixei de acreditar em Papai Noel. A ruptura com essa lúdica crença num personagem lendário da cultura cristã ocidental foi traumática. Numa só noite/madrugada fui acometido de sentimentos incompreensíveis para um menino, ainda na primeira infância. Devo ter chorado por pelo menos um dia. Tinha seis anos de idade, vivi um verdadeiro luto.

Hoje identifico que até a ficha cair e descobrir que Papai Noel era uma ficção, sofri com o sentimento de culpa. Afinal, o que teria eu feito de ruim para que naquele Natal, o “bom velhinho” não deixasse meu presente no “pé da minha rede”?

Justo naquela noite tinha armado um plano para flagrar a chegada do Papai Noel. No ano anterior, me esforcei, mas não o vi chegando com um carrinho de plástico vermelho, que durou até o meio do ano. Gostava de carrinhos e naquele Natal, de 49 anos atrás, torcia para ganhar uma C 10. Uma C 10 verde, igual à que um primo tinha sido contemplado, dois anos antes.

O plano para flagrar o Papai Noel era fingir que estava dormindo. Uma luta inglória, pois o sono era grande demais. Mesmo assim, com aquele plano na cabeça, no menor dos barulhos eu acordava e dizia para mim mesmo: “É ele!” O barulho sumia. Olhava para debaixo da rede, não via o carrinho que pedi e voltava a dormir. E assim, foi até amanhecer o dia. Não teve presente nenhum.

Para garantir o presente do Papai Noel, a orientação dos irmãos mais velhos, pais e professores, era pra gente ser sempre obediente, estudioso, respeitar os mais velhos, e ir à missa das crianças todos os domingos. Havia feito tudo isso, o ano inteiro, mas, mesmo assim, não ganhei meu carrinho.

Por mais que vasculhasse a memória não encontrava nenhum delito que motivasse aquele castigo. Teria sido porque tentei vê-lo? Nada justificava. Tinha certeza que tinha sido um bom garoto.

Do sentimento de culpa nasceram a frustração e o ódio. Nunca perdoaria o Papai Noel por aquela covardia. Prometi que iria odiá-lo para sempre.

Como não parava de chorar, minha família preocupada, designou minha irmã normalista Margarete  para a missão de me explicar o que ocorrera de verdade. Já era grandinho e estava na hora de saber que Papai Noel não existe.

Sempre muito habilidosa, minha irmã foi por longe. Me pôs nas pernas, enxugou minhas lágrimas, disse que eu era bom menino e que Papai Noel não viera naquela Natal não por alguma peraltice que eu tivesse feito, e sim porque, simplesmente, não existia.

-Mas ano passado ele veio, deixou até meu carrinho vermelho. É mentira, ele existe sim.

-Não, meu querido irmão. Não existe! Quem sempre deixou o presente de Natal debaixo da tua rede foi o papai. Este ano ele não teve dinheiro para comprar presente para todo mundo e para beneficiar um e outro não, preferiu não presentear nenhum dos filhos.

A notícia foi devastadora. Eu não conseguia acreditar que aquele mundo mágico que eu havia construído na minha cabeça não passava de uma fantasia. O Papai Noel não existia? Como isso era possível?

Senti-me traído, enganado.

O choro foi embora, mas durante dias, fiquei pensativo, tentando entender aquela nova verdade. Não queria conversa com mais ninguém. Aos poucos, fui me acostumando com a ideia de que o Papai Noel não existia

O lado positivo da experiência do Natal dos meus seis anos de idade, foi um importante passo no meu processo de amadurecimento. Foi a primeira vez que fui confrontado com a realidade, com o mundo como ele realmente é. Para completar, naquele ano me deparei com a primeira noticia do assassinato de uma pessoa, o prefeito da cidade, Joaquim Baltazar tinha sido morto por pistoleiros. A cidade era Axixá (GO) , hoje pertencente ao Estado do Tocantins.

Aprendi que nem tudo é o que parece, que existem mentiras e decepções. Mas também aprendi que é importante manter a fé, mesmo quando tudo parece perdido. Afinal, mesmo que o Papai Noel não exista, ainda existia pessoas boas no mundo, como meu saudoso pai, dispostas a fazer o bem.

 

domingo, 3 de dezembro de 2023

Saudade, alimento da alma



ElsonMAraujo

Em memória da professora Maria Luíza Brandão

 Para quem gosta de escrever, e escreve com regularidade, alguns temas são recorrentes. Às vezes, por achar repetitivo, você até tenta empurrá-los mais para frente, mas, quando o escriba se rebela, vem a vingança, não me pergunte da parte de quem, e a escassez de inspiração aparece, dando origem a uma briga silenciosa.  É que, enquanto o tal {texto} que insiste em nascer não é liberado, a fila não anda e a inspiração para outro assunto, não flui. Não duvide!  Sou testemunha disso.  Acontece comigo sempre. Hoje, a insistência é da tal da saudade. 

Não sei se é por conta da maturidade, mas saudade tem sido um desses temas que chegam a mim com frequência. Acredito que não se trata de uma exclusividade, minha.  Aos sábados, quando o Jornal O Progresso, da cidade de Imperatriz, sudoeste do Maranhão, abre as cortinas do seu caderno de literatura, é comum encontrar um ou mais textos versando sobre saudade. O campeão, disparado, é o mestre das crônicas Clemente Viegas, talvez eu fique em terceiro, ou quem sabe, quarto lugar.

A professora Maria Luiza Brandão, de saudosa memória, a mãe do Carlos, também in memoriam, e do Francisco Brandão, e avó do jornalista Carlos Henrique, do Márcio e da Marcella, gostava de conversar comigo, muita antes de eu me aventurar nessa seara da literatura, sobre as crônicas que todos os sábados ou aos domingos ela lia em O Progresso, e no caderno de cultura do Jornal O Estado do Maranhão. Quando não destacava Sálvio Dino, que era cronista semanal de O Estado, comentava Viegas, há anos questionando o social nas páginas de O Progresso e nas ondas da Radio Mirante AM, de São Luís. E não tinha jeito, o que mais lhe chamava atenção era quando os dois cronistas destacavam o elemento saudade.

“A gente viaja nas histórias do Viegas. Ele nos conduz para dentro do que conta, fazendo a gente sentir saudade, sem saber nem do que.  O Doutor Sálvio, é outro. Gosto demais do que eles escrevem”, dizia a inteligente e antenada professora despertando ali, naquele instante, uma vontade danada de também começar a escrever crônicas.

Tenho saudade das conversas havidas com a professora, que era uma grande contadora de histórias.  Pelo menos uma vez por semana, ali na esquina da Simplicio com a Rua São Domingos, lá estava eu, a provocá-la sobre qualquer assunto. De política a literatura, de tudo ela tinha uma observação.   Com o tempo, e o fortalecimento dos laços fraternais, com a permissão do Carlos e do Francisco, passei a chamá-la de “mãe Maria Luíza”, seguida da frase “a moça mais bonita do quarteirão”. Percebi que ela gostava daquele mimo.  E foi assim, até ela adoecer, fechar o comércio, e partir para o Oriente Eterno.

Foi numa das conversas com Mãe Maria Luíza Brandão, que descobri a história do Frei Alberto Beretta, o padre/médico de Grajaú, que na década 1960 ganhou fama de santo pelas curas inimagináveis, para a época, de alguns doentes que se avistavam com ele.  A história me rendeu uma bela reportagem sobre o padre, que no interior do Maranhão teria sido, embora não reconhecido, o precursor do uso de células tronco na cura de determinadas doenças. O texto foi publicado em O Progresso, e no Jornal o Estado do Maranhão, ganhou as redes sociais e repercute até hoje.

Embora, em regra, o elemento saudade nos leve às lágrimas, não deixa de ser um tema leve. Digo até que é um dos principais alimentos para sagrar a imortalidade daqueles ou daquelas que partiram para outros planos.

A saudade hoje, é dela. Da professora Maria Luiza Brandão, a paraibana, da cidade de Esperança, que por anos exerceu o magistério em Imperatriz, e ajudou a formar centenas de bons cidadãos.

 

 

sábado, 14 de outubro de 2023

FRATERNOS

 

ElsonMAraújo

Terra, fogo, água e o ar são os elementos da Natureza. Todos eles importantes para a composição da vida na Terra. Mas, um é mais do que todos porque verdadeiramente conecta os seres vivos do Planeta Terra: O elemento ar. Já tinha pensado nisso?

Queiramos ou não nós, negros brancos, amarelos, índios, estamos todos irmanados pelo ar que respiramos. Não é preciso nem buscar alguma prova disso.  É só imaginar a superfície terrestre privada por alguns minutos desse elemento vital, o oxigênio. O espírito que em nós tem abrigo seria expulso sem demora é só sobraria a carcaça que desapareceria consumida pelo elemento terra.  “Do pó viemos ao pó voltaremos”

Assim, como não pode existir o fogo e água sem a sagrada partícula do oxigênio, a vida também não. A gente pode até aguentar alguns dias sem água, sem comida; mas sem respirar, essa possibilidade é igual a zero.

O oxigênio que cobre os continentes é o mesmo. O que muda, é a forma como ele é tratado.  Em algumas cidades do mundo a poluição do ar é uma realidade presente e letal; são milhões de partículas poluentes lançadas ao vento,  e  que já afeta a saúde igualmente  de milhões de pessoas e tudo isso provocado pela ação do próprio homem.

Dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) apontam que 80% das cidades possuem um nível de poluição do ar acima do que é saudável para o ser humano. China, Índia, Irã e Arábia Saudita, já abrigam as cidades com o ar mais poluído do mundo. O ar não tem fronteira e quem não polui também acaba afetado. Triste, uma coisa dessa.

Como é difícil compreender essa situação:  se o ar (oxigênio) é o elemento vital para a vida na Terra por que dele os homens não cuidam?   O mundo, que já sofre pela escassez de água, não demorará muito estará chorando pela escassez generalizada de ar puro para respirar com o real risco da auto extinção

Os poetas, romancistas, ensaistas, compositores, enfim, quem gosta de escrever e pensar o mundo, costumo dizer, têm um quê de profeta. Em pare o mundo que eu quero descer, composta na década de 1970, o cantor e compositor  Silvio Brito,   como já prevendo essa grande tragédia ambiental  escreve,  e canta: 

 


“Pare o mundo

Que eu quero descer

Que eu não aguento mais

Escovar os dentes

Com a boca cheia de fumaça...”

 

Num outro trecho o autor se aprofunda:

 

“E pensar que a poluição

Contaminou até as lágrimas

E eu não consigo mais chorar

E ainda por cima...

Tem que pagar pra nascer

Tem que pagar pra viver

Tem que pagar pra morrer...

Tá tudo errado

Tá tudo errado

Desorientado segue o mundo

Enquanto eu vou

Ficando aqui parado”

É ou não é,  o retrato do mundo em que hoje vivemos?

O que não pode são os homens de bem e de boa vontade ficarem sentados naquela condição cantada por outro profeta musical brasileiro, o mestre Raul,  num trecho da sua Ouro de tolo:  Eu é que não me sento no trono de um apartamento Com a boca escancarada, cheia de dentes esperando a morte chegar. ..

 


sábado, 7 de outubro de 2023

A LATA DE FRITO



ElsonMAraujo

 

As memórias, prefiro as boas, tornam imortais nossos entes queridos.  Quando menos a gente espera, um cheiro, uma música, uma paisagem, uma viagem, uma música; pronto, lá vêm o retumbar das memórias, uma atrás da outra, a nos transportar ao doce jardim das lembranças. Lá, livremente, voltamos a reviver as vidas encarnadas, principalmente na infância e na adolescência. Feliz de quem consegue ancorar boas memórias. É que elas, às vezes, costumam funcionar como um bálsamo para nossas dores.

Carrego boas memórias dos meus pais, que há muito partiram para o Oriente Eterno. Uma ausência presente, como diria minha dileta confreira, da Academia Imperatrizense de Letras Liratelma Alves. Dia desses, ela falava sobre as ausências presentes, e as presenças ausentes. Achei aquilo fantástico, já que se aplica direitinho na minha relação com meus pais, ausências sempre presentes.

Há pelo menos duas semanas que sou visitado pelas memórias da minha adorável mãe, principalmente as vividas na infância. Éramos, unha e carne.   Não fui um menino fácil, mas ela nunca deixou de me proteger. Por diversas vezes, quando era ora de dormir, antes de adormecer, a escutava rezando bem baixinho pedindo a Deus que protegesse sempre a mim, e a meus irmãos.  Gostava demais daquilo, e dormia. Dormia feito um anjo.

Ontem, às 13h55, ainda sem saber com o que ocupar este espaço, preocupado porque falhei na semana passada e não querida falhar novamente, minha mãe veio ao meu socorro. Pegou nas minhas mãos e me transportou aos meus sete anos de idade. É, não consigo lembrar de coisas havidas há 20 minutos, mas consigo lembrar bem,  de muitos fatos da infância. E assim, aconteceu.

Morávamos numa pequena cidade. Não havia água encanada, e só os mais abastados tinham poço no quintal, o que não era nosso caso.  Para beber e lavar louça, era até fácil. A água vinha do poço da casa vizinha. Agora, para lavar roupa, a coisa complicava. Exigia uma certa logística, que começava um dia antes, quando minha mãe juntava a roupa suja da semana.  Não havia sabão em pó, nem desses bonitinhos que a gente compra na quitanda. O sabão, quase sempre era de fato de porco e potassa.

Cuidadosamente minha mãe ia separando a roupa suja para formar uma imensa trouxa. Feito isso, vinha a parte da qual mais gostava: o frito de galinha caipira, temperada com alho, sal, pimenta do reino, e o cheiro verde (cebolinha, coentro) tirado de um canteiro, no fundo do quintal.  Nunca faltou uma penosa no quintal lá de casa.  Depois de pronta, a iguaria era misturada numa farinha (puba) e posta numa lata, e tampada. Só seria aberta, ao meio dia, do dia seguinte, no intervalo da lavagem de roupa. Dormia, pensando no frito.

Não me pergunte como minha adorável mãe conseguia andar, cerca de um quilômetro, com uma trouxa de roupa na cabeça, sem nenhuma ameaça de queda, levar debaixo do braço uma lata de frito, ficar de olho no peralta do Elson Araújo que lhe acompanhava nessa aventura, e ainda ficar atenta na vereda que conduziria até a beira do brejo, numa propriedade rural que o dono abria para as donas de casa lavar roupa.  Fazia tudo isso e ainda cantava. Confesso, que naquela idade, só pensava mesmo era no frito da hora do almoço.

Enquanto minha mãe “batia a roupa”, eu passava o tempo mordendo manga, e chupando caju. Era tanta fartura que deixava tudo pela metade. Os dentes, ainda de leite, ficavam dormentes, mas eu nem ligava. Entre uma mordida e outra, o pensamento voava até a lata de frito.

No pingo do meio dia, começava a ouvir de longe minha mãe me chamar.  Ela já havia terminado a lavagem e punha a roupa espalhada pelas ramagens para quarar (procedimento que consiste em deixar as peças ensaboadas expostas ao sol por um longo período).

 A palavra mágica era “ Elsonnnn, vem almoçarrrr”. Largava tudo e lá ia eu correndo, descalço, sem medo de ferir os pés ou levar uma queda. Chegava o momento da abertura da lata de frito.


Minha mãe, parecia que sabia do prazer que tinha de vê-la abrir a lata de frito e subir aquele cheiro, curtido de um dia para o outro, que só os iniciados são capazes de compreender. E era assim, ela só abria a lata quando eu chegava.

Com o vestido de chita molhado, colado ao corpo, minha mãe sentada na tábua de lavar roupa, me chamava para perto dela, e ali, só eu e ela, debaixo do sol quente, sob o testemunho do canto do bem-te-vi, das pipiras, do anum, e do barulho da água batendo nas pedras, ela, ritualisticamente, abria a lata de frito.

Para se juntar àquele saboroso banquete, um punhado de peixinhos cercava a tábua de lavar roupas para também se deliciar com punhados de farofa que caiam no brejo a cada mordida nos pedaços do frito da caipira. E eu, ali, hipnotizado, já pensando na próxima lavagem de roupa.

Gratidão, querida mãe.

 

 

 

Esperança não nasce em árvores

ESPERANÇA  Então, nada aconteceu. Esperança não nasce em árvores Ela nasce no mais recôndito cantinho do coração ENTRE/MENTES  Entre mentes ...